O Joystick era um REM HG 600. Como num vídeo-game ele apontou, apertou o gatilho e agüentou firme o coice poderoso da arma. O pássaro de aço atingido em cheio pegou fogo, rodopiou e se espatifou ali no campinho onde ele costumava bater bola com a galera quando ainda era um inocente olheiro. Virou o herói do dia. Era o cara. O chefe do Morro dos Macacos, em pessoa, condecorou-o com a Ordem do Mérito dos Primatas Loucos e Cheirados. Fama efêmera: na manhã seguinte entregaram-no lá embaixo, varado de balas,dentro de um carrinho de supermercado, para causar efeito psicológico no inimigo.
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
05 novembro, 2009
516. o intruso
O intruso não lhe deu esperanças nem adeus e depois de se fartar com o seu corpo continuou a freqüentar todas as noites a casa dos seus sonhos. Para afastá-lo, descobriu um dia, precisava cultivar pesadelos. Neles o monstro encontraria oponentes à altura.
515. figuras de linguagem
Seu corpo era terrivelmente sensível às figuras de linguagem e ele não podia evitá-las. Quando ouvia músicas antigas, por exemplo, seus cotovelos doíam tanto que tinha que tomar doses substanciais de analgésicos para poder agüentar o tranco. Ao pegar-se desconfiado de alguém ou de alguma coisa, invariavelmente se formavam atrás das suas orelhas de abano inquietas colônias de pulga. Nessas horas sentia-se um cão e não um homem. Outra vez, quando ao terminar um relacionamento que lhe parecia promissor e seu par lhe disse para que sumisse da sua vida; sentiu , mais que mágoa ou ressentimento, doer-lhe os glúteos como se lhe tivessem dado um pontapé.
514. reu confessa
Foi em Itacorubi, lá na Ilha, assistindo à Farra do Boi que tive a idéia, que tramei tudo. E não me arrependo não, Doutor. Aquela vaca teve por merecer. Sou assim: quando eu ponho uma coisa na cabeça vou até o fim. E quando me põem então...
513. o homem invisivel
A segurança da Enterprise Co. Fertilizantes estava em primeiro lugar. Tecnologia de ponta com câmeras de alta definição, alarmes e detectores associada a agentes especialmente treinados parecia torná-la inexpugnável. Nada ali, pensava-se, podia passar despercebido; exceto Raimundo, o auxiliar de limpeza, que na sua simplicidade, também não percebia que não era percebido. Todos os dias, inclusive aos sábados, Raimundo trafegava por todos os ambientes daquela fortaleza sempre munido de um balde, detergente, panos, e esfregões, sem deixar vestígios dele ou de outrem – era o seu trabalho. Entrava no ginásio, no refeitório, nas salas onde ocorriam reuniões confidenciais onde eram traçados intrincados planos de ação, e ninguém se dava por sua presença – quem iria dar atenção a um personagem tão iníquo, tão sem importância? E havia ainda outros Raimundos. E eram todos, como ele, seres invisíveis, translúcidos. Um dia Raimundo foi cooptado ( ele não sabia o significado do verbo cooptar) para ser espião de uma empresa concorrente. Os benefícios (tíquete restaurante, passe de ônibus etc. compensavam) E foi quando finalmente o notaram.
512. guam
O velho soldado japonês encarapitado no alto do coqueiro, tem os novos inquilinos da ilha sob a mira do seu fuzil. O vento que sopra do mar desta vez lhe traz fragmentos esparsos, farpas de vocábulos, que ele consegue identificar como sendo na complicada língua do inimigo que ele ouviu quando criança nos cinemas do bairro de Ginza em Tóquio; além do cheiro forte, atrativo, sedutor, das fêmeas (éguas louras) no cio. Mais que ódio sente desejo. Sob os trapos da farda, depois de muitos anos, seu membro desperta e enrijece e esboçava uma reação.
23 outubro, 2009
511. namorada, precisa-se
Não era bonito nem interessante, nem experiente nem rico. Talvez fosse inteligente pois sabia de muitas coisas que os outros não sabiam, e tudo cultura inútil de que se valia sempre para uma coisa: impressionar. Sabia por exemplo a altura do Monte Everest, o hino nacional do Nepal, a capital do Uzbequistão, o lateral direito reserva da seleção uruguaia na copa de 50... Não sabia no entanto quem era seu pai, nem que fora adotado ou que comeu de sobremesa no almoço. Mas com isso não se importava; o importante é que tinha um objetivo, um propósito, ou nas suas próprias palavras, uma missão. E precisava mostrar que era capaz do sacrifício que se exigia para cumpri-la. Em suma precisava arranjar uma namorada. Não virtual, que já às tinha às pencas. Nem imaginária, pois sua imaginação tendia ao perfeccionismo fortemente influenciada pelo cinema e era bem capaz de idealizar uma super-modelo. Precisava mas era de uma namorada real, de carne e osso, que chorasse e risse, menstruasse quinzenalmente e morasse no mesmo bairro para que não precisasse ir longe demais pedalando sua velha bicicleta já que tinha fobia de transporte público.
510. o osbtinado
Rudolph H. planejou meticulosamente por anos a fio como cruzar a temível cortina de ferro que vergonhosamente dividia o seu país. Entusiasmado e esperançoso, sonhava todas as noites com a aquela façanha cuja consecução com êxito seria por assim dizer a coroação justa dos seus desmedidos esforços. Quando finalmente elaborou o plano perfeito, Eles vieram e derrubaram o muro. Rudolph foi abaixo junto.
Tempos depois, porém, resolveu que não devia entregar os pontos assim tão facilmente. Convicto de que tal afronta ao seu sonho sem dúvida exigia uma devida reparação, Rudolph entrou com uma petição junto ao Ministério da Justiça do seu país. A burocracia daquele órgão público, porém, tem-se mostrado um empecilho de proporções quase instransponíveis. Vencê-la, superá-la, é agora a razão de viver de Rudolph, o obstinado.
509. sodade
Ouvia no radinho de pilha Saudades de Matão, mas sentia mesmo era saudade de Santa Ernestina, que ficava logo ali adiante.
508. fragmentos
O peito apertado, o nó na garganta...Queria explodir, estilhaçar-se, fragmentar-se em mil pedaços. Via diante de si naquele ocaso melancólico não o mar de Copacabana físico e real , mas um oceano revolto de impossibilidades. Tudo porque sempre fizera escolhas ruins e andara – para o desespero dos pais – em péssimas companhias. Agora já não tinha os pais a se acharem no direito de opinar sobre sua vida; todavia tinha impressão, quase certeza, de que andar consigo mesmo já era um péssimo negócio.
O desânimo que nem ao menos lhe empurra ao parapeito. Os dedos enrijecidos pela artrite agrilhoados perpetuamente em anéis. Os brincos de jade, as roupas de grife, os 120 pares de sapato, o violino de cordas arrebentadas... Dos objetos inanimados cuja função resume-se em domar sua compulsão perdulária e preencher seus vazios, o vaso chinês - vítima de bala perdida seus cacos se espalhavam sobre o tapete persa - era o que mais invejava.
