Arqueólogos descobriram, sob uma antiga árvore de Ceiba na periferia de Tegucigalpa, o fóssil de um dinossauro de 150 milhões de anos. O lugar não ficou pela descoberta mais famoso do que já era; posto que era à sombra daquela Ceiba, dizem, que costumava fazer la siesta o famoso escritor hondurenho Augusto Monterroso.
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
21 maio, 2009
444. o mestre dos bonecos
Manipulava as marionetes como ninguém – tinha sido instrutor do próprio Imperador.
443.um anjo
Sua vida andava apagada, seus dias eram foscos assim como seus olhos. Sentado naquela praça, desprovido de ânimo, mal via quem passava. Foi quando aquele anjo de cara suja e asas rotas com uma caixa de madeira às costas se aproximou e perguntou: vai um brilho aí, moço??
442. reaproximação
Ele entrou no Brega e, como tinha visto de outras vezes que ali estivera, lá estava ela, sozinha, sentada na mesma mesa. Fumava. Os pensamentos pareciam se enredarem e se elevarem pela espiral de fumaça. Chegara cedo. Antes de começar o movimento. Na radiola, Odair José interpretava com competência um clássico dos seu repertório. Aproximou-se. Postou-se bem à frente dela e levantou-lhe o queixo, já com algumas rugas disfarçadas pelo blush. Os olhos, aqueles olhos negros que uma vez o haviam enfeitiçado, permaneceram baixos, apáticos, opacos.
- Balbina...
- Shirley – respondeu ela, esquivando-se, evitando-o – Balbina morreu, já era!
- Mamãe também – deu-lhe a notícia esperando dela qualquer expressão ou gesto.
- Não já passava da hora?- riu com sarcasmo.
- Todo mundo tem sua hora, Bina.
- Shirley.
- Como quiser.
Pediu uma cerveja e dois copos, puxou uma cadeira.
- Quero te pedir que voltes para casa.
- Quando tivestes que escolher, foi a ela que escolhestes.
- Minha mãe tinha grande influência sobre mim, tu bem sabes. Agora... Agora ela é morta. Vamos enterrar junto com ela o passado.
- Já está enterrado. E tu.. tu fazes parte dele.
- Podemos tentar... Quem sabe... Você não acha?
Os primeiros clientes começaram a chegar. Eram insetos atraídos pelas lâmpadas rubras pendentes do teto e pelo cheiro das fêmeas. Odair José já passeava por outra faixa do LP. Ele teve que tomar a cerveja sozinho.
- Balbina...
- Shirley – respondeu ela, esquivando-se, evitando-o – Balbina morreu, já era!
- Mamãe também – deu-lhe a notícia esperando dela qualquer expressão ou gesto.
- Não já passava da hora?- riu com sarcasmo.
- Todo mundo tem sua hora, Bina.
- Shirley.
- Como quiser.
Pediu uma cerveja e dois copos, puxou uma cadeira.
- Quero te pedir que voltes para casa.
- Quando tivestes que escolher, foi a ela que escolhestes.
- Minha mãe tinha grande influência sobre mim, tu bem sabes. Agora... Agora ela é morta. Vamos enterrar junto com ela o passado.
- Já está enterrado. E tu.. tu fazes parte dele.
- Podemos tentar... Quem sabe... Você não acha?
Os primeiros clientes começaram a chegar. Eram insetos atraídos pelas lâmpadas rubras pendentes do teto e pelo cheiro das fêmeas. Odair José já passeava por outra faixa do LP. Ele teve que tomar a cerveja sozinho.
20 maio, 2009
441. o sumotori
Kumori, o okinawano, sentiu-se incrivelmente leve nos seus cento e cinqüenta quilos aquela manhã. E pensou que estava a sonhar ao se dar conta que flutuava suave por sobre os telhados da aldeia como se fosse uma nuvem. Dali pode, por exemplo, contemplar a florada das cerejeiras que se estendia exuberante até as encostas da Montanha da Tartaruga. Intrigou-lhe a total ausência de brisa que inquietava os bambuzais e a face polida e tranqüila do lago das carpas da praça principal. Os tambores rituais do templo xintoísta estavam mudos, sisudos. O universo, com suas cores desbotadas, apresentava-se definitivamente estático. No pátio do antigo castelo, em volta de um círculo, viu, não sem desconfiança, uma multidão silenciosa e reverente. Dentro do círculo, agachado sobre os calcanhares, achava-se um jovem sumotori que ele reconheceu como sendo Shida Mamoro, de Hokkaido; este, diante de um pálido desafiante prostrado e sem os sinais vitais, parecia chorar. Só então Kumori percebeu que ganhava altura e que tudo o mais parecia tornar-se insignificante.
