ninguém que se dignasse cumprir sua última vontade : uns por caridade cristã (deus dá a vida, só ele pode tirá-la), outros por temer a justiça dos homens. de repente lembra-se de quando falavam que tinha um olhar fulminante, mira a superfície cromada da máquina a que está conectado por fios há anos , e descobre poder fazer algo sem depender deles.
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
26 outubro, 2007
303. olhar fulminante
ninguém que se dignasse cumprir sua última vontade : uns por caridade cristã (deus dá a vida, só ele pode tirá-la), outros por temer a justiça dos homens. de repente lembra-se de quando falavam que tinha um olhar fulminante, mira a superfície cromada da máquina a que está conectado por fios há anos , e descobre poder fazer algo sem depender deles.
302. naturismo
amou-a secretamente desde o primeiro instante em que foram apresentados por um amigo comum no clube de naturismo. excitava-o vesti-la com os olhos.
10 outubro, 2007
301. vegetal
vendo o velho ali, prostrado em um leito hospitalar em estado vegetativo, não teve dúvidas: abriu a braguilha e regou-o efusivamente.
o médico havia se enganado. o paciente não perdera de todo a sensibilidade. comprovou-o ao decifrar na iris opaca do enfermo resquicios de um ódio antigo, de uma prepotência agora domada pela impotência.
300. o enforcado
o cheiro da ingrata - também o do outro com quem havia dormido e fugido àquela quinta - ainda impregnado nos lençóis com que o desgraçado teceu a corda.
289. vamp
- mais depressa, por favor - quase suplicou a jovem passageira, os lábios roxos, a voz angustiada.
- preciso chegar a este endereço antes que amanheça!
ele disse é prá já, moça, e acelerou. no caminho pensou em marcar urgente uma consulta com o oculista. ou, quem sabe, entrar com os papéis da aposentadoria - por que não?
pelo retrovisor, via apenas o banco traseiro, o estofado de couro vermelho, vazio.
288. calafrio
quinze para a meia-noite deixa meio zonzo o prédio cinzento do IML onde acaba de identificar o corpo do tio solteirão que desaparecera já há alguns meses e dirige-se ao metrô consolação. arrasta os passos sem pressa, desce as escadas, cruza a frieza metálica da catraca e posta-se na plataforma. está sozinho.
mãos nos bolsos da jaqueta jeans desbotada, sentidos estimulados por sucessivas doses de cafeína, espera junto à linha amarela.
o trem assoma no túnel. o serviço de alto-falante todavia anuncia que o mesmo será recolhido para manutenção e portanto não há de parar naquela estação - um procedimento técnico, de praxe.
o trem se aproxima, o deslocamento de ar lhe assanha os cabelos que começam a rarear. os vagões, as luzes acesas, passam rápidos à distancia de dois palmos do seu nariz constipado. ele os supõe vazios mas o que vê ou imagina ver é um passageiro solitário, olhos profundos a acenar-lhe com a mão raquítica e ossuda, a dar-lhe um solitário adeus.
"Tio...", balbucia ao mesmo tempo que sente um calafrio percorrer-lhe a espinha e morrer na base da nuca.
o trem já passou.
24 julho, 2007
287. há vagas
Doutor Firmino Fortes, a pretexto de exercitar sua autoridade de gerente-geral récem-nomeado, logo no primeiro dia despediu sem mais delongas dona Marioneide, a faxineira, nordestina, analfabeta, oito filhos pequenos para criar.
Olhos úmidos, impotente, Dona Marioneide só conseguia balbuciar com sotaque: "o senhor não tem coração, doutor".
Enganava-se a infeliz. Que ele o tinha. Com quatro pontes. Aquelas que ainda aquela noite, ruiriam sob o peso da sua prepotência.
Dia seguinte, no quadro de contratações da empresa, duas novas vagas. A fila, lá fora, dobrava o quarteirão.
286. haiti
jean-pierre matou a golpe de machete seu louis-antoine seu vizinho e desafeto e tentou se desfazer do corpo atirando-o no penhasco que dava para o mar.
teve porém de fazê-lo por mais de uma dúzia de vezes, tomando o cuidado de mudar sempre o local e o modo - ora era um poço abandonado com uma pedra amarrada no pescoço, ora uma cova rasa na mata fechada ou uma pedreira desativada - porque no dia seguinte, teimosamente, lá estava o maldito de volta a atormentá-lo. cansado daquilo tudo, jean-pierre confessou o crime e se entregou à policia. foi condenado por homicidio mas - menos mal - livrou-se da acusação de ocultação de cadáver.
285. amor aos pedaços
esperava-a. ela, como sempre, atrasou-se. ele não conseguiu se conter: devorou voluptuosamente o coração de chocolate com que a presentearia.
quando ela apareceu ele, meia hora depois, ele ainda mastigava o último pedaço e lambia os lábios.
acabou-se, ele disse. não sou aquele cara sem vicios que voce pensou que eu fosse.
284. bolsa-familia
ir pro sul? pra quê? nem pensar! - riu-se joão climério, o polígamo, na fila do bolsa-familia em cabrobó.
10 julho, 2007
283. big brother
expôs-se por dez semanas em um reality show e ganhou um milhão de reais. a fama subiu-lhe a cabeça. ontem esmurrou um paparazzi por invadir sua intimidade.
282. excursão
a excursão do pessoal da terceira idade pelos igarapés terminou em tragedia: nopescoço do bugre abatido um colar de dentaduras
281. dúvida
político de carreria, tarimbado, uma única dúvida o incomodava: vender amãe é nepotismo?
20 abril, 2007
280. invocado
era um sujeito invocado. invocado e perigoso. bastava que alguém lhe olhasse torto para que ele lhe tirasse a vida. já tinha matado pra mais de vinte. dezoito deles eram vesgos.
278. dedo-duro
o oyabun* mostrou afinidade com a faca yanagi - havia sido um hábil sushiman quando jovem, em nagoya.- e decepou, um a um os dedos que se lhe eram oferecidos pelos seus homens. só assim pode identificar o delator.
* chefão da máfia japonesa, a yakuza.
277. Perícia
a conclusão do perito criminal sobre o "decujus" da vítima encontrada morta no clube de nudismo pareceu-me contraditória:
- levou um tiro a queima-roupa.
28 março, 2007
274. desandando
escreveu um livro, fez um filho e plantou uma árvore. sentia-se plenamente realizado como profissional, pai e ecologista quando as coisas começaram a dar errado: foi processado por plágio, a mulher revelou-lhe que o filho era do seu editor, os galhos da árvore cresceram e invadiram o seu escritório e ele, num acesso de fúria, podou-os com uma motoserra - foi multado em mil e duzentos reais.
Assinar:
Postagens (Atom)