O desânimo que nem ao menos lhe empurra ao parapeito. Os dedos enrijecidos pela artrite agrilhoados perpetuamente em anéis. Os brincos de jade, as roupas de grife, os 120 pares de sapato, o violino de cordas arrebentadas... Dos objetos inanimados cuja função resume-se em domar sua compulsão perdulária e preencher seus vazios, o vaso chinês - vítima de bala perdida seus cacos se espalhavam sobre o tapete persa - era o que mais invejava.
507. no meio da noite
Telefonaram no meio da madrugada, ele atendeu sonolento e, do outro lado, lhe avisaram que ele tinha sofrido um grave acidente no cruzamento da rua tal com avenida tal. Sem ao menos trocar de roupa ele simplesmente pegou seu carro e dirigiu-se à toda para o local sem respeitar semáforo ou sinalização. No cruzamento da rua tal com a avenida tal havia um orelhão escarlate em cuja concha de acrílico se escondia o rosto de um corpo bem definido de mulher que ele não pode identificar pois, justamente nessa hora, perdeu o controle do carro.
506. nobre concisão
o Conde chamava-se Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans e Saxe-Coburgo-Gota. resumiu-se conciso: assinava d’Eu.
09 outubro, 2009
504. função
funcionário fantasma, recebia e nunca aparecia na repartição. sentia-se um completo inútil até que decidiu escrever: virou ghost writer.
503. 25 de março
Choveu canivete aquela tarde. Suíço. Mas, olhando bem, verifiquei que eram apenas cópias bem feitas. E olhando melhor, certifiquei-me, não estava chovendo: a Federal é que dava um rapa nos últimos andares da tradicional Galeria Pajé justo quando eu passava lá embaixo.
502. metáfora
Era reconhecido mundialmente como um mago da genética. Ao manipular o tecido das vísceras para dar forma ao órgão propulsor e vital materializou a metáfora: Fez das tripas coração.
ANTOLOGIA CONTOS IMEDIATOS

Foi marcado o lançamento da antologia de ficção científica organizada por Roberto de Sousa Causo, chamada Contos Imediatos. Será em 28 de novembro de 2009, das 15h00 às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509.
Os autores são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso e Tibor Tibor Moricz.
P.S. É a minha estréia em livro.
28 setembro, 2009
501. speranza
Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.
501. speranza
Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado por outro, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.
500. são francisco
na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.
500. são francisco
na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.
499. licantropo (hombrelobo juvenil)
Todas as noites antes de dormir, Jordi, o ambidestro, costumava trancar-se no banheiro da casa dos seus pais com sua coleção da playboy e praticar aquilo a que vulgarmente chamam de vício solitário. Um dia, ele, que era ainda um garoto imberbe, percebeu com assombro que pelos negros e grossos brotavam-lhe abundantemente das palmas de ambas as mãos. Sem saber bem ao certo o que fazer, foi ter com um amigo mais velho que lhe explicou que aquilo se dava quando alguém se excedia na prática do tal vício. e que ele devia maneirar.
foi com lágrimas nos olhos que Jordi voltou para casa e se desfez da fonte da sua inspiração. mas de nada adiantou; àquela altura o seu imaginário pornográfico estava solidamente consolidado e ele não conseguia mais se controlar.
Hoje, cinquentão e solteiro convicto, a imaginação já não tão fértil, Jordi ainda pratica esporadicamente o vício. Às vezes, quando lhe sobra algum ou ele ganha no jogo do bicho, vai às vias de fato: aborda e arrasta alguma dessas vagabundas do calçadão para um período de três horas no Lua Cheia. Naquele hoteleco cabeça-de-porco na Praça Carlos Gomes, segundo contam as tais meninas, na hora de gozar, ele costuma entrar em terrível e repulsiva convulsão e baba e uiva - mas paga direitinho.
foi com lágrimas nos olhos que Jordi voltou para casa e se desfez da fonte da sua inspiração. mas de nada adiantou; àquela altura o seu imaginário pornográfico estava solidamente consolidado e ele não conseguia mais se controlar.
Hoje, cinquentão e solteiro convicto, a imaginação já não tão fértil, Jordi ainda pratica esporadicamente o vício. Às vezes, quando lhe sobra algum ou ele ganha no jogo do bicho, vai às vias de fato: aborda e arrasta alguma dessas vagabundas do calçadão para um período de três horas no Lua Cheia. Naquele hoteleco cabeça-de-porco na Praça Carlos Gomes, segundo contam as tais meninas, na hora de gozar, ele costuma entrar em terrível e repulsiva convulsão e baba e uiva - mas paga direitinho.
Versão para o Espanhol:
Todas las noches antes de acostarse el ambidestro jordi costumbrava cerrar la puerta del cuarto de baño de la casa de sus padres y hojear su colección de playboy. A el como a cualquier adolescente le gustaba estimular los genitales y abandonarse al vicio solitario. No se demoró mucho para que él, aún un chico imberbe, descubrise con asombro unos pelos negros y gruesos a brotabarle en las palmas de las manos. sin saber exacto bien lo que hacer, lo contó fué tener con un amigo más viejo que le explicó que eso se daba por el exceso de práctica y que él debia disminuir el ritmo .
Sin otra salida, ojos llenos de lágrimas, Jordi se volvió hacia a la casa muy triste y si deshizo de la fuente de su inspiración. Todavia, eso de nada le servió; ya que su imaginación pornografica estaba muy bien definida y el no tuvo más como parar.
Hoy, cinquenton y soltero por opción, la imaginación ya no tan fértil, Jordi no obstante aun practica esporadicamente el vicio solitário.Sin embargo, cuando ahorra alguna plata o la gana en el juego del bicho se acerca y arrastra sin piedade a una de esas vagabundas del acero para un periodo en un hotelito de mala muerte en la plaza Carlos Gomes llamado Luna Llena;
Alli, según las chicas, en la hora del gozo él empeza terrible convulsión. De su boca mana espuma amarilla y aúlla terriblemente como se fuera un monstruo herido de muerte - todavia les paga bien.
Sin otra salida, ojos llenos de lágrimas, Jordi se volvió hacia a la casa muy triste y si deshizo de la fuente de su inspiración. Todavia, eso de nada le servió; ya que su imaginación pornografica estaba muy bien definida y el no tuvo más como parar.
Hoy, cinquenton y soltero por opción, la imaginación ya no tan fértil, Jordi no obstante aun practica esporadicamente el vicio solitário.Sin embargo, cuando ahorra alguna plata o la gana en el juego del bicho se acerca y arrastra sin piedade a una de esas vagabundas del acero para un periodo en un hotelito de mala muerte en la plaza Carlos Gomes llamado Luna Llena;
Alli, según las chicas, en la hora del gozo él empeza terrible convulsión. De su boca mana espuma amarilla y aúlla terriblemente como se fuera un monstruo herido de muerte - todavia les paga bien.