440. vocação
Voar está no seu sangue – começou como avião no morro; hoje pilota um Cesna entre Pedro Juan Caballero e os canaviais de Ribeirão Preto.
15 maio, 2009
438. a novidade
Aquele dia Marlo acordou cedo sem reclamar, comeu frutas e cereais no café da manhã e salada de almeirão no almoço, chegou pontualmente à escola, assistiu atentamente às aulas, voltou direto para casa, fez todas as atividades escolares, tomou banho, escovou os dentes e dormiu cedo – por tudo isso acumulou-se uma quantidade substancial de bônus para o dia seguinte, quando ele seria submetido aos obstáculos do nível 2. Diante do monitor, aferrada ao joystick, sua mãe era de uma felicidade só. E a pensar que a princípio ela chegara a duvidar das potencialidades daquele game pedagógico!!
437. mino, o pequenino
“Em nome de que potentado vens a mim, ó homem de diminuta compleição? – inquiriu, soberbo e soberano, do alto do magnífico corcel azeviche que o tornava ainda mais imponente, Alexandre, o Grande, ao anão que lhe trouxeram suspenso pelos bracinhos curtos os soldados-batedores.
“De nenhum daqueles pobres governantes que ao teu poder belicoso se submetem ou hão de se submeter, ó supremo conquistador. Venho antes em meu próprio nome: sou Mino, o pequenino, filho bastardo de Horácolo”
Houve, reza a antiga lenda, um silêncio ensurdecedor sem dimensões ante tamanha ousadia que nem mesmo os amaldiçoados insetos que infestavam àquelas remotas paragens da Ásia Menor ousavam maculá-lo com seu irritante zumbido.
“Vosso nome e o do vosso pai nada são e nada me dizem. Mas é demasiado grande a vossa afronta comparada ao vosso tamanho”, advertiu Alexandre, não escondendo porém a admiração pela coragem daquele homenzinho corrugado e corcunda que parecia ter sido parido do ventre das montanhas vermelhas em forma de corcova que os exércitos da Macedônia então cruzavam.
O pequenino não desviou nem baixou os olhos miúdos; assim como não cogitou voltar atrás no que dissera.
“O que vem de baixo jamais me atinge!”, advertiu soberbo o Semideus. “Mas enfim, dizei-me o que queres, que sobre tudo e todos, nos céus, na terra e no mar, legislo e reino absoluto”
“Não quero nada senão o direito de olhar nossos vossos olhos, ó Rei dos reis!”
Alexandre relaxou a postura e riu embevecido: “Um admirador dos meus feitos, é o que tu és?”
“Sim, majestade. Pereceria frustrado da mesma forma se não o visse antes que morresse”
“E quem disse que pretendo matá-lo, ó miúdo?”, divertiu-se o Macedônio. E com ele riram seus generais e ordenanças.
“Desculpe-me, senhor! Quis dizer, antes de vossa morte”
Uma nuvem negra eclipsou o sol do meio-dia. Murmúrios de incredulidade em uníssono reverberaram nas encostas sem vegetação. Alexandre, repentina e definitivamente, perdeu a divina paciência, encolerizou-se, e ordenou que executassem o anão ali mesmo;o que não representou tarefa difícil para o seu arqueiro preferido.
Dias depois, em sonho, encontram-se novamente, vítima e algoz. Uma espécie de deja vu.
“Que queres?”, pergunta Alexandre com a mesma autoridade de sempre.
“De vós nada, senão esperar”
“Esperar o que, ó ser ínfimo?”
“Esperar por vós, ó nobre guerreiro, que não deveis demorar!”
“De nenhum daqueles pobres governantes que ao teu poder belicoso se submetem ou hão de se submeter, ó supremo conquistador. Venho antes em meu próprio nome: sou Mino, o pequenino, filho bastardo de Horácolo”
Houve, reza a antiga lenda, um silêncio ensurdecedor sem dimensões ante tamanha ousadia que nem mesmo os amaldiçoados insetos que infestavam àquelas remotas paragens da Ásia Menor ousavam maculá-lo com seu irritante zumbido.
