27 julho, 2009

464. agente laranja

As folhas caíram todas tristes. E não era sequer outono ainda no Vietnam.

463. o dom que deus lhe deu

O desenhista técnico pericial do Departamento de Investigações de Crimes contra a Família, Xavier M, era um apaixonado pela sua profissão; mas vez por outra via-se surpreendido com sua própria habilidade com o lápis e as possibilidades ainda não exploradas daquele dom que Deus lhe dera. Aquela manhã, antes de ser detido pela corregedoria, seguindo as descrições feitas pelas mulheres que tiveram coragem de fazer a denúncia, desenhou a mão livre o rosto do homem que as estuprara. Era um auto-retrato. O mais perfeito que jamais fizera.

462. diferencial

Era um pobre diabo. Para sobreviver postava-se imóvel na praça logo cedo vestido e maquiado de anjo, os cornos disfarçados sob uma peruca loura encaracolada. O rabo em seta, inquieto, às vezes lhe escapava sob a túnica e despertava a curiosidade dos passantes - era o seu diferencial com o crescente aumento da concorrência.

14 julho, 2009

461. indulto

Abriu a gaiola e disse: vai-te! O pássaro não foi. Tinha casa, comida, carinho. Então ele inventou o indulto de natal e o pássaro saiu. E nunca mais voltou.

460. a cortadeira de bolsas presa na 25 de março

A fábrica de bolsas em Franca fechou (eu era cortadeira e pespontadeira) por causa da concorrência dos chinas. Aí eu me mandei pra São Paulo. Tinha que me virar, né??

459. a fuga

Gabriel tinha o estranho hábito de comer pilhas - as alcalinas eram as suas favoritas pois eram as que davam maior barato. Um dia seu padrasto, Affonso Henriques, se encheu daquele seu comportamento bestial e o internou em uma clínica de recuperação no município de Franco da Rocha; de onde ele fugiu uma tarde, durante o horário de visita, levando apenas a roupa do corpo e uma bateria Heliar, meia-vida, pertencente à ambulância daquela conceituada instituição

10 julho, 2009

458. acordo de cavalheiros

No horário de visitas no hospital, em vez do filho e da esposa , quem veio foi o demônio. Trajava um jaleco branco e bem passado, a máscara cirúrgica ocultando a face. Ele todavia pode identificá-lo pelos olhos serenos e pela protuberância dos pequenos cornos sob a touca de proteção.

“Fiz o que pude para salvar teu corpo, juro!”, desculpou-se. E ele viu sinceridade naquelas palavras.
“Assine aqui. Por favor”, estendeu-lhe a prancheta e uma Montblanc.

Assim, conforme haviam combinado trinta anos antes em um cassino em Las Vegas, ele cedeu-lhe os direitos pela alma que já se lhe escapava.

457. um miniconto de ficção científica

De uma hora para outra deu para se expressar em uma língua morta e a escrever hieróglifos ininteligíveis. Um caso digno de estudo. A comunidade científica ao analisá-lo, por consenso, concluiu que ele simplesmente nascera séculos adiante do seu tempo. Os adeptos da doutrina espírita, por outro lado, insistiam em que se tratava de um raro caso de regressão irreversível. Ninguém atentou para o fato de o botão seletor daquela estranha máquina de lavar largada em um canto do porão de sua casa piscar intermitentemente a indicar os séculos a que se podia retroagir.

456. em dobro

Mirei-a nos olhos. Neles, refletida duplamente, vi a alça de mira da minha arma. Deus te dará em dobro, ela ainda disse.

07 julho, 2009

455. utilidade

Depois do AVC , para provocá-lo, questionavam-no se não se sentia homem pela metade. Dava o troco de imediato. Sua mão direita, crispada, com apenas o dedo médio em riste, tinha lá sua utilidade.

454. cala-te!

"Cala-te!", disse o Rei . Foi uma sentença. E o bufão tagarela daquele dia em diante teve de fazer rir com mímicas e gestos.

453. lenda urbana I

No teto do consultório podia-se ver uma réplica perfeita do firmamento como quando era visto pelos antigos navegantes.
“Para nossas crianças urbanas que não têm a oportunidade que tivemos de contemplar a olho nu o universo em toda a sua magnitude ”, explicava orgulhoso o velho pediatra.
Estranhamente, depois de cada consulta com ele, os pais começaram a descobrir nos dedos dos filhos pequenas protuberâncias endurecidas e esbranquiçadas e todos eles, sem exceção, tiveram que recorrer a um dermatologista.