*. publicado no site: http://www.contosgrotescos.com.br
10 setembro, 2009
498. chá de sumiço (a Belchior)
Sumiu. Ninguém deu por ele pois não fez falta. Aliás, há tempos não fazia falta. Que se recorde desde que era zagueiro do Terrão F.C. em Sobral na década de Setenta.
497. síndrome de tcheckov
Anton era um médico competente e um escritor extremamente criativo; mas nas cantadas – atentem - era simplesmente um fracasso. Quando a dama passou com o cachorrinho em frente à janela do seu consultório àquela tarde ele saiu-se com esta pérola:
"É muita areia para o meu caminhãozinho!"
496. contatos
Que não lhe viessem com estórias de contatos imediatos. Um homem de ciência precisa ter antes de tudo paciência e perseverança. Como podia ser imediatista se vinha tentando se comunicar com os venusianos há pelo menos quarenta anos?
08 setembro, 2009
495. engarrafamento
Não tem como escapar. Nem há atalhos que possam servir de rota de fuga que as veias e vísceras da cidade estão todas congestionadas. É uma loteria: a cola passa de mão em mão e eles se animam e vem e escolhem uma fêmea desprotegida no flanco exposto da manada. E atacam. Os olhos infantis de bandido vidrados, injetados, estouram com naturalidade o vidro com insufilme e coletam o que lhes parece valer alguma coisa: a bolsa de grife que é uma imitação perfeita da que vendem na Daslu; o celular no console que é verdadeiro; os seios macios, que tocam curiosos, e que são falsos.
494. e agora?
José riu por último. Quando a festa acabou e todos já se tinham ido. E não riu melhor pois ria de si, do seu próprio ridículo e assumia o fato de que era uma piada. Então chorou. E só então sentiu-se melhor.
02 setembro, 2009
26 agosto, 2009
24 agosto, 2009
484. a proposta
Dorme e queima lata na própria obra. Faz economia. Cada centavo ganho cá lá no Norte vale o triplo. Domingo quase não sai. Não bebe, não fuma, apenas poupa, guarda. E guarda-se para Rosa que ficou lá em Novo Oriente, esperando-o para o fim do ano.
Do vigésimo andar obra tem vista privilegiada. Pode dizer que conhece São Paulo. De vista.
Agora os crentes deram de aparecer nos finais de semana. Sobem, distribuem revistas, versões de bolso do Novo Testamento, convites para o culto, oram, cantam cânticos.
O pastor é de uma cidade lá perto da sua. Fala empolgado, com desenvoltura, quase sem sotaque. Cita de cor os Evangelhos. Pede contribuição.
Ontem veio novamente. Tinha os olhos injetados e disse estar possuído pelo fogo do Espírito Santo. Tinha uma proposta. Ali mesmo no parapeito apontou para as centenas de minaretes de concreto erguidos por outros tantos conterrâneos que os precederam. “Assim como ao povo de Moisés coube erguer as pirâmides do Egito”, disse.
“Ajoelha-te e me presta adoração!”, disse o pastor. “E tudo isso será teu!”
Na sua simplicidade não pode entender que o homem recitava um versículo emprestado da Bíblia. Bíblia que jamais havia lido. Aliás, nunca havia sido capaz de juntar as letras, de aprender a ler.
Intuiu, pressentiu, porém, quão malévola era a proposta. Quando a esmola é demais, dizem lá na sua terra, até o santo desconfia. Não queria tanto. Queria apenas juntar um bom dinheiro e voltar para Rosa. Só isso.
“Meu mundo não é deste reino”, desculpou-se. E saiu. O outro quedou-se perplexo, boquiaberto, sem argumento.
Desceu. Lá embaixo sentiu-se pequeno, oprimido, um inseto. Na esquina salvou-o um bar aberto. Fazia frio. Entrou. E depois de cinco meses abstêmio, pediu uma pinga.
Do vigésimo andar obra tem vista privilegiada. Pode dizer que conhece São Paulo. De vista.
Agora os crentes deram de aparecer nos finais de semana. Sobem, distribuem revistas, versões de bolso do Novo Testamento, convites para o culto, oram, cantam cânticos.
O pastor é de uma cidade lá perto da sua. Fala empolgado, com desenvoltura, quase sem sotaque. Cita de cor os Evangelhos. Pede contribuição.
Ontem veio novamente. Tinha os olhos injetados e disse estar possuído pelo fogo do Espírito Santo. Tinha uma proposta. Ali mesmo no parapeito apontou para as centenas de minaretes de concreto erguidos por outros tantos conterrâneos que os precederam. “Assim como ao povo de Moisés coube erguer as pirâmides do Egito”, disse.
“Ajoelha-te e me presta adoração!”, disse o pastor. “E tudo isso será teu!”
Na sua simplicidade não pode entender que o homem recitava um versículo emprestado da Bíblia. Bíblia que jamais havia lido. Aliás, nunca havia sido capaz de juntar as letras, de aprender a ler.
Intuiu, pressentiu, porém, quão malévola era a proposta. Quando a esmola é demais, dizem lá na sua terra, até o santo desconfia. Não queria tanto. Queria apenas juntar um bom dinheiro e voltar para Rosa. Só isso.
“Meu mundo não é deste reino”, desculpou-se. E saiu. O outro quedou-se perplexo, boquiaberto, sem argumento.
Desceu. Lá embaixo sentiu-se pequeno, oprimido, um inseto. Na esquina salvou-o um bar aberto. Fazia frio. Entrou. E depois de cinco meses abstêmio, pediu uma pinga.
483. dos Insetos
Era uma vez uma borboleta chamada SunTzu que, em um café da moda, conheceu uma barata chamada Gregor Samsa. Entre um chá e um café expresso, entabularam uma animada conversa e descobriram interesses comuns: livros, vinhos, charutos, belas mulheres, música clássica... Mas como tudo é efêmero e superficial nessa vida de inseto, entre baforadas espessas o sonho logo se dissipou: Sun Tzu voltou a vender pastel na feira aos sábados; e Joseph K a cuidar da sua lojinha de miudezas no Bom Retiro.
12 agosto, 2009
482. cinismo
"Meu cliente não explora o trabalho infantil", explicou o advogado do usineiro: "São homens-gabirus. Não crescem mais que 1,60 m. Não viu no Fantástico?""
481. bilhar
Nódoas. Manchas esbranquiçadas a macular o verde do feltro. Porque, taco em riste, encaçapei-a ali mesmo, na mesa de bilhar.
480. siameses (homenagem a José Luis Peixoto)
Elias precisava apenas ficar só consigo mesmo, mas Moisés, seu irmão, não desgrudava dele.
479. Amores
Meu ex se foi carregando meu desprezo e o seu desleixo. Meu atual, arqueólogo (talvez por isso goste de mulheres mais velhas), mais organizado, tem outras manias. Outro dia fez uma descoberta surpreendente: uma cueca posta há séculos para secar atrás da minha geladeira. Dedica-se agora a estudar sua origem e procedência.
