minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
21 junho, 2011
635. miniconto (debut) 4
Frente ao espelho, fez a prova. Estava deslumbrante e triste. Não seria Ele que iria debutar dentro do vestido no baile daquela noite.
634. miniconto (debut) 3
Rita invadiu histérica o Social Clube, e tentou agredir uma das debutantes. “Devolve o meu homem, rameira!”, acusava a viúva.
633. miniconto (debut) 2
A fotografia oval de louça, dela aos quinze. A última que tirou antes que o tifo a vitimasse. Dizem que obra milagres. Nem um milagre a salvou.
632. miniconto (debut) 1
Dá-me o prazer? – aproximou-se o cavalheiro. Ela sorriu e deixou-se conduzir. O prazer, no entanto, seria todo dela, a Predadora.
16 junho, 2011
631. Outro Conto Hindi
O arqueiro Arjeder foi posto à prova por seu mestre e colocado em um cova de tigres de bengala. A consultar sua aljava viu que todas as flechas estavam ali, mas surpreendeu-se ao ver que a corda do seu arco estava arrebentada. Crente de que não teria chance, o guerreiro maldisse mil vezes o seu mestre. Mas quando as feras apareceram, ele percebeu que eram apenas filhotes não maiores que um gato doméstico e bendisse também mil vezes os seu mestre.Mais tarde o mestre veio ter com ele e lhe disse:
"O tigre às vezes é do tamanho de um gato; assim como o medo de um homem às vezes a o torna menor que um rato."
630. Um Conto Hindi
Narjandi, o sábio, subiu a montanha Layaheema e por doze anos jejuou purificando o corpo e alma. Ao descer o venerável distraiu-se e pisou na bosta de um Yaqui.
"Puta-que-pariu!", xingou irritado.
O eco daquele palavrão, para o pasmo dos alpinistas estrangeiros cuja presença é cada vez mais frequentes naquelas paragens, ainda reverbera nas encostas geladas da montanha.
3º concurso de minicontos do Estronho
629. Dois minicontos budistas
I-
Um mestre zen peregrinou a sua vida inteira por muitos países. Buscava o equilíbrio. No fim da vida encontrou um abismo, mas se esquecera de tecer a corda.
II-
Um camponês, homem simples, a conselho de um monge saiu em busca do equilibrio. Não o achando voltou a ter com o monge que lhe deu uma corda. Dias depois o campones foi encontrado morto: enforcado.
Um mestre zen peregrinou a sua vida inteira por muitos países. Buscava o equilíbrio. No fim da vida encontrou um abismo, mas se esquecera de tecer a corda.
II-
Um camponês, homem simples, a conselho de um monge saiu em busca do equilibrio. Não o achando voltou a ter com o monge que lhe deu uma corda. Dias depois o campones foi encontrado morto: enforcado.
626. Pasárgada, a Outra
Vou me embora de Pasárgada
A República triunfou
As mulheres não me queremA minha cama quebrou.
Vou-me embora de PasárgadaEscaparei por um triz
Da turba que não me atura
Caio fora, sigo em frente
Que Joana, safada, me estranha
Diz que me ama mas mente.
Já empregou seus parentes
Chance que eu jamais tive.
Na fuga farei um cooper
Roubarei uma bicicleta
Não mais burro nem mais brabo
Liso como pau-de-sebo
Tomarei banhos de gato
E quando estiver bem longe
Em São Paulo ou no Rio
Bebo, viro um pau-d'água
E dano a contar histórias
Que no tempo das vacas-gordas
Eu costumava inventar.
Vou-me embora de Pasárgada
Em Pasárgada não tem nada
Fim de civilização
Tenho um processo nas costas
Movido por Conceição
Meu celular não funciona
A Lei Seca me esturrica
As putas beijam na boca
Tenho pena de quem fica.
31 maio, 2011
27 maio, 2011
626. culpa
Ele sempre fez isso (mijar fora do vaso), disse vovó. Agora é que deu para por a culpa em um tal de Parkinson.
625. tocaia (miniconto)
Ao preservar a floresta latifoliada, mal sabia que dali partiriam os tiros covardes que selariam o seu destino.