452. o despertador

Quando acordou o despertador ainda estava ali. E apenas ele e mais nada naquele quarto de alvas paredes caiadas. Maldito objeto metálico cromado e inanimado travado em suas engrenagens - que era à corda, antigo, feito para interromper sono e sonhos. Sem o impulso essencial seus ponteiros sobrepostos marcavam a intemporalidade das coisas e dos seres. Quis apalpar os bolsos, procurar por um canivete ou chave ou trinco com que pudesse desmontá-lo, mas não percebeu que isso não era possível já que estava nu; e ao descobrir-se assim sentiu-se profundamente exposto e fragilizado como quando foi abandonado na roda dos enjeitados da Santa Casa da Misericórdia. Desesperou-se. Teve uma crise que alternava choro e riso que cessou quando sentiu náuseas e não verteu a última refeição. Dentro si, suspeitava, havia apenas pequenos troços sem consistência, que podiam ser ou não resquícios de uma tristeza mal-digerida . O despertador ainda estava ali, intacto, a ocupar o espaço que lhe cabia dentro daquele quarto sem saída (pensava em saída porque queria fugir dali o mais rápido que pudesse). Tinha pressa mas seus movimentos eram lentos como se movimentasse dentro de um aquário, como se fosse um peixe nu que sonhasse com a amplidão de um oceano. O segredo, a chave que lhe abririam portas imperceptíveis ao seu olho só podiam ser encontrados na combinação daqueles números romanos dispostos em círculo no mostrador. Era uma hipótese a considerar. Mas também não se podia descartar a possibilidade de que as respostas estivessem nele mesmo misturadas àqueles já citados pequenos troços amorfos que por dentro sentia.O despertador inutilizado talvez nem exista como objeto, pensou. Pode ser um símbolo, a representação terrena do deus Chronos, um signo, um significado do que não consigo compreender. Um tempo esgotado, diluído, reduzido ao pó terminal de que falam as escrituras. Num ímpeto ele atirou o despertador contra uma daquelas paredes brancas como túmulos e ao vê-lo não encontrar resistência nem força gravitacional que lhe abrandasse a trajetória e ricochetear e tomar a direção do teto, e depois descer ao piso, e traçar feixes retos ligando ângulos e superfícies como um cometa no vácuo das galáxias, tudo compreendeu. Aquele despertador era o seu coração.

22 junho, 2009

451. males que vem pro bem

o torcicolo, de incômodo, fez-se providencial.: impediu-o de presenciar a cena de ciúme que sua namorada protagonizou bem ao seu lado e que, fatalmente, o levaria a torcer o pescoço da sirigaita.

449. aconteceu

Acordou em um lugar que, por causa da cama redonda e o teto espelhado, logo associou a um motel. Ao seu lado, despida, dormia uma linda mulher de cabelos ruivos. Não lembrava de nada. Onde estivera na noite anterior, o que fizera, na companhia de quem estivera a beber... Não, aquilo nunca lhe acontecera antes...

Apressou-lhe uma urgente necessidade de fuga. Silenciosamente, na penumbra do quarto, vestiu-se, calçou o tênis e saiu tomando o cuidado de não bater a porta. Lá fora o sol ia alto. Quis ter consigo seus óculos escuros e uma aspirina.

Duas quadras adiante entrou em uma padaria e pediu uma média e pão com manteiga. Mordia já o segundo naco do pão quando percebeu que o sutiã que lhe apertava os seios sob a camiseta não era os seu.

448. parcerias

Era um tempo em que as fichas caíam. Bêbados, bárbaros e vândalos descontavam suas frustrações e neuroses contra os orelhões amarelos que disputavam as esquinas com as “meninas” na batalha diária para ganhar honestamente a vida. Havia também a questão da saúde pública que alertava sobre o perigo que representavam os elevados índices de coliformes fecais nos aparelhos azuis decorrentes da sua freqüente utilização por usuários não muito fiéis aos hábitos de higiene.

Aquele tempo passou, as coisas mudaram, umas para melhor outras para pior. Agora são os tempos dos cartões com créditos. Os velhos orelhões, duros na queda, ainda servem de sparring aos insanos como antes; mas o índices de coliformes que os infectavam migraram quase que totalmente para os aparelhos de telefonia móvel. Quanto à questão da concorrência com as “meninas’, na impossibilidade de derrotarem um ao outro, houve entre os orelhões e as putas um processo de incorporação, de fusão, de parceria, tipo ganha-ganha. Hoje estes são uma espécie de mídia alternativa e oferecem seu corpo, sua concha de fibra de vidro aos banners autocolantes de classificados de prestação de serviços daquelas. E convivem pacificamente no mesmo espaço marginal das esquinas.

29 maio, 2009

447. no albergue

A carne é fraca – disse Irmã Dirce. E ofereceu ao jovem mendigo uma terrina fumegante de sopa de legumes. Seu coração de religiosa era só piedade; seus olhos, porém, como dois infames Iscariotes gêmeos, teimavam em traí-la.

446. arqueologias

Junto à carcaça do minotauro um moderno aparelho GPS - com a bateria esgotada.

21 maio, 2009

445. a ceiba

Arqueólogos descobriram, sob uma antiga árvore de Ceiba na periferia de Tegucigalpa, o fóssil de um dinossauro de 150 milhões de anos. O lugar não ficou pela descoberta mais famoso do que já era; posto que era à sombra daquela Ceiba, dizem, que costumava fazer la siesta o famoso escritor hondurenho Augusto Monterroso.

444. o mestre dos bonecos

Manipulava as marionetes como ninguém – tinha sido instrutor do próprio Imperador.