05 agosto, 2009
478. juramento
Em visita ao Cemitério de Arlington descobriu que tinha ali quinze homônimos seus. Jurou pela alma deles que ia desertar.
477. paz
Os soldados de ambos os lados do conflito interrompem excepcionalmente os combates àquela tarde para assistir pela TV à final do campeonato de futebol. O mundo comemora um momento de paz em meio à guerra encarniçada. Aos quarenta minutos do segundo tempo, porém, o jogo é cancelado por causa da violência incontrolável das torcidas organizadas.
476. milagro
06:30 min. Mens insana in Corpore Sano, invento de fazer cooper na Praça Barão de Japurá. Deus surpreende quem madruga e sou abençoado com um milagre: o mendigo cadeirante que habita o playground levanta-se e anda. Em direção ao bar.
475. minuto de silêncio
Antes que a bola rolasse, o árbitro bigodudo de olhos insanos determinou que se fizesse um minuto de silêncio pelo grande cartola que se intitulou um dia senhor de ambos os tempos regulamentares, intervalos e prorrogações. Como ninguém confirmou a notícia de que Deus estava realmente morto, corpulentos agentes do manicômio de Munique invadiram o campo e lhe puseram ao árbitro uma camisa de força.
474. luuanda (homenagem a José Luandino Vieira)
Dentro da cubata*, nos furos do zinco, coxo João Gonçalves espia lua que caminha no céu e ri. “Lua anda”, encanta-se o coxo. “Luanda". Sakua!** Aluado este monandengue!*** Via também lua andar quando pisou mina ali mesmo, no lixão, próximo ao musseque****. Bum! Lua ficou encarnada sangue dele.
cubata - barraco
sakua! - Eita!
monandengue - criança, moleque
musseque - favela
04 agosto, 2009
468. presença
Estava no Orkut, no Twitter, no Facebook, nos mais recônditos sítios do cyber-espaço, e fisicamente já não estava entre nós. Reduzido à mínima unidade virou um holograma.
467. janelas
Ao despertar abriu a janela que percebeu dava para outra janela que já estava aberta e que dava para uma terceira através da qual via mais uma, escancarada, onde outra se encaixava qual moldura de um quadro com uma janela em close, entreaberta, onde sua vista já então se perdia. Fechou os olhos, bafejou, abriu-os novamente e, como supunha, as vidraças daquelas janelas todas se tornaram baças. Só então ensaboou o rosto e começou a fazer a barba que lhe crescera durante a noite.
466. pacto
Conheceram-se em um lugar inusitado: um hemocentro onde foram se oferecer como doadores. Foi, como dizia o bardo porralouca, uma paixão cruel, desenfreada. Até cogitaram um pacto de sangue, mas acharam melhor deixar pra lá pois concordavam que em tempos de crise deve-se evitar toda espécie de desperdícios.
465. david
Da janela do hotel em Bangcoc o velho ator estranhou mesmo que o dia tivesse nascido cinza. E que as coisas todas do mundo com exceção das túnicas alaranjadas dos jovens monges que cruzavam a praça estivessem em mil tons diferentes de cinza. Seus olhos estavam cansados. Suas pálpebras pesavam como os sinos de um templo e no entanto tudo que ele via movia-se sem que lhes ouvisse o som. Considerou que também a ele lhe faltassem as palavras . Logo escureceu. Lanternas opacas pontilharam a noite. E quando o velho ator já não mais esperava, de uma viela estreita ou de dentro dele mesmo, do rio que se esgueirava qual serpente logo adiante ou do sorriso bonito das moças que distraiam os turistas, veio um acalanto antigo, morno, que não lhe era estranho:
“Descanse, gafanhoto! Descanse!”, ouviu, quando já se acreditava privado de qualquer sentido.
“Descanse, gafanhoto! Descanse!”, ouviu, quando já se acreditava privado de qualquer sentido.
27 julho, 2009
463. o dom que deus lhe deu
O desenhista técnico pericial do Departamento de Investigações de Crimes contra a Família, Xavier M, era um apaixonado pela sua profissão; mas vez por outra via-se surpreendido com sua própria habilidade com o lápis e as possibilidades ainda não exploradas daquele dom que Deus lhe dera. Aquela manhã, antes de ser detido pela corregedoria, seguindo as descrições feitas pelas mulheres que tiveram coragem de fazer a denúncia, desenhou a mão livre o rosto do homem que as estuprara. Era um auto-retrato. O mais perfeito que jamais fizera.
462. diferencial
Era um pobre diabo. Para sobreviver postava-se imóvel na praça logo cedo vestido e maquiado de anjo, os cornos disfarçados sob uma peruca loura encaracolada. O rabo em seta, inquieto, às vezes lhe escapava sob a túnica e despertava a curiosidade dos passantes - era o seu diferencial com o crescente aumento da concorrência.
14 julho, 2009
461. indulto
Abriu a gaiola e disse: vai-te! O pássaro não foi. Tinha casa, comida, carinho. Então ele inventou o indulto de natal e o pássaro saiu. E nunca mais voltou.
460. a cortadeira de bolsas presa na 25 de março
A fábrica de bolsas em Franca fechou (eu era cortadeira e pespontadeira) por causa da concorrência dos chinas. Aí eu me mandei pra São Paulo. Tinha que me virar, né??
459. a fuga
Gabriel tinha o estranho hábito de comer pilhas - as alcalinas eram as suas favoritas pois eram as que davam maior barato. Um dia seu padrasto, Affonso Henriques, se encheu daquele seu comportamento bestial e o internou em uma clínica de recuperação no município de Franco da Rocha; de onde ele fugiu uma tarde, durante o horário de visita, levando apenas a roupa do corpo e uma bateria Heliar, meia-vida, pertencente à ambulância daquela conceituada instituição
10 julho, 2009
458. acordo de cavalheiros
No horário de visitas no hospital, em vez do filho e da esposa , quem veio foi o demônio. Trajava um jaleco branco e bem passado, a máscara cirúrgica ocultando a face. Ele todavia pode identificá-lo pelos olhos serenos e pela protuberância dos pequenos cornos sob a touca de proteção.
“Fiz o que pude para salvar teu corpo, juro!”, desculpou-se. E ele viu sinceridade naquelas palavras.
“Fiz o que pude para salvar teu corpo, juro!”, desculpou-se. E ele viu sinceridade naquelas palavras.
“Assine aqui. Por favor”, estendeu-lhe a prancheta e uma Montblanc.
Assim, conforme haviam combinado trinta anos antes em um cassino em Las Vegas, ele cedeu-lhe os direitos pela alma que já se lhe escapava.