“Vosso nome e o do vosso pai nada são e nada me dizem. Mas é demasiado grande a vossa afronta comparada ao vosso tamanho”, advertiu Alexandre, não escondendo porém a admiração pela coragem daquele homenzinho corrugado e corcunda que parecia ter sido parido do ventre das montanhas vermelhas em forma de corcova que os exércitos da Macedônia então cruzavam.
O pequenino não desviou nem baixou os olhos miúdos; assim como não cogitou voltar atrás no que dissera.
“O que vem de baixo jamais me atinge!”, advertiu soberbo o Semideus. “Mas enfim, dizei-me o que queres, que sobre tudo e todos, nos céus, na terra e no mar, legislo e reino absoluto”
“Não quero nada senão o direito de olhar nossos vossos olhos, ó Rei dos reis!”
Alexandre relaxou a postura e riu embevecido: “Um admirador dos meus feitos, é o que tu és?”
“Sim, majestade. Pereceria frustrado da mesma forma se não o visse antes que morresse”
“E quem disse que pretendo matá-lo, ó miúdo?”, divertiu-se o Macedônio. E com ele riram seus generais e ordenanças.
“Desculpe-me, senhor! Quis dizer, antes de vossa morte”
Uma nuvem negra eclipsou o sol do meio-dia. Murmúrios de incredulidade em uníssono reverberaram nas encostas sem vegetação. Alexandre, repentina e definitivamente, perdeu a divina paciência, encolerizou-se, e ordenou que executassem o anão ali mesmo;o que não representou tarefa difícil para o seu arqueiro preferido.
Dias depois, em sonho, encontram-se novamente, vítima e algoz. Uma espécie de deja vu.
“Que queres?”, pergunta Alexandre com a mesma autoridade de sempre.
“De vós nada, senão esperar”
“Esperar o que, ó ser ínfimo?”
“Esperar por vós, ó nobre guerreiro, que não deveis demorar!”
14 maio, 2009
436. o mártir
Embora eu seja magro, delgado mais para o raquítico, foi-me deveras penoso compartilhar o assento do ônibus com aquela senhora de massa corporal avantajada. Injusto compartilhamento: três quartos para ela, um para mim. Como o percurso a ser percorrido levava algumas horas, ao longo delas, por tal penitência não declarada pelo pároco da nossa freguesia, desconfio que tenha zerado finalmente a minha cota de culpas e pecados veniais. Trocamos poucas palavras. Explico: a minha companheira de viagem não era lá de conversar muito e percebi que ocupava melhor suas mãos e boca com outra atividade mais dinâmica: a da ingestão. Seus maxilares davam duro sob as papadas e pareceram-me rodas dentadas, engrenagens azeitadas de uma verdadeira máquina de triturar.
Ao desembarcarmos na estação da Praça Garibaldi, senti-me como um mártir cujo corpo tivesse sido submetido a, digamos, um torturante espremedor de laranjas ( pergunto-me como foi que os inquisidores não tiveram esta brilhante e sádica idéia) e desabafei com um suspiro de profundo alívio:
“Descei sobre nós, ó Espírito Santo!”
Algumas velhinhas que também desciam do nosso ônibus, testemunhas oculares do meu triste martírio, se persignaram ou beijaram com fervor seus escapulários quando, não por um alto desígnio do divino, mas por causa das tantas migalhas impregnadas no meu terno, cabelos e bigode, uma revoada de pombos desceu sobre mim.
Ao desembarcarmos na estação da Praça Garibaldi, senti-me como um mártir cujo corpo tivesse sido submetido a, digamos, um torturante espremedor de laranjas ( pergunto-me como foi que os inquisidores não tiveram esta brilhante e sádica idéia) e desabafei com um suspiro de profundo alívio:
“Descei sobre nós, ó Espírito Santo!”
Algumas velhinhas que também desciam do nosso ônibus, testemunhas oculares do meu triste martírio, se persignaram ou beijaram com fervor seus escapulários quando, não por um alto desígnio do divino, mas por causa das tantas migalhas impregnadas no meu terno, cabelos e bigode, uma revoada de pombos desceu sobre mim.
