12 maio, 2009

432. seriado I

La novicia voladora no tenía licencia ( a noviça voadora não tinha brevê )

(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )

431. o sonho de monterosso

Perdió el sueño y contó dinosaurios.

(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )

07 maio, 2009

430. esopo II

Contrabandeava animais silvestres, dizem, e ganhava uma fábula.

429. 19 de abril

“Se eu te devorasse, irmão Xavante, apenas absorveria tua alma atormentada e somaria o teu medo ao meu medo, o teu desânimo ao meu próprio desânimo”, observou velho o pajé Severino Abmarãã, dos Krenak, lembrando do tempo em que viviam em guerra entre si e devoravam seus prisioneiros para nutrir-se de seu espírito guerreiro e de sua coragem.
Ao seu lado o Cacique Ernesto Kuhodu apenas assentiu com a cabeça adornada com um triste cocar de penas de pombo que improvisara ali mesmo na Esplanada dos Ministérios onde estavam acampados há mais de um mês. E dividiram a “quentinha” nem tão quente assim doada pelas Missionárias Irmãs da Caridade.

06 maio, 2009

428. com uma condição

Não gostava que me chamasse Jonas. Insistiu para que mudasse para Elias, Raul ou Eduardo. Disse que concordava desde que ela fizesse a sempre adiada operação de redução do estômago.

05 maio, 2009

427. conversão

Eu era ladrão de cabelos (melenas dão uma boa grana no mercado negro de apliques). Há melhor lugar para perscrutar possíveis vítimas que aqui na Igreja Evangélica Filhos de Betsebá? Eu vinha sempre e acabei me convertendo.

426. teseu, o besouro

Entrou no seu labirinto e, antes de matá-lo, o fez enlouquecer.
Entró al laberinto y lo mató.
(Enviado ao concurso "Un cuento en seis palabras" - Navona Editora - http://www.navonaed.com )

425. fábula pandêmica

O lobo, que tinha cursado arquitetura até o terceiro ano, avaliou com conhecimento a estrutura da casa : mal planejada, material de terceira, péssimo acabamento, serviço de porco. Se eu bater palmas é bem capaz de ir abaixo. Mas não ia abrir mão do assédio, do terror , que era a melhor parte, a que mais lhe dava prazer. E deu o ultimato:

- Ou vocês saem daí de dentro, ou uso do meu super-sopro e derrubo esse cortiço!

O porco mais velho, prático, entreabriu a porta, deixou à mostra apenas o focinho de tomada e respondeu ao desafio:

- Combinado! Você sopra e eu espirro em você!

424. avis rara

Adorava garimpar raridades nos sebos do centro. Uma vez, em um deles, encontrou uma virgem de vinte e quatro anos, dedos hábeis, leitora compulsiva de Anaïs Nin.

423. o cara

Era pra eu ser um predestinado, confessou visivelmente emocionado. Quando nasci o "homem lá de cima" me apontou e disse: esse é o cara! Só que cá embaixo os putos entenderam tudo errado e caíram de pau encima de mim. Malgrado o mal-entendido, não perdôo a divina delação.

422. golden gate

Escalou o gradil da ponte escarlate e mirou ao longe o contorno das montanhas azul-escuro. Talvez esperasse um sinal. Algo que o fizesse desistir ou dar o passo determinante. Por um momento esqueceu que tinha fobia de altura e riu nervosamente com a intenção de aliviar a tensão que lhe enrijecia a nuca. Respirou fundo, relaxou, baixou um pouco a vista e divisou lá longe, no centro da baía, o antigo presídio agora transformado em atração turística. Poucos foramos que conseguiram fugir daquele inferno, pensou. E desceu do gradil tremendo, as pernas bambas, quase a morrer de vergonha. Olhou para os lados, ajustou o colarinho da jaqueta de couro, enfiou as mãos nos bolsos e retornou ao mirante onde participantes de uma excursão da terceira-idade tiravam fotografias, tentando capturar instantâneos de um tempo que lhes escapava.

421. noite feliz

Elas sobem pelos meus pés, escalam minhas costas, passeiam à vontade. Não me importunam a mim nem eu a elas. Democrata convicto sei reconhecer o seu direito de ir e vir. Algumas vem, se detém na minha barba e eu suponho que seja por causa das migalhas que nela se acumulam. Observo-as. Imagino que suas antenas captem good vibes pois é Natal; e isso só pode significar uma coisa: que os sobejos nos serão fartos.

