A dor fantasma. Já ouvira falar que se dava naqueles que tem pernas ou mãos ou braços amputados. A tal memória da dor. Agora sentia-a ele próprio. E no coração que lhe tinham levado embora.
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
24 fevereiro, 2010
545. joão (conto)
João nunca faltava ao trabalho, jamais adoecia, era o tipo do funcionário exemplar. Vivia, comia e respirava a fábrica. Vestia a camisa, ou melhor, o macacão, que para ele era como se fosse uma segunda pele e, ao longo dos anos, esforçava-se por mostrar-se engrenagem importante no funcionamento da linha de produção onde atuava. Quando chegou a época de se aposentar, não o fez - decidiu continuar trabalhando com o mesmo amor e entusiasmo do primeiro dia; embora a sua saúde já não colaborasse muito para que sua produção se mantivesse satisfatória. Na concepção de João, porém, ele se havia tornado insubstituível e estava de certa forma convencido de que sem ele o mecanismo não funcionaria a contento. E como naquele ambiente totalitário ter concepções, opiniões, fazer conjecturas ou pensar era algo perigoso e por si só já acusava em quem tivesse este tipo de comportamento um desvio, uma avaria, João foi encontrado morto. Morrera tarde da noite no pleno exercício de suas funções. Fazia serão para cumprir atingir as metas de desempenho.
Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.
Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.
544. sugestão
"Vai cuidar da sua vida!", ela disse ao dispensá-lo. Mas ele não seguiu seu conselho. Preferiu refugiar-se no trabalho pois muito mais que a ela ele amava o que fazia: maquiar cadáveres, cuidar da morte dos outros.
543. o cara (miniconto)
“Eu sou o cara”, costumava se vangloriar. E um dia ao dizê-lo na hora e no lugar e para a pessoa errada, foi executado friamente.
“Aquele coroa não era o cara!”, repreendeu o contratante ao pistoleiro de aluguel. “ É nisso que dá confiar em amadores”
18 fevereiro, 2010
541. o seguidor (the follower)
tuitou antes de ser encontrado morto: estou sendo seguido. se algo me acontecer ( e com certeza vai acontecer) descartem a versão de suicídio. De nada lhe valeu, pois, seu único follower era justamente o assassino.
05 fevereiro, 2010
540. o velho capitão
As águas do rio subiram rapidamente, invadiram as margens e, malgrado os perigos, o velho capitão permaneceu em seu posto encarapitado no telhado enegrecido como seus dentes de fumante secular. Não abandonaria a casa. Afundaria com ela. Aos que tentaram resgatá-lo apontou a carabina. Enxergava neles intenções bucaneiras.
TV CRONÓPIOS H2horas (O Filme)
Minicontos, poemas, pequenos textos... É o que apresenta o filme H2horas do Pipol, na TV Cronópios. Fiz uma ponta. Confiram.
http://www.cronopios.com.br/h2horas/
http://www.cronopios.com.br/h2horas/
04 janeiro, 2010
26 novembro, 2009
536. de anjos e demônios (a Ana Maria Shua)
Asmodeus , o demônio regente do sexo, interpôs-se malevolamente entre aquele jovem casal: ora deixava a esposa frígida como a neve das montanhas e com cefaléias enlouquecedoras; ora arrefecia com uma ducha de água fria a excitação efervescente do marido. E assim começaram as brigas que acabariam com aquele casamento se um anjo do Senhor não fosse enviado em seu socorro. Este anjo a quem coube tão nobre missão era leal, destemido e com sua poderosa espada de luz não demorou em despachar o demônio de volta aos domínios abissais de Lúcifer. Era, como o são os anjos, também tão divinamente belo que ambos, esposa e esposa, por ele acharam de se apaixonar perdidamente. Estabeleceu-se aí uma situação no mínimo constrangedora. À distancia, do seu nicho de trevas, Asmodeus se divertia com tudo aquilo. Quem conhece a natureza dos humanos, estes seres imprevisíveis?
535. nó
O grito do gol que não houve atravessado na garganta. Um nó que ele sabia só se desataria depois de tomar duas conduções e quatro branquinhas no boteco lá da vila; ou progressivamente, ao longo da semana, até a próxima rodada do campeonato.
534. realização
Sentindo-se não realizado profissionalmente o chaveiro do bairro baixou as portas do seu negócio e se mandou para a Amazônia. Lá abraçou o Santo Daime. Aprenderia a abrir as portas da percepção.
533. cruzeiro
Cruzeiro para as Ilhas Virgens. Impuseram-lhe: ou dá ou desce. Ela mirou o azul calmo dos Caribe e achou que era tarde para aprender a nadar, então relaxou. E gozou.
16 novembro, 2009
532. 1929
Tarde da noite já, Ariosto Bequimão está só e, meticulosamente, manuseia sua arma: uma pistola cromada, cabo de madrepérola, presente do seu vizinho e parceiro comercial, o Conde Francisco Matarazzo. Desmontar, limpar, lubrificar... para ele é uma espécie de terapia. Ao fazê-lo esquece por alguns momentos dos seus problemas financeiros que o Crack da Bolsa de Nova Iorque não poupara ninguém. Suas mulheres, esposa e amante, já o abandonaram carregando o que podiam. Seus amigos, ou aqueles que se apresentavam como tal quando ele ainda dispunha de dinheiro e prestígio, arredaram pé - só os credores, hienas famintas, não desistem de bater à sua porta.
Ao certificar-se de que a arma está descarregada, Bequimão inevitavelmente lembra-se de sua falecida mãe a adverti-lo para que tomasse cuidado ao brincar com armas. “Superstição”, ri. “Como pode o diabo enfiar um cartucho aí sem que se perceba?”. Não responde. Não é de botar fé em crendices. Descontraído, lembranças de sua vida logo afluem: casamento, viagens, pequenas aventuras, irresponsabilidades... Lembra-se de uma vez ter feito roleta russa com alguns colegas da faculdade. Loucura. Estavam bêbados e riam muito. Felizmente ninguém se machucou. O estampido seco que se ouviu não surpreende ninguém. Aquele seria um ano triste.
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