457. um miniconto de ficção científica
De uma hora para outra deu para se expressar em uma língua morta e a escrever hieróglifos ininteligíveis. Um caso digno de estudo. A comunidade científica ao analisá-lo, por consenso, concluiu que ele simplesmente nascera séculos adiante do seu tempo. Os adeptos da doutrina espírita, por outro lado, insistiam em que se tratava de um raro caso de regressão irreversível. Ninguém atentou para o fato de o botão seletor daquela estranha máquina de lavar largada em um canto do porão de sua casa piscar intermitentemente a indicar os séculos a que se podia retroagir.
456. em dobro
Mirei-a nos olhos. Neles, refletida duplamente, vi a alça de mira da minha arma. Deus te dará em dobro, ela ainda disse.
07 julho, 2009
455. utilidade
Depois do AVC , para provocá-lo, questionavam-no se não se sentia homem pela metade. Dava o troco de imediato. Sua mão direita, crispada, com apenas o dedo médio em riste, tinha lá sua utilidade.
454. cala-te!
"Cala-te!", disse o Rei . Foi uma sentença. E o bufão tagarela daquele dia em diante teve de fazer rir com mímicas e gestos.
453. lenda urbana I
No teto do consultório podia-se ver uma réplica perfeita do firmamento como quando era visto pelos antigos navegantes.
“Para nossas crianças urbanas que não têm a oportunidade que tivemos de contemplar a olho nu o universo em toda a sua magnitude ”, explicava orgulhoso o velho pediatra.
Estranhamente, depois de cada consulta com ele, os pais começaram a descobrir nos dedos dos filhos pequenas protuberâncias endurecidas e esbranquiçadas e todos eles, sem exceção, tiveram que recorrer a um dermatologista.
452. o despertador
Quando acordou o despertador ainda estava ali. E apenas ele e mais nada naquele quarto de alvas paredes caiadas. Maldito objeto metálico cromado e inanimado travado em suas engrenagens - que era à corda, antigo, feito para interromper sono e sonhos. Sem o impulso essencial seus ponteiros sobrepostos marcavam a intemporalidade das coisas e dos seres. Quis apalpar os bolsos, procurar por um canivete ou chave ou trinco com que pudesse desmontá-lo, mas não percebeu que isso não era possível já que estava nu; e ao descobrir-se assim sentiu-se profundamente exposto e fragilizado como quando foi abandonado na roda dos enjeitados da Santa Casa da Misericórdia. Desesperou-se. Teve uma crise que alternava choro e riso que cessou quando sentiu náuseas e não verteu a última refeição. Dentro si, suspeitava, havia apenas pequenos troços sem consistência, que podiam ser ou não resquícios de uma tristeza mal-digerida . O despertador ainda estava ali, intacto, a ocupar o espaço que lhe cabia dentro daquele quarto sem saída (pensava em saída porque queria fugir dali o mais rápido que pudesse). Tinha pressa mas seus movimentos eram lentos como se movimentasse dentro de um aquário, como se fosse um peixe nu que sonhasse com a amplidão de um oceano. O segredo, a chave que lhe abririam portas imperceptíveis ao seu olho só podiam ser encontrados na combinação daqueles números romanos dispostos em círculo no mostrador. Era uma hipótese a considerar. Mas também não se podia descartar a possibilidade de que as respostas estivessem nele mesmo misturadas àqueles já citados pequenos troços amorfos que por dentro sentia.O despertador inutilizado talvez nem exista como objeto, pensou. Pode ser um símbolo, a representação terrena do deus Chronos, um signo, um significado do que não consigo compreender. Um tempo esgotado, diluído, reduzido ao pó terminal de que falam as escrituras. Num ímpeto ele atirou o despertador contra uma daquelas paredes brancas como túmulos e ao vê-lo não encontrar resistência nem força gravitacional que lhe abrandasse a trajetória e ricochetear e tomar a direção do teto, e depois descer ao piso, e traçar feixes retos ligando ângulos e superfícies como um cometa no vácuo das galáxias, tudo compreendeu. Aquele despertador era o seu coração.
22 junho, 2009
451. males que vem pro bem
o torcicolo, de incômodo, fez-se providencial.: impediu-o de presenciar a cena de ciúme que sua namorada protagonizou bem ao seu lado e que, fatalmente, o levaria a torcer o pescoço da sirigaita.
449. aconteceu
Acordou em um lugar que, por causa da cama redonda e o teto espelhado, logo associou a um motel. Ao seu lado, despida, dormia uma linda mulher de cabelos ruivos. Não lembrava de nada. Onde estivera na noite anterior, o que fizera, na companhia de quem estivera a beber... Não, aquilo nunca lhe acontecera antes...
Apressou-lhe uma urgente necessidade de fuga. Silenciosamente, na penumbra do quarto, vestiu-se, calçou o tênis e saiu tomando o cuidado de não bater a porta. Lá fora o sol ia alto. Quis ter consigo seus óculos escuros e uma aspirina.
Duas quadras adiante entrou em uma padaria e pediu uma média e pão com manteiga. Mordia já o segundo naco do pão quando percebeu que o sutiã que lhe apertava os seios sob a camiseta não era os seu.
Apressou-lhe uma urgente necessidade de fuga. Silenciosamente, na penumbra do quarto, vestiu-se, calçou o tênis e saiu tomando o cuidado de não bater a porta. Lá fora o sol ia alto. Quis ter consigo seus óculos escuros e uma aspirina.
Duas quadras adiante entrou em uma padaria e pediu uma média e pão com manteiga. Mordia já o segundo naco do pão quando percebeu que o sutiã que lhe apertava os seios sob a camiseta não era os seu.
448. parcerias
Era um tempo em que as fichas caíam. Bêbados, bárbaros e vândalos descontavam suas frustrações e neuroses contra os orelhões amarelos que disputavam as esquinas com as “meninas” na batalha diária para ganhar honestamente a vida. Havia também a questão da saúde pública que alertava sobre o perigo que representavam os elevados índices de coliformes fecais nos aparelhos azuis decorrentes da sua freqüente utilização por usuários não muito fiéis aos hábitos de higiene.
Aquele tempo passou, as coisas mudaram, umas para melhor outras para pior. Agora são os tempos dos cartões com créditos. Os velhos orelhões, duros na queda, ainda servem de sparring aos insanos como antes; mas o índices de coliformes que os infectavam migraram quase que totalmente para os aparelhos de telefonia móvel. Quanto à questão da concorrência com as “meninas’, na impossibilidade de derrotarem um ao outro, houve entre os orelhões e as putas um processo de incorporação, de fusão, de parceria, tipo ganha-ganha. Hoje estes são uma espécie de mídia alternativa e oferecem seu corpo, sua concha de fibra de vidro aos banners autocolantes de classificados de prestação de serviços daquelas. E convivem pacificamente no mesmo espaço marginal das esquinas.