Historia Fantástica do Brasil
24 março, 2011
11 março, 2011
11 fevereiro, 2011
608. passarela
Flor de favela, beleza esguia e exótica moldada pela fome, Iracema sonhava com a passarela. Não passou despercebida aos olhos experientes de um selecionador. Na pressa e na ansiedade de comparecer à agencia de modelos em que faria o teste redentor, atravessou a avenida aquela manhã sem olhar para os lados e foi colhida por um automóvel em alta velocidade. Na grama rala do canteiro central, enquanto esperava o socorro da ambulância pública que não chegaria a tempo, mal respirava e ainda sonhava: Via-se em passos de ave pernalta, exuberante num modelito de griffe, a desfilar na velha passarela de concreto que metros acima seccionava o céu fuliginoso da cidade.

A revista eletrônica de Literatura O Bule (http://www.o-bule.com/) está com um Especial em que apresenta o melhor em narrativas curtas. Wilson Gorj, Felipe Valério, Angela Schnoor, Hélverton Baiano, Ana Mello, Tiago Moralles, Raphael Gancz e este que aqui vos escreve, estamos colaborando com micronarrativas, nanocontos, brevidades. Confiram.
20 janeiro, 2011
CURSED CITY
Ay caramba! Comemoro. Dou tiros a esmo. Já matei três tristes abutres. Motivo: meu conto "Duas Lendas" vingou e é um dos classificados em concurso organizado pela Editora Estronho, do escritor/editor M.D. Amado.
Os relatos se passam neste pedaço esquecido do inferno chamdo Cursed City (Cidade Amaldiçoada)
Estou mal acompanhado. Do meu bando fazem parte os celerados: André Bozzetto Jr. , Alfer Medeiros, Alliah, Ana Cristina Rodrigues, Carolina Mancini , Cirilo S. Lemos, Davi M. Gonzales, , Georgette Silen, Jota Marques, Lucas Rocha , M. D. Amado, Marcel Breton, Romeu Martins, Tânia Souza, Valentina Silva Ferreira, Verônica Freitas, Yvis Tomazini e Zenon.
Breve teremos o lançamento, Carajo!!
Chico Pascoal
14 janeiro, 2011
607. o preso político
O senhor R. Olivares tinha um sestro feio: de cinco em cinco segundos coçava discretamente o saco escrotal. Isso quando trabalhava na Secretária de Assunto Restritos e Confidenciais e podia fazê-lo tranquilamente sob o tampo da mesa de cedro em que elaborava relatórios diários e planilhas Excel que abasteciam os diversos órgãos e sub-órgãos da Administração Pública. Fora dali usava sempre, mesmo em dias abafados, um largo sobretudo com bolsos vazados através dos quais podia se coçar sem o risco do constrangimento.
Quando informações sigilosas vazaram causando prejuízos irreparáveis ao Estado, a polícia política o levou preso como suspeito. De mãos atadas, o senhor Olivares foi tomado por incontrolável desespero. Em cinco minutos, tempo em que durou sua resistência psicológica, deu com a língua nos dentes e confessou tudo, embora não tivesse culpa alguma.
Passou anos encarcerado. Tiraram sua liberdade, mas não completamente. As mãos continuavam livres .
Quando informações sigilosas vazaram causando prejuízos irreparáveis ao Estado, a polícia política o levou preso como suspeito. De mãos atadas, o senhor Olivares foi tomado por incontrolável desespero. Em cinco minutos, tempo em que durou sua resistência psicológica, deu com a língua nos dentes e confessou tudo, embora não tivesse culpa alguma.
Passou anos encarcerado. Tiraram sua liberdade, mas não completamente. As mãos continuavam livres .
606. cantiga de roda
Terezinha de Jesus, levou uma queda e foi ao chão... Esta era a versão do marido para as escoriações e hematomas no corpo da amásia. Não, jurou, não agrediria jamais a mãe dos seus filhos.
"Qual delas?", quis saber a delegada. "Seja mais específico, senhor Bernabéu!"
605. intempéries
Choveu em três horas o que era esperado para o mês inteiro. Choveu durante o mês o que era esperado para o ano inteiro. E não foi mais que uma garoa fina, que mal umedeceu a face áspera do velho beduíno.
10 janeiro, 2011
NO CRONÓPIOS...

Êba! Presente de Ano Novo: um poema meu publicado pelo conceituado site de literatura Cronópios http://www.cronopios.com.br/
Confiram!
30 novembro, 2010
595. acerto
Agora eram só os dois. O prato para se comer frio e as facas. O ofendido sabia do gosto do ofensor e que um dia o paladar o trairia. Morreria como o peixe que ali era servido: pela boca.