435. edberto, o homem-estátua
Edberto era um rapaz honesto e de boa índole que, vítima do desemprego, decidiu virar homem-estátua. Todo santo dia, fizesse sol ou chuva, lá estava o Edberto, na Praça da Sé, batalhando imóvel por uns trocados. No dia sete de agosto de 1999, logo pela manhã, os funcionários da Subprefeitura do Centro vieram com um caminhão-baú e removeram o Edberto para o largo da Batata; e ele, por mais que tentasse opor resistência àquela arbitrariedade, não conseguiu articular palavra alguma nem se mexer. Em Pinheiros, firmado em um canteiro mal-cuidado e já resignado, Edberto-estátua adormeceu e acordou, sem saber como, novamente na praça da Sé, entre mendigos e pombos. Nova remoção foi providenciada e, dias depois, lá estava o Edberto-estátua outra vez no centro da cidade. O fato inusitado e inexplicável gerou polêmica e ganhou imediatamente as manchetes dos matutinos sensacionalista. Porém, de tão explorado que foi, perdeu a graça e acabou se tornando desinteressante. Menos, é claro, para os devotos de São Edberto que todo dia sete de Agosto levam a sua imagem em procissão da Praça da Sé ao Largo da Batata, de onde, certamente, como sempre tem sucedido, ele há de por seus próprios meios retornar. Se um dia isso não acontecer, dizem, o rio Pinheiros vai reverter o seu curso e pode ser até que garoe em São Paulo.
434. um milagre
- Diz-me com quem andas... disse o mestre – que te direi quem és.
- Então - contestou o jovem que lhe ouvia atento - não saberás jamais quem sou, Rabi!
- E por que pensas assim, ó filho?
- Como direi com quem ando se sequer "ando"?
- Sábia dedução – disse o Mestre a sorrir e dando plena razão àquele pobre rapaz que desde a infância vivia entrevado. E assim, entendendo que a situação exigia um milagre, ordenou com um gesto:
- Levanta-te e anda, filho! Para que eu possa te conhecer!
12 maio, 2009
433. versão contestável
Vim, vi e venci – apregoou Julio descaradamente. Pois soube-se depois que quem na verdade havia vindo era César seu irmão gêmeo; E visto não havia pois que ambos os irmãos pelo o que se sabe eram cegos de nascença – já o fato de cantar vitória, trata-se apenas e tão somente da sua versão. Contestável até que possa ouvir o outro lado.
En fila índia los soldados pakistaníes (em fila indiana os soldados paquistaneses.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
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432. seriado I
La novicia voladora no tenía licencia ( a noviça voadora não tinha brevê )
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
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431. o sonho de monterosso
Perdió el sueño y contó dinosaurios.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
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07 maio, 2009
429. 19 de abril
“Se eu te devorasse, irmão Xavante, apenas absorveria tua alma atormentada e somaria o teu medo ao meu medo, o teu desânimo ao meu próprio desânimo”, observou velho o pajé Severino Abmarãã, dos Krenak, lembrando do tempo em que viviam em guerra entre si e devoravam seus prisioneiros para nutrir-se de seu espírito guerreiro e de sua coragem.
Ao seu lado o Cacique Ernesto Kuhodu apenas assentiu com a cabeça adornada com um triste cocar de penas de pombo que improvisara ali mesmo na Esplanada dos Ministérios onde estavam acampados há mais de um mês. E dividiram a “quentinha” nem tão quente assim doada pelas Missionárias Irmãs da Caridade.
Ao seu lado o Cacique Ernesto Kuhodu apenas assentiu com a cabeça adornada com um triste cocar de penas de pombo que improvisara ali mesmo na Esplanada dos Ministérios onde estavam acampados há mais de um mês. E dividiram a “quentinha” nem tão quente assim doada pelas Missionárias Irmãs da Caridade.
06 maio, 2009
428. com uma condição
Não gostava que me chamasse Jonas. Insistiu para que mudasse para Elias, Raul ou Eduardo. Disse que concordava desde que ela fizesse a sempre adiada operação de redução do estômago.
05 maio, 2009
427. conversão
Eu era ladrão de cabelos (melenas dão uma boa grana no mercado negro de apliques). Há melhor lugar para perscrutar possíveis vítimas que aqui na Igreja Evangélica Filhos de Betsebá? Eu vinha sempre e acabei me convertendo.
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