Aquele tempo passou, as coisas mudaram, umas para melhor outras para pior. Agora são os tempos dos cartões com créditos. Os velhos orelhões, duros na queda, ainda servem de sparring aos insanos como antes; mas o índices de coliformes que os infectavam migraram quase que totalmente para os aparelhos de telefonia móvel. Quanto à questão da concorrência com as “meninas’, na impossibilidade de derrotarem um ao outro, houve entre os orelhões e as putas um processo de incorporação, de fusão, de parceria, tipo ganha-ganha. Hoje estes são uma espécie de mídia alternativa e oferecem seu corpo, sua concha de fibra de vidro aos banners autocolantes de classificados de prestação de serviços daquelas. E convivem pacificamente no mesmo espaço marginal das esquinas.
29 maio, 2009
447. no albergue
A carne é fraca – disse Irmã Dirce. E ofereceu ao jovem mendigo uma terrina fumegante de sopa de legumes. Seu coração de religiosa era só piedade; seus olhos, porém, como dois infames Iscariotes gêmeos, teimavam em traí-la.
21 maio, 2009
445. a ceiba
Arqueólogos descobriram, sob uma antiga árvore de Ceiba na periferia de Tegucigalpa, o fóssil de um dinossauro de 150 milhões de anos. O lugar não ficou pela descoberta mais famoso do que já era; posto que era à sombra daquela Ceiba, dizem, que costumava fazer la siesta o famoso escritor hondurenho Augusto Monterroso.
444. o mestre dos bonecos
Manipulava as marionetes como ninguém – tinha sido instrutor do próprio Imperador.
443.um anjo
Sua vida andava apagada, seus dias eram foscos assim como seus olhos. Sentado naquela praça, desprovido de ânimo, mal via quem passava. Foi quando aquele anjo de cara suja e asas rotas com uma caixa de madeira às costas se aproximou e perguntou: vai um brilho aí, moço??
442. reaproximação
Ele entrou no Brega e, como tinha visto de outras vezes que ali estivera, lá estava ela, sozinha, sentada na mesma mesa. Fumava. Os pensamentos pareciam se enredarem e se elevarem pela espiral de fumaça. Chegara cedo. Antes de começar o movimento. Na radiola, Odair José interpretava com competência um clássico dos seu repertório. Aproximou-se. Postou-se bem à frente dela e levantou-lhe o queixo, já com algumas rugas disfarçadas pelo blush. Os olhos, aqueles olhos negros que uma vez o haviam enfeitiçado, permaneceram baixos, apáticos, opacos.
- Balbina...
- Shirley – respondeu ela, esquivando-se, evitando-o – Balbina morreu, já era!
- Mamãe também – deu-lhe a notícia esperando dela qualquer expressão ou gesto.
- Não já passava da hora?- riu com sarcasmo.
- Todo mundo tem sua hora, Bina.
- Shirley.
- Como quiser.
Pediu uma cerveja e dois copos, puxou uma cadeira.
- Quero te pedir que voltes para casa.
- Quando tivestes que escolher, foi a ela que escolhestes.
- Minha mãe tinha grande influência sobre mim, tu bem sabes. Agora... Agora ela é morta. Vamos enterrar junto com ela o passado.
- Já está enterrado. E tu.. tu fazes parte dele.
- Podemos tentar... Quem sabe... Você não acha?
Os primeiros clientes começaram a chegar. Eram insetos atraídos pelas lâmpadas rubras pendentes do teto e pelo cheiro das fêmeas. Odair José já passeava por outra faixa do LP. Ele teve que tomar a cerveja sozinho.
- Balbina...
- Shirley – respondeu ela, esquivando-se, evitando-o – Balbina morreu, já era!
- Mamãe também – deu-lhe a notícia esperando dela qualquer expressão ou gesto.
- Não já passava da hora?- riu com sarcasmo.
- Todo mundo tem sua hora, Bina.
- Shirley.
- Como quiser.
Pediu uma cerveja e dois copos, puxou uma cadeira.
- Quero te pedir que voltes para casa.
- Quando tivestes que escolher, foi a ela que escolhestes.
- Minha mãe tinha grande influência sobre mim, tu bem sabes. Agora... Agora ela é morta. Vamos enterrar junto com ela o passado.
- Já está enterrado. E tu.. tu fazes parte dele.
- Podemos tentar... Quem sabe... Você não acha?
Os primeiros clientes começaram a chegar. Eram insetos atraídos pelas lâmpadas rubras pendentes do teto e pelo cheiro das fêmeas. Odair José já passeava por outra faixa do LP. Ele teve que tomar a cerveja sozinho.
20 maio, 2009
441. o sumotori
Kumori, o okinawano, sentiu-se incrivelmente leve nos seus cento e cinqüenta quilos aquela manhã. E pensou que estava a sonhar ao se dar conta que flutuava suave por sobre os telhados da aldeia como se fosse uma nuvem. Dali pode, por exemplo, contemplar a florada das cerejeiras que se estendia exuberante até as encostas da Montanha da Tartaruga. Intrigou-lhe a total ausência de brisa que inquietava os bambuzais e a face polida e tranqüila do lago das carpas da praça principal. Os tambores rituais do templo xintoísta estavam mudos, sisudos. O universo, com suas cores desbotadas, apresentava-se definitivamente estático. No pátio do antigo castelo, em volta de um círculo, viu, não sem desconfiança, uma multidão silenciosa e reverente. Dentro do círculo, agachado sobre os calcanhares, achava-se um jovem sumotori que ele reconheceu como sendo Shida Mamoro, de Hokkaido; este, diante de um pálido desafiante prostrado e sem os sinais vitais, parecia chorar. Só então Kumori percebeu que ganhava altura e que tudo o mais parecia tornar-se insignificante.
440. vocação
Voar está no seu sangue – começou como avião no morro; hoje pilota um Cesna entre Pedro Juan Caballero e os canaviais de Ribeirão Preto.
15 maio, 2009
438. a novidade
Aquele dia Marlo acordou cedo sem reclamar, comeu frutas e cereais no café da manhã e salada de almeirão no almoço, chegou pontualmente à escola, assistiu atentamente às aulas, voltou direto para casa, fez todas as atividades escolares, tomou banho, escovou os dentes e dormiu cedo – por tudo isso acumulou-se uma quantidade substancial de bônus para o dia seguinte, quando ele seria submetido aos obstáculos do nível 2. Diante do monitor, aferrada ao joystick, sua mãe era de uma felicidade só. E a pensar que a princípio ela chegara a duvidar das potencialidades daquele game pedagógico!!
437. mino, o pequenino
“Em nome de que potentado vens a mim, ó homem de diminuta compleição? – inquiriu, soberbo e soberano, do alto do magnífico corcel azeviche que o tornava ainda mais imponente, Alexandre, o Grande, ao anão que lhe trouxeram suspenso pelos bracinhos curtos os soldados-batedores.
“De nenhum daqueles pobres governantes que ao teu poder belicoso se submetem ou hão de se submeter, ó supremo conquistador. Venho antes em meu próprio nome: sou Mino, o pequenino, filho bastardo de Horácolo”
Houve, reza a antiga lenda, um silêncio ensurdecedor sem dimensões ante tamanha ousadia que nem mesmo os amaldiçoados insetos que infestavam àquelas remotas paragens da Ásia Menor ousavam maculá-lo com seu irritante zumbido.