594. mistura
Eram os tempos difíceis do pós-guerra. Antes da mãe servir a rala sopa de lentilhas ele disse: Vou buscar alguma mistura. Saiu. E voltou anos só depois conduzindo pela mão um garotinho que era a cara dele, mas com a pele de uma cor que contrastava com o que ainda restava da família. Do porta-retratos o velho pai, garboso em seu uniforme da Gestapo, o fuzilava com o olhar; como se ele pertencesse a uma daquelas tribos de Davi.
29 outubro, 2010
593. o homem centenário
O sonho é mais ou menos assim: voce chega exausto do trabalho ao apartamento ou à casa aonde mora, abre a porta e, na penumbra da sala... Surpresa! Sobre a mesa há bebidas, salgados e um belíssimo bolo de creme e confeitos de chocolate (como voce gosta) com uma velinha solitária de número 100 acesa e fincada bem no meio.
Ei, voce diz, Onde está todo mundo? Não há resposta. E voce pensa que seus amigos estão lhe aprontando alguma, mas espera que surjam de repente das sombras e cantem parabéns pra voce e o abracem, e o beijem, e o cumprimentem por mais um aniversário. Mas ninguém dá as caras.
Até que a vela se consuma, você vai perceber que eles já se foram há muito tempo.
14 outubro, 2010
589. Biawak Raksasa (Dragão-de-Komodo)
Da desafortunada fotógrafa alemã Bertha Von Weingast, da National Geographic, encontraram apenas a câmera Nikon D3X de 24,5 megapixels, os óculos de sol da grife italiana Dolce&Gabbana, e um livro do escritor Hondurenho Augusto Monterroso. O "dinossauro indonésio", principal suspeito de a ter devorado, já não estava lá.
13 outubro, 2010
Notícia boa em meio à enxurrada de Spams degradantes de uma campanha eleitoral de baixo nível:
Acabo de ser informado que o meu conto "Licantropo", foi o vencedor do concurso Minicontos Lupinos, organizado pelo escritor Alfer Medeiros, autor do livro Fúria Lupina .
Valeu!!!
Acabo de ser informado que o meu conto "Licantropo", foi o vencedor do concurso Minicontos Lupinos, organizado pelo escritor Alfer Medeiros, autor do livro Fúria Lupina .
Valeu!!!
http://towerofreading.blogspot.com/2010/10/encerrado-concurso-furia-lupina.html#more
08 outubro, 2010
588. agosto
“Agosto, desgosto”, pensou. A rima e o provérbio popular não ajudavam nem suavizavam em nada a sua situação. Pelo contrário. Decidiu então que contaria aos pais em Setembro. Pelo menos fugiria do lugar-comum e podia até calhar deles perceberem sua barriguinha de três meses, protuberante.
587. meio de vida
Dentro do trem vendo indulgências. É o meu meio de vida. Podia estar roubando, matando, me prostituindo... mas tenho quatro vícios pequenos para alimentar. E a virtude de ser um bom pai.
586. consciência ecológica (Homo-Pet)
Ao virar os quarenta, a rotina de procurar emprego para ele tornara-se uma espécie de tortura. “O senhor precisa se reciclar “, diziam ao descartá-lo. E ele não tinha como não se sentir um lixo.
585. tropa de elite
Subiram o morro dispostos a tudo. Missão: acabar com o inimigo, dizimá-lo. Aquele ano, garantiam, a dengue não ira se mostrar tão letal.
23 setembro, 2010
584. o cobrador (a Ruben Fonseca)
Foi lá chamou para si a responsabilidade. Estava confiante e, para convencer seus dez companheiros e o treinador de que era o mais preparado para fazê-lo, usou do argumento de que nunca havia desperdiçado uma penalidade máxima. Só não revelou, mesmo porque ninguém lhe perguntou, que jamais havia cobrado um pênalti antes.
16 setembro, 2010
581. dores & amores
Tia Zulmira morreu solteirona. Amou uma vez na sua vida (um carteiro) e não foi correspondida.
580. da arte de coçar
Aposentado, passava o dia à toa. A mulher chegava do trabalho e fazia sempre a mesma pergunta (que é que você fez hoje, bem?) para a qual ele dava sempre a mesma resposta: o dia inteiro coçando, fazer o que? Atrás da própria orelha, ela percebeu, havia muito mais que o aparelho bege para a surdez. Trair e coçar é natural dos desocupados. Coçar o safado já coçava.
