14 novembro, 2013

Eu nem aí (poema)

Do que falavam os outros
Pelos cotovelos
Curioso eu quis saber
E tentei Pegar o bonde andando
Bonde não havia – desde quando?
Ninguém soube me dizer.
Não me liguei
Nem me caiu a ficha
Pois ficha
Já ninguém usava
Eram outros tempos
- Não previ -
E pra variar
Eu nem aí
Estava.

3 haicais

1.

Sandálias gastas
Aparar as arestas do caminho
Já me basta

 
2.

A vida passou
Tão bela e não menos frágil
Bolha de sabão

 
3.

Ê vida besta
Ontem foi domingo – fui á missa
Hoje já é sexta

Forma (poema)


Quero
Preencher
Com a massa amalgamada
do gesso
Estes vãos, estes vácuos
Estas frestas, fendas
Estas reentrâncias e saliências
Que são
A tua ausência
Minha amada.
E depois
Com a tua forma
Me conformar.

Para Sempre (miniconto)

“Se alguém aqui presente souber de algo que possa impedir este casamento, que fale agora ou cale-se para sempre.”, desafiou o virtuoso padre Orestes.
 
E por não se manifestar ele próprio, conhecedor que era dos segredos mais íntimos de toda aquela gente, nada mais conseguiu pronunciar até o fim dos seus dias.

Como Acaba (miniconto)

Depois de mil e uma noites, o rei se encheu de todas aquelas estórias que lhe contava a esposa. Demonstrava cansaço e enfado e já não aguentava mais ouvir  narrativas de folhetim.
- Não quer saber como acaba, amado esposo? –ainda insistiu a rainha contadora.
-  Como acaba? – seus olhos faiscaram. E desembainhou a velha cimitarra há tempos sem uso.

30 outubro, 2013

Travessuras de Travesseiros - poema

Dois travesseiros travessos
Arrancaram suas fronhas
Se engalfinharam na cama
Sem culpa, desculpa, ou vergonha.
Nem o abajur percebeu
Tudo que ali ocorreu
Se o viu o criado mudo
Calado permaneceu
E quando no nono mês
Um almofadinha nasceu
Travesseira ao travesseiro
Disse:
Toma lá que o filho é teu!

Pequenas Empresas

Precisava criar vergonha – lhe repreenderam. Levou a sério: fez  curso no SEBRAE, aperfeiçoou-se, expandiu o negócio... Hoje exporta vergonhas saradas para 120 países.

Mais Um (miniconto)

Jamais sentia-se mais um na multidão, nem dava tempo. Pois era justamente nas aglomerações que o virus multiplicava, se proliferava e se alastrava terrivelmente.

Trajetos (miniconto)

À má sorte no jogo do bicho, o porteiro paraibano sempre atribuía o fato de haver “pisado no rastro de um corno”. Nem percebia que, na sua inquebrável rotina, cumpria sempre os mesmos trajetos.

Dia Santo (miniconto)

No dia dos mortos, o famoso médium foi ao campo santo. Entre tantos vivos, encontrou apenas um morto: o antigo vigia, ainda arraigado às suas responsabilidades.
- Ei Ferreira, onde está todo mundo? – perguntou. Pelos desencarnados, naturalmente.
- Hoje é feriado, rapaz. Dia santo. Esqueceu? Saíram todos.

17 outubro, 2013

DORALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS - Teatro

Escrevi recentemente, com a ajuda da minha filha Julia Ayumi, uma adaptação livre para teatro do clássico de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas.
 
 
 
Rebatizamos-a de "DORALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS"  e a estória transcorre mais ou menos assim:
 
 
Doralice é uma menina pobre do Sertão Nordestino, onde as coisas, para variar, não andam nada fáceis por causa de (mais) uma seca braba. Procópio, o narrador da estória e repentista, é o gato de estimação de Doralice. Homens e bichos, como Seu Gonzaga, Patativa, a Asa branca e o Assum-Preto já emigram retirantes. Ratos e calangos já não há com os quais o gato possa se alimentar. Um dia, ao perseguir um preá de relógio e óculos raiban, Procópio entra em um oco de ingazeira que dá passagem para o Sertão das Maravilhas. Doralice o segue e acaba caindo neste novo mundo.
A partir daí surgem personagens como o Mestre Imbuá, uma lagarta enorme metida a filósofa, o Gato que Acha Graça, o Sapateiro Abestado e a Cotia Ruim da Bola, a Rainha de Cócoras que não pensa duas vezes para mandar cortar os cabelos de quem a contraria, o Pássaro Carão, e os gêmeos Parelho e Parecido.
 
 
Minha colega escritora, ilustradora e atriz, Carol Mancini, me contactou recentemente pedindo autorização para encená-la junto com os seus alunos.
 
Fiquei feliz da vida. Para mim é uma honra.
 
 

05 setembro, 2013

A Grande Viagem (miniconto)

Arrumadas as tralhas, pegamos a estrada. No caminho vovó morreu, a família diminuiu; mamãe  pariu, a família cresceu. “Quando chegaremos?” perguntei. E todos riram muito.

Novela Grega (miniconto)

Giorgios quebrava pratos mais do que o normal. Mais que resgate da tradição helênica, era um protesto contra sua esposa noveleira Athina, que se apossava da TV bem na hora futebol.

Vingança (nanoconto)

Ele reclamou da comida – fria e com um gosto estranho – e calou-se para sempre.

Caminhos do Fantástico - 2013

 
 
 
 caminhos-do-fantastico_2013_escafandro





Saiu a lista de contos selecionados para o volume 2 da coletânea Caminhos do Fantástico, organizada pela Terracota editora com apoio do Fantasticon.

A lista foi publicada no site da editora: http://terracotacultural.com.br

Autor
1Os Cães Também SorriemFrancisco Pascoal Pinto
2ApagãoLauro Roberto Elme
3O quartzo IncandescenteDaniel Erhard Cardoso
4Pelos do EstigmaRoque Aloisio Weschenfelder
5Destino EvitávelJoão Fernando Ferreira Marques
6Zumbificando o sambaLeonardo Gomes Nogueira
7Aconteceu na LapaRubem Ricardo Damasceno Cabral
8Virgilio e o Mercador de SonhosJúlio Pepe Barradas
9TeletransportebrasCaio Batista

07 agosto, 2013

haicais (kigo: borboleta)


O ruflar das asas
Da borboleta de seda
Acorda Chun tzu

Era tatuagem
A borboleta no seio
Da menina morta


No dorso do asno
A borboleta azul
É raro adereço

Esta borboleta
Voando a bambolear
Embeleza o dia
 
Larva e casulo
Evolui a borboleta
Aula de ciências

08 julho, 2013

Fôlego Curto (miniconto)

Decidira-se a escrever o seu primeiro romance. Mal digitou as duas primeiras linhas, deu-se a avaria no PC. Ficou mesmo no miniconto. Mais um.

Descobrimento (miniconto)

Avariada a nave , avistaram algo e renovaram-se as eperanças.

"Um asteróide! Chamemo-lo Pascal", determinou o Capitão. "Ou melhor", corrigiu, "Lua de Vera Cruz".

À medida que se aproximavam, porém, o calor se tornava insuportável, infernal.
 
"Brasas! Diabos! Um planeta brasil!", registrou-se na caixa preta que sobreviveu à explosão.

Avaria (miniconto)

Devido a uma avaria técnica na máquina do tempo, sem condições de retorno ao século XXI, Michel radicou-se junto à Catedral de Notre-Dame e virou célebrado profeta.

haicai junino


Estoura o rojão
Acalma o seu carneirinho
São João menininho