“Vosso nome e o do vosso pai nada são e nada me dizem. Mas é demasiado grande a vossa afronta comparada ao vosso tamanho”, advertiu Alexandre, não escondendo porém a admiração pela coragem daquele homenzinho corrugado e corcunda que parecia ter sido parido do ventre das montanhas vermelhas em forma de corcova que os exércitos da Macedônia então cruzavam.
O pequenino não desviou nem baixou os olhos miúdos; assim como não cogitou voltar atrás no que dissera.
“O que vem de baixo jamais me atinge!”, advertiu soberbo o Semideus. “Mas enfim, dizei-me o que queres, que sobre tudo e todos, nos céus, na terra e no mar, legislo e reino absoluto”
“Não quero nada senão o direito de olhar nossos vossos olhos, ó Rei dos reis!”
Alexandre relaxou a postura e riu embevecido: “Um admirador dos meus feitos, é o que tu és?”
“Sim, majestade. Pereceria frustrado da mesma forma se não o visse antes que morresse”
“E quem disse que pretendo matá-lo, ó miúdo?”, divertiu-se o Macedônio. E com ele riram seus generais e ordenanças.
“Desculpe-me, senhor! Quis dizer, antes de vossa morte”
Uma nuvem negra eclipsou o sol do meio-dia. Murmúrios de incredulidade em uníssono reverberaram nas encostas sem vegetação. Alexandre, repentina e definitivamente, perdeu a divina paciência, encolerizou-se, e ordenou que executassem o anão ali mesmo;o que não representou tarefa difícil para o seu arqueiro preferido.
Dias depois, em sonho, encontram-se novamente, vítima e algoz. Uma espécie de deja vu.
“Que queres?”, pergunta Alexandre com a mesma autoridade de sempre.
“De vós nada, senão esperar”
“Esperar o que, ó ser ínfimo?”
“Esperar por vós, ó nobre guerreiro, que não deveis demorar!”
“De nenhum daqueles pobres governantes que ao teu poder belicoso se submetem ou hão de se submeter, ó supremo conquistador. Venho antes em meu próprio nome: sou Mino, o pequenino, filho bastardo de Horácolo”
Houve, reza a antiga lenda, um silêncio ensurdecedor sem dimensões ante tamanha ousadia que nem mesmo os amaldiçoados insetos que infestavam àquelas remotas paragens da Ásia Menor ousavam maculá-lo com seu irritante zumbido.
“Vosso nome e o do vosso pai nada são e nada me dizem. Mas é demasiado grande a vossa afronta comparada ao vosso tamanho”, advertiu Alexandre, não escondendo porém a admiração pela coragem daquele homenzinho corrugado e corcunda que parecia ter sido parido do ventre das montanhas vermelhas em forma de corcova que os exércitos da Macedônia então cruzavam.
O pequenino não desviou nem baixou os olhos miúdos; assim como não cogitou voltar atrás no que dissera.
“O que vem de baixo jamais me atinge!”, advertiu soberbo o Semideus. “Mas enfim, dizei-me o que queres, que sobre tudo e todos, nos céus, na terra e no mar, legislo e reino absoluto”
“Não quero nada senão o direito de olhar nossos vossos olhos, ó Rei dos reis!”
Alexandre relaxou a postura e riu embevecido: “Um admirador dos meus feitos, é o que tu és?”
“Sim, majestade. Pereceria frustrado da mesma forma se não o visse antes que morresse”
“E quem disse que pretendo matá-lo, ó miúdo?”, divertiu-se o Macedônio. E com ele riram seus generais e ordenanças.
“Desculpe-me, senhor! Quis dizer, antes de vossa morte”
Uma nuvem negra eclipsou o sol do meio-dia. Murmúrios de incredulidade em uníssono reverberaram nas encostas sem vegetação. Alexandre, repentina e definitivamente, perdeu a divina paciência, encolerizou-se, e ordenou que executassem o anão ali mesmo;o que não representou tarefa difícil para o seu arqueiro preferido.
Dias depois, em sonho, encontram-se novamente, vítima e algoz. Uma espécie de deja vu.
“Que queres?”, pergunta Alexandre com a mesma autoridade de sempre.
“De vós nada, senão esperar”
“Esperar o que, ó ser ínfimo?”
“Esperar por vós, ó nobre guerreiro, que não deveis demorar!”
14 maio, 2009
436. o mártir
Embora eu seja magro, delgado mais para o raquítico, foi-me deveras penoso compartilhar o assento do ônibus com aquela senhora de massa corporal avantajada. Injusto compartilhamento: três quartos para ela, um para mim. Como o percurso a ser percorrido levava algumas horas, ao longo delas, por tal penitência não declarada pelo pároco da nossa freguesia, desconfio que tenha zerado finalmente a minha cota de culpas e pecados veniais. Trocamos poucas palavras. Explico: a minha companheira de viagem não era lá de conversar muito e percebi que ocupava melhor suas mãos e boca com outra atividade mais dinâmica: a da ingestão. Seus maxilares davam duro sob as papadas e pareceram-me rodas dentadas, engrenagens azeitadas de uma verdadeira máquina de triturar.
Ao desembarcarmos na estação da Praça Garibaldi, senti-me como um mártir cujo corpo tivesse sido submetido a, digamos, um torturante espremedor de laranjas ( pergunto-me como foi que os inquisidores não tiveram esta brilhante e sádica idéia) e desabafei com um suspiro de profundo alívio:
“Descei sobre nós, ó Espírito Santo!”
Algumas velhinhas que também desciam do nosso ônibus, testemunhas oculares do meu triste martírio, se persignaram ou beijaram com fervor seus escapulários quando, não por um alto desígnio do divino, mas por causa das tantas migalhas impregnadas no meu terno, cabelos e bigode, uma revoada de pombos desceu sobre mim.
Ao desembarcarmos na estação da Praça Garibaldi, senti-me como um mártir cujo corpo tivesse sido submetido a, digamos, um torturante espremedor de laranjas ( pergunto-me como foi que os inquisidores não tiveram esta brilhante e sádica idéia) e desabafei com um suspiro de profundo alívio:
“Descei sobre nós, ó Espírito Santo!”
Algumas velhinhas que também desciam do nosso ônibus, testemunhas oculares do meu triste martírio, se persignaram ou beijaram com fervor seus escapulários quando, não por um alto desígnio do divino, mas por causa das tantas migalhas impregnadas no meu terno, cabelos e bigode, uma revoada de pombos desceu sobre mim.