06 setembro, 2010
FANTASTICON 2010
Estive no Fantasticon 2010 organizado pelo Silvio Alexandre revendo amigos, travando novas amizades, me interando das novidades da Literatura Fantástica. Fui prestigiar o Claudio Brites pelo seu romance ( a oito mãos) recém-lançado “A Tríade” e levar-lhe o meu abraço que estendi ao Nelson (Luis Brás) de Oliveira, ao sempre gentil Roberto Causo, ao Brontps Baruq, ao Mustafá Ali Kanso com quem primeiro dei de cara no evento, com o Ramiro Giroldo, e o meu amigo de Catanduva o sempre simpático Sid Castro.
Lá estavam também Ricardo Delfim, Larissa Caruso e Claudio Parreira (que conheci pessoalmente ao pedir um autógrafo do Portal 21) e o roteirista Alex Mir. O evento foi de uma efervescência tal que me senti meio perdidão no espaço entre os presentes.
Mas valeu. Ano que vem quero estar lá.
Lá estavam também Ricardo Delfim, Larissa Caruso e Claudio Parreira (que conheci pessoalmente ao pedir um autógrafo do Portal 21) e o roteirista Alex Mir. O evento foi de uma efervescência tal que me senti meio perdidão no espaço entre os presentes.
Mas valeu. Ano que vem quero estar lá.
579. urbanodramas I
Tarde quente. 42 graus. Sol incinerador sobre São Paulo, o asfalto é uma chapa escura de lanchonete. O trânsito vilão assume sádico todas as culpas. O acidente – mais um- logo ali, próximo a alça de acesso ao Rodoanel. O caminhão com a placa de Bastos* tombou interditando a pista e a notícia correu rápida que nem fogo em favela:“Sal! Não esqueçam de levar sal! Temos o maior omelete do mundo!”
*.Cidade paulista conhecida como A Capital do Ovo
578. dos traumas da infância
As novas tecnologias eram para ele um verdadeiro tormento. De informática, por exemplo, aprendera apenas o comando COPIAR; quanto ao seu natural complementar, o COLAR, permanecia reticente. Isso ocorria talvez porque a figura severa do pai obrigando-o a estudar embaixo de ameaça lhe fosse recorrente. Parecia ouvi-lo vociferando: Se souber que você andou colando, moleque, eu te mato!
577. aragem
Problemas de ordem diversa o afligiam. Disse que ia sair para areja a cabeça. Encontraram-no com um furo na testa.
20 agosto, 2010
576. um conto policial ainda sem título
Naquele mundo às avessas, pensava o Sargento Cordeiro, nada mais o haveria de surpreender. E de repente - fogo no cerrado - o boato de que a mulher o corneava. “Tá cheirando a chifre queimado”, chacoteavam-no com crueldade, apontando-o pelas costas. Antes tivesse levado um tiro, pensou.
Educado, fino trato, manso como o animal que lhe dava o sobrenome, diziam, melhor que estivesse no serviço burocrático, no serviço de relações publicas da PM. Quem podia imaginá-lo em uma situação de risco?
Com a arma da corporação entendia não podia fazer os dois. Usaria a outra, com a numeração raspada, apreendida em diligência. Mamão com açúcar. Esperou. Para não agir ao sabor da emoção. Ocupou a cabeça em fazer simulações. Elaborava minuciosamente, escrevia e reescrevia mentalmente o roteiro. Na juventude, benditos arroubos, cometera alguns curtas em super 8. O sonho de tornar-se diretor de cinema todavia ficara para atrás. Virou mesmo foi policial, personagem de um filme violento e repetitivo.
Matou-os. Numa sexta-feira de Agosto em um Motel na saída da cidade. A cena do crime – as vítimas nuas sobre a cama redonda tingida de vermelho e refletidas no espelho do teto - fotografada pelo perito, por si só indicava que o amante assassinara a sua esposa e em seguida cometera suicídio.
Principal suspeito, o sargento Cordeiro tinha um álibi. Testemunhas e câmeras de circuito fechado do bar onde passara a noite do crime bebendo jogavam a seu favor. Estranho era que até então ele sempre havia se definido como abstêmio. Quando o perguntaram, disse que se decidira a tomar uns tragos para ver se afogava toda sua mágoa.
Um ano depois, calmas as águas, e com o pretexto de realizar o velho sonho de estudar Cinema pediu baixa e mudou-se para a Capital. Não disse pois ninguém precisava saber, mas ia morar justamente com o seu irmão gêmeo com quem nos momentos difíceis, sabia, sempre podia contar.