30 abril, 2009

420. lux

Nove meses depois do Blecaute ela deu à luz.

419. o que poderia ter sido

Aquela última noite em Angicos, Maria Bonita sonhou que vivia em Jeremoabo com seu primeiro marido, Zé de Neném, homem bom, honesto mas estéril e sem pulso. Tinham ambos por volta de setenta anos de idade e número idêntico de descendentes (os sonhos são tão confusos). Estavam ambos sentados na varanda da fazenda. Ela, trabalhando os bilros num labirinto de renda; ele picando fumo, enrolando um cigarro de palha. Papeavam:

- Tivesses eu perdido a cabeça indo com “aquele homem”, meu velho, nada disso estaria acontecendo agora.

- De cabeça não me fale que chapéu não faço, Maria Déia. Sou sapateiro e vou morrer sapateiro.

29 abril, 2009

418. romantismo

Tem mau hálito, maus hábitos, um Passat velho caindo aos pedaços e me chama de Creuza (meu nome é Cleuza). Mas não abro mão dele não, minha filha, que homem homem mesmo é produto raro de se achar hoje em dia. Nunca me trouxe flores, é bem verdade. Mas fazia questão de abrir (e fechar) a porta do carro para mim, como todo cavalheiro que se preze. As minhas amigas morriam de inveja. Achavam o máximo. Isso até o enxerido do meu primo, que é mecânico quebra-galho, consertar, a troco de cerveja, a bendita porta. Filho da mãe! Assim, não há romantismo que resista, concorda??

28 abril, 2009

417. prova

O golpista, que juntamente com um cúmplice infiltrado na Previdência Social sacava provimentos de velhinhos aposentados já falecidos, bem que tentou negar seu crime; mas ao revistarmos sua casa encontramos entre os seus pertences um exemplar de "Almas Mortas" de Nicolai Gogol.

416. breve ensaio sobre a cegueira

Ela passava a sua frente pontualmente às sete e trinta. Pelo perfume ele podia traçar perfeitamente o seu perfil: uma Deusa. E então fantasiava: sonhava com o dia em que, ao tentar cruzar a faixa, ela viesse e o conduzisse pelo braço até o outro lado da avenida. Ou bem mais longe, se fosse o caso, que com ela iria até para o inferno.

Ontem pela manhã, cheio de coragem, teceu-lhe um elogio. Ela sorriu. Sentiu-o no vento pela mudança brusca da sua respiração.

Hoje foi mais ousado, senão atrevido: fez-lhe uma proposta no mínimo indecorosa.

“Vê-se te enxerga!”, ela respondeu no revide. Mais bela ainda quando brava.

415. bastardias

"Eu era uma cunhã infeliz e mal amada ", confessou-me ela em guarani, como costumam fazer os paraguaios quando querem evitar os bisbilhoteiros - naquele caso os repórteres dos mais diferentes órgãos de imprensa que sufocavam-nos de microfone em riste.
"Meu marido me batia freqüentemente, me humilhava diante dos outros, me mandava tomar naquele lugar... um dia mandou que eu me queixasse ao bispo. Foi a melhor sugestão que ouvi daquele canalha em cinco anos juntos. O bispo é um homem afável, carinhoso, e soube me confortar"

414. a invasão

Os aguerridos militantes do Movimento dos Sem Terra, foices em punho, avançaram vorazes sobre o latifúndio improdutivo, fincaram estacas, armaram tendas de plástico negro, tomaram posse, organizaram a resistência. Esperaram. Passou-se uma semana, quinze dias, um mês e os seguranças armados do fazendeiro, estranhamente, não apareceram. Assim como a polícia, que deveria cumprir a reintegração de posse emitida por um juiz notadamente parcial. Como aquela calmaria toda os inquietasse eles acharam prudente montar um bloqueio na confluência da estrada vicinal com a principal para que ninguém viesse a cruzar aquelas terras. Meses se passaram sem que vivalma tentasse passar por ali.

Ao fim do oitavo mês, por ordens da liderança nacional do movimento ou por iniciativa própria, eles desarmaram as tendas, juntaram seus pertences e marcharam para o norte. No céu límpido daquela quinta-feira, os pássaros, descaradamente subservientes aos valores da burguesia emergente, faziam justamente o contrário.

413. olhos

Quando abriu os olhos percebeu que dentro deles não haviam esmeraldas. Nem mesmo turmalinas sem valor. Decepcionado guardou a faca e atirou-os, vazados, aos peixes. Aqueles, porém, simplesmente os ignoraram.