435. edberto, o homem-estátua
Edberto era um rapaz honesto e de boa índole que, vítima do desemprego, decidiu virar homem-estátua. Todo santo dia, fizesse sol ou chuva, lá estava o Edberto, na Praça da Sé, batalhando imóvel por uns trocados. No dia sete de agosto de 1999, logo pela manhã, os funcionários da Subprefeitura do Centro vieram com um caminhão-baú e removeram o Edberto para o largo da Batata; e ele, por mais que tentasse opor resistência àquela arbitrariedade, não conseguiu articular palavra alguma nem se mexer. Em Pinheiros, firmado em um canteiro mal-cuidado e já resignado, Edberto-estátua adormeceu e acordou, sem saber como, novamente na praça da Sé, entre mendigos e pombos. Nova remoção foi providenciada e, dias depois, lá estava o Edberto-estátua outra vez no centro da cidade. O fato inusitado e inexplicável gerou polêmica e ganhou imediatamente as manchetes dos matutinos sensacionalista. Porém, de tão explorado que foi, perdeu a graça e acabou se tornando desinteressante. Menos, é claro, para os devotos de São Edberto que todo dia sete de Agosto levam a sua imagem em procissão da Praça da Sé ao Largo da Batata, de onde, certamente, como sempre tem sucedido, ele há de por seus próprios meios retornar. Se um dia isso não acontecer, dizem, o rio Pinheiros vai reverter o seu curso e pode ser até que garoe em São Paulo.
434. um milagre
- Diz-me com quem andas... disse o mestre – que te direi quem és.
- Então - contestou o jovem que lhe ouvia atento - não saberás jamais quem sou, Rabi!
- E por que pensas assim, ó filho?
- Como direi com quem ando se sequer "ando"?
- Sábia dedução – disse o Mestre a sorrir e dando plena razão àquele pobre rapaz que desde a infância vivia entrevado. E assim, entendendo que a situação exigia um milagre, ordenou com um gesto:
- Levanta-te e anda, filho! Para que eu possa te conhecer!
12 maio, 2009
433. versão contestável
Vim, vi e venci – apregoou Julio descaradamente. Pois soube-se depois que quem na verdade havia vindo era César seu irmão gêmeo; E visto não havia pois que ambos os irmãos pelo o que se sabe eram cegos de nascença – já o fato de cantar vitória, trata-se apenas e tão somente da sua versão. Contestável até que possa ouvir o outro lado.
En fila índia los soldados pakistaníes (em fila indiana os soldados paquistaneses.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
432. seriado I
La novicia voladora no tenía licencia ( a noviça voadora não tinha brevê )
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
431. o sonho de monterosso
Perdió el sueño y contó dinosaurios.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
07 maio, 2009
429. 19 de abril
“Se eu te devorasse, irmão Xavante, apenas absorveria tua alma atormentada e somaria o teu medo ao meu medo, o teu desânimo ao meu próprio desânimo”, observou velho o pajé Severino Abmarãã, dos Krenak, lembrando do tempo em que viviam em guerra entre si e devoravam seus prisioneiros para nutrir-se de seu espírito guerreiro e de sua coragem.
Ao seu lado o Cacique Ernesto Kuhodu apenas assentiu com a cabeça adornada com um triste cocar de penas de pombo que improvisara ali mesmo na Esplanada dos Ministérios onde estavam acampados há mais de um mês. E dividiram a “quentinha” nem tão quente assim doada pelas Missionárias Irmãs da Caridade.
Ao seu lado o Cacique Ernesto Kuhodu apenas assentiu com a cabeça adornada com um triste cocar de penas de pombo que improvisara ali mesmo na Esplanada dos Ministérios onde estavam acampados há mais de um mês. E dividiram a “quentinha” nem tão quente assim doada pelas Missionárias Irmãs da Caridade.
06 maio, 2009
428. com uma condição
Não gostava que me chamasse Jonas. Insistiu para que mudasse para Elias, Raul ou Eduardo. Disse que concordava desde que ela fizesse a sempre adiada operação de redução do estômago.
05 maio, 2009
427. conversão
Eu era ladrão de cabelos (melenas dão uma boa grana no mercado negro de apliques). Há melhor lugar para perscrutar possíveis vítimas que aqui na Igreja Evangélica Filhos de Betsebá? Eu vinha sempre e acabei me convertendo.
426. teseu, o besouro
Entrou no seu labirinto e, antes de matá-lo, o fez enlouquecer.
Entró al laberinto y lo mató.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )
425. fábula pandêmica
O lobo, que tinha cursado arquitetura até o terceiro ano, avaliou com conhecimento a estrutura da casa : mal planejada, material de terceira, péssimo acabamento, serviço de porco. Se eu bater palmas é bem capaz de ir abaixo. Mas não ia abrir mão do assédio, do terror , que era a melhor parte, a que mais lhe dava prazer. E deu o ultimato:
- Ou vocês saem daí de dentro, ou uso do meu super-sopro e derrubo esse cortiço!
O porco mais velho, prático, entreabriu a porta, deixou à mostra apenas o focinho de tomada e respondeu ao desafio:
- Combinado! Você sopra e eu espirro em você!
- Ou vocês saem daí de dentro, ou uso do meu super-sopro e derrubo esse cortiço!
O porco mais velho, prático, entreabriu a porta, deixou à mostra apenas o focinho de tomada e respondeu ao desafio:
- Combinado! Você sopra e eu espirro em você!
424. avis rara
Adorava garimpar raridades nos sebos do centro. Uma vez, em um deles, encontrou uma virgem de vinte e quatro anos, dedos hábeis, leitora compulsiva de Anaïs Nin.
423. o cara
Era pra eu ser um predestinado, confessou visivelmente emocionado. Quando nasci o "homem lá de cima" me apontou e disse: esse é o cara! Só que cá embaixo os putos entenderam tudo errado e caíram de pau encima de mim. Malgrado o mal-entendido, não perdôo a divina delação.
422. golden gate
Escalou o gradil da ponte escarlate e mirou ao longe o contorno das montanhas azul-escuro. Talvez esperasse um sinal. Algo que o fizesse desistir ou dar o passo determinante. Por um momento esqueceu que tinha fobia de altura e riu nervosamente com a intenção de aliviar a tensão que lhe enrijecia a nuca. Respirou fundo, relaxou, baixou um pouco a vista e divisou lá longe, no centro da baía, o antigo presídio agora transformado em atração turística. Poucos foramos que conseguiram fugir daquele inferno, pensou. E desceu do gradil tremendo, as pernas bambas, quase a morrer de vergonha. Olhou para os lados, ajustou o colarinho da jaqueta de couro, enfiou as mãos nos bolsos e retornou ao mirante onde participantes de uma excursão da terceira-idade tiravam fotografias, tentando capturar instantâneos de um tempo que lhes escapava.
421. noite feliz
Elas sobem pelos meus pés, escalam minhas costas, passeiam à vontade. Não me importunam a mim nem eu a elas. Democrata convicto sei reconhecer o seu direito de ir e vir. Algumas vem, se detém na minha barba e eu suponho que seja por causa das migalhas que nela se acumulam. Observo-as. Imagino que suas antenas captem good vibes pois é Natal; e isso só pode significar uma coisa: que os sobejos nos serão fartos.
Assinar:
Postagens (Atom)