Educado, fino trato, manso como o animal que lhe dava o sobrenome, diziam, melhor que estivesse no serviço burocrático, no serviço de relações publicas da PM. Quem podia imaginá-lo em uma situação de risco?
Com a arma da corporação entendia não podia fazer os dois. Usaria a outra, com a numeração raspada, apreendida em diligência. Mamão com açúcar. Esperou. Para não agir ao sabor da emoção. Ocupou a cabeça em fazer simulações. Elaborava minuciosamente, escrevia e reescrevia mentalmente o roteiro. Na juventude, benditos arroubos, cometera alguns curtas em super 8. O sonho de tornar-se diretor de cinema todavia ficara para atrás. Virou mesmo foi policial, personagem de um filme violento e repetitivo.
Matou-os. Numa sexta-feira de Agosto em um Motel na saída da cidade. A cena do crime – as vítimas nuas sobre a cama redonda tingida de vermelho e refletidas no espelho do teto - fotografada pelo perito, por si só indicava que o amante assassinara a sua esposa e em seguida cometera suicídio.
Principal suspeito, o sargento Cordeiro tinha um álibi. Testemunhas e câmeras de circuito fechado do bar onde passara a noite do crime bebendo jogavam a seu favor. Estranho era que até então ele sempre havia se definido como abstêmio. Quando o perguntaram, disse que se decidira a tomar uns tragos para ver se afogava toda sua mágoa.
Um ano depois, calmas as águas, e com o pretexto de realizar o velho sonho de estudar Cinema pediu baixa e mudou-se para a Capital. Não disse pois ninguém precisava saber, mas ia morar justamente com o seu irmão gêmeo com quem nos momentos difíceis, sabia, sempre podia contar.
575. confissão
Matei-a sim. Mas foi por amor, juro! Por ódio jamais o faria. Se assim o fizesse, matasse por ódio, seria um assassino serial; pois odeio tudo e a todos. Só a ela amei. Minha mãezinha.
574. o trem de Ibiapaba
16 agosto, 2010
23 junho, 2010
571. desconfianças
Só muitos anos depois dele morto – de desgosto – é que as suas feições começaram a tomar forma na face filho que sempre renegara.
04 junho, 2010
570. hai kai n. 57
Entornado o Veronal
O morto – com cabelos
Transpõe o portal.
(Ao escritor japonês Akutagawa)
O morto – com cabelos
Transpõe o portal.
(Ao escritor japonês Akutagawa)
569. Apócrifo Cearense
Esaú – morador do Ipu
- Está lá, nas escrituras -
Cedeu sua primogenitura
Ao seu meio-irmão Jacó
Que era natural do Icó
- Está lá, nas escrituras -
Cedeu sua primogenitura
Ao seu meio-irmão Jacó
Que era natural do Icó
Por um pedaço de rapadura.
*. Ao escritor conterrâneo Ronaldo Correia de Brito, autor dos livros: Galiléia, e O Livro dos Homens.
DULCINÉIA CATADORA - H2Horas

Dia 1 de junho, noite fria em Sampa. Casa das Rosas. Lá estive para o lançamento do H2Horas do Cronópios em parceria com o Coletivo Dulcinéia Catadora. Contos mínimos, fragmentos, poemas curtíssimos. Dei a minha pequena contibuição (um microconto lá na página 13). E tive o prazer de conhecer pessoas interessantetes como o Pipol (editor do Cronópios), Milton Felipetti (locutor do video H2Horas), o poeta e escritor Silas Correia Leite, o poeta Nestor Isejima Lampros e a artista plástica Lúcia Rosa, curadora do coletivo que já publicou autores como Marcelino Freire, Wilson Bueno, Xico Sá e Alice Ruiz entre outros.
Levei meu exemplar, é claro, e a escolha foi da minha filha, Julia.
31 maio, 2010
568. rimas
Clarisse sonhava em ser Miss
Ernesto queria ser honesto
Luis? Apenas ser feliz.
Raimundo – o estraga-prazeres –
Disse com todas as letras, hieróglifos e ideogramas
Parafraseando Carlos
Um gauche lá das Gerais:
Rima não é solução. Tirem o cavalinho da chuva.
Ernesto queria ser honesto
Luis? Apenas ser feliz.
