29 outubro, 2010

593. o homem centenário

O sonho é mais ou menos assim: voce chega exausto do trabalho ao apartamento ou à casa aonde mora, abre a porta e, na penumbra da sala... Surpresa! Sobre a mesa há bebidas, salgados e um belíssimo bolo de creme e confeitos de chocolate (como voce gosta) com uma velinha solitária de número 100 acesa e fincada bem no meio.
Ei, voce diz, Onde está todo mundo? Não há resposta. E voce pensa que seus amigos estão lhe aprontando alguma, mas espera que surjam de repente das sombras e cantem parabéns pra voce e o abracem, e o beijem, e o cumprimentem por mais um aniversário. Mas ninguém dá as caras.
Até que a vela se consuma, você vai perceber que eles já se foram há muito tempo.

14 outubro, 2010

592. hai kai n.64

Cá dentro de mim
O vazio é só pretexto
Para que me ocupes

591. hai kai n.63

Lua na sarjeta
A moeda que o poeta
Deu de gorjeta

590. hai kai .62

Barulhinho de chuva
Me encolho todo na cama
Esticando o sonho

589. Biawak Raksasa (Dragão-de-Komodo)

Da desafortunada fotógrafa alemã Bertha Von Weingast, da National Geographic, encontraram apenas a câmera Nikon D3X de 24,5 megapixels, os óculos de sol da grife italiana Dolce&Gabbana, e um livro do escritor Hondurenho Augusto Monterroso. O "dinossauro indonésio", principal suspeito de a ter devorado, já não estava lá.

13 outubro, 2010

Notícia boa em meio à enxurrada de Spams degradantes de uma campanha eleitoral de baixo nível:


Acabo de ser informado que o meu conto "Licantropo", foi o vencedor do concurso Minicontos Lupinos, organizado pelo escritor Alfer Medeiros, autor do livro Fúria Lupina .

Valeu!!!


http://towerofreading.blogspot.com/2010/10/encerrado-concurso-furia-lupina.html#more

08 outubro, 2010

588. agosto

“Agosto, desgosto”, pensou. A rima e o provérbio popular não ajudavam nem suavizavam em nada a sua situação. Pelo contrário. Decidiu então que contaria aos pais em Setembro. Pelo menos fugiria do lugar-comum e podia até calhar deles perceberem sua barriguinha de três meses, protuberante.

587. meio de vida

Dentro do trem vendo indulgências. É o meu meio de vida. Podia estar roubando, matando, me prostituindo... mas tenho quatro vícios pequenos para alimentar. E a virtude de ser um bom pai.

586. consciência ecológica (Homo-Pet)

Ao virar os quarenta, a rotina de procurar emprego para ele tornara-se uma espécie de tortura. “O senhor precisa se reciclar “, diziam ao descartá-lo. E ele não tinha como não se sentir um lixo.

585. tropa de elite

Subiram o morro dispostos a tudo. Missão: acabar com o inimigo, dizimá-lo. Aquele ano, garantiam, a dengue não ira se mostrar tão letal.

23 setembro, 2010

584. o cobrador (a Ruben Fonseca)

Foi lá chamou para si a responsabilidade. Estava confiante e, para convencer seus dez companheiros e o treinador de que era o mais preparado para fazê-lo, usou do argumento de que nunca havia desperdiçado uma penalidade máxima. Só não revelou, mesmo porque ninguém lhe perguntou, que jamais havia cobrado um pênalti antes.

583. hai cai n.61

Cores de setembro
Tingem olhos desbotados
Outra primavera

582. hai kai n.60

Dentro da armadura
Apenas um sonho antigo
De triste figura

16 setembro, 2010

581. dores & amores

Tia Zulmira morreu solteirona. Amou uma vez na sua vida (um carteiro) e não foi correspondida.

580. da arte de coçar

Aposentado, passava o dia à toa. A mulher chegava do trabalho e fazia sempre a mesma pergunta (que é que você fez hoje, bem?) para a qual ele dava sempre a mesma resposta: o dia inteiro coçando, fazer o que? Atrás da própria orelha, ela percebeu, havia muito mais que o aparelho bege para a surdez. Trair e coçar é natural dos desocupados. Coçar o safado já coçava.

06 setembro, 2010

FANTASTICON 2010


Estive no Fantasticon 2010 organizado pelo Silvio Alexandre revendo amigos, travando novas amizades, me interando das novidades da Literatura Fantástica. Fui prestigiar o Claudio Brites pelo seu romance ( a oito mãos) recém-lançado “A Tríade” e levar-lhe o meu abraço que estendi ao Nelson (Luis Brás) de Oliveira, ao sempre gentil Roberto Causo, ao Brontps Baruq, ao Mustafá Ali Kanso com quem primeiro dei de cara no evento, com o Ramiro Giroldo, e o meu amigo de Catanduva o sempre simpático Sid Castro.

Lá estavam também Ricardo Delfim, Larissa Caruso e Claudio Parreira (que conheci pessoalmente ao pedir um autógrafo do Portal 21) e o roteirista Alex Mir. O evento foi de uma efervescência tal que me senti meio perdidão no espaço entre os presentes.

Mas valeu. Ano que vem quero estar lá.

579. urbanodramas I


Tarde quente. 42 graus. Sol incinerador sobre São Paulo, o asfalto é uma chapa escura de lanchonete. O trânsito vilão assume sádico todas as culpas. O acidente – mais um- logo ali, próximo a alça de acesso ao Rodoanel. O caminhão com a placa de Bastos* tombou interditando a pista e a notícia correu rápida que nem fogo em favela:“Sal! Não esqueçam de levar sal! Temos o maior omelete do mundo!”


*.Cidade paulista conhecida como A Capital do Ovo

578. dos traumas da infância

As novas tecnologias eram para ele um verdadeiro tormento. De informática, por exemplo, aprendera apenas o comando COPIAR; quanto ao seu natural complementar, o COLAR, permanecia reticente. Isso ocorria talvez porque a figura severa do pai obrigando-o a estudar embaixo de ameaça lhe fosse recorrente. Parecia ouvi-lo vociferando: Se souber que você andou colando, moleque, eu te mato!

577. aragem

Problemas de ordem diversa o afligiam. Disse que ia sair para areja a cabeça. Encontraram-no com um furo na testa.

20 agosto, 2010

576. um conto policial ainda sem título

Naquele mundo às avessas, pensava o Sargento Cordeiro, nada mais o haveria de surpreender. E de repente - fogo no cerrado - o boato de que a mulher o corneava. “Tá cheirando a chifre queimado”, chacoteavam-no com crueldade, apontando-o pelas costas. Antes tivesse levado um tiro, pensou.

Educado, fino trato, manso como o animal que lhe dava o sobrenome, diziam, melhor que estivesse no serviço burocrático, no serviço de relações publicas da PM. Quem podia imaginá-lo em uma situação de risco?

Com a arma da corporação entendia não podia fazer os dois. Usaria a outra, com a numeração raspada, apreendida em diligência. Mamão com açúcar. Esperou. Para não agir ao sabor da emoção. Ocupou a cabeça em fazer simulações. Elaborava minuciosamente, escrevia e reescrevia mentalmente o roteiro. Na juventude, benditos arroubos, cometera alguns curtas em super 8. O sonho de tornar-se diretor de cinema todavia ficara para atrás. Virou mesmo foi policial, personagem de um filme violento e repetitivo.

Matou-os. Numa sexta-feira de Agosto em um Motel na saída da cidade. A cena do crime – as vítimas nuas sobre a cama redonda tingida de vermelho e refletidas no espelho do teto - fotografada pelo perito, por si só indicava que o amante assassinara a sua esposa e em seguida cometera suicídio.

Principal suspeito, o sargento Cordeiro tinha um álibi. Testemunhas e câmeras de circuito fechado do bar onde passara a noite do crime bebendo jogavam a seu favor. Estranho era que até então ele sempre havia se definido como abstêmio. Quando o perguntaram, disse que se decidira a tomar uns tragos para ver se afogava toda sua mágoa.

Um ano depois, calmas as águas, e com o pretexto de realizar o velho sonho de estudar Cinema pediu baixa e mudou-se para a Capital. Não disse pois ninguém precisava saber, mas ia morar justamente com o seu irmão gêmeo com quem nos momentos difíceis, sabia, sempre podia contar.