Raimundo – o estraga-prazeres –
Disse com todas as letras, hieróglifos e ideogramas
Parafraseando Carlos
Um gauche lá das Gerais:
Rima não é solução. Tirem o cavalinho da chuva.
Dito e feito:
Clarisse engordou cem quilos
Ernesto entrou pra política
Luis? Que é de Luis?
Dizem que caiu no mundo
Depois que Felicidade
Que não entrava na estória
Foi embora na garupa do cavalo de Raimundo.
03 maio, 2010
567. Francisco, meu avô.
Meu avô paterno, também Francisco como seu pai e meu pai e o filho que ainda não tive, quando moço, esteve na Amazônia. A cara e a coragem, uma mão na frente e outra atrás, este cearense obstinado subiu igarapés, venceu distâncias a remo, deu duro na coleta da borracha, ganhou cem contos de réis e doze malárias que curou a base de quinino. Saudade, porém, não se cura. Logo que pode ele tomou um Ita e regressou à terra árida que lhe viu nascer; e morreu de velhice aos cinquenta e oito anos.
*. esboço feito após um papo rápido, porém gratificante, que tive com o célebre escritor manauara Milton Hatoum.
566. o bom entendedor (miniconto)
“Carpen Dien”, concedeu pleno de erudição o sábio e célebre escritor Francês ao seu humilde serviçal Congolês que lhe pedira um dia de folga. O serviçal agradeceu com uma mesura e foi pescar Carpas no pavilhão japonês.
23 abril, 2010
562. koan (miniconto)
À mesa, o venerável Mestre Zen japonês Hakuin Ekaku perguntou ao mais néscio dos seus discipulos, Aguri Fumikazu, que fora encarregado aquele dia de servir as refeições no templo:
"Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?"
Aguri Fumikazu olhou para suas próprias mãos como se as visse pela primeira vez e não pode evitar o desconcerto. Sentiu que lhe dava um nó na cabeça. Como não sabia a resposta, manteve-se em respeitoso silêncio. Calado admitia a sua ignorância.
Ao servir a tigela com arroz fumegante, porém, o humilde discípulo entregou ao mestre, talvez por descuido, apenas um hachi.*
O mestre curvou-se numa reverência e recolheu-se ao pátio onde costumava meditar. A lua cheia só viria no dia seguinte, mas mesmo assim ele adiantou-se: começou no mesmo instante o seu jejum.
"Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?"
Aguri Fumikazu olhou para suas próprias mãos como se as visse pela primeira vez e não pode evitar o desconcerto. Sentiu que lhe dava um nó na cabeça. Como não sabia a resposta, manteve-se em respeitoso silêncio. Calado admitia a sua ignorância.
Ao servir a tigela com arroz fumegante, porém, o humilde discípulo entregou ao mestre, talvez por descuido, apenas um hachi.*
O mestre curvou-se numa reverência e recolheu-se ao pátio onde costumava meditar. A lua cheia só viria no dia seguinte, mas mesmo assim ele adiantou-se: começou no mesmo instante o seu jejum.
*. palitos japoneses
12 abril, 2010
III Encontro Prática de Escrita

Estive lá. Foi no meu velho bairro, cercado de reminiscências (entre o velho colégio Roosevelt da minha adolescência e o cursinho Anglo por onde também passei). A Liberdade a degradar-se e me agradar. Sempre. Trilhei estas ruas todas no automático movido pelos álcoois e pelas paixões.
Do encontro, o prazer de aprender. De conhecer pessoas. De rever outras que já guardo aqui, no peito.
Agradeço em particular ao Claudio Brites, da Editora Terracota, que acredita sempre, agita e anima o meio; ao Nelson de Oliveira pelo seu entusiasmo e generosidade; ao Sergio Couto pelas dicas no gênero onde apenas engatinho; ao palestrante Milton Hatoum, por compartilhar sua experiência de vida e de autor.
01 abril, 2010
25 março, 2010
557. purgante
Sua avó se aproxima com a colher de chá apontando na sua direção e ele recua aterrorizado como se visse naquela mão engelhada e trêmula um punhal.
- olha o aviãozinho! – ela sorri diabolicamente. E enfia-lhe o purgante garganta abaixo.
- olha o aviãozinho! – ela sorri diabolicamente. E enfia-lhe o purgante garganta abaixo.
Ele tenta bravamente resistir e acaba se engasgando e acordando em estado de pânico, com acessos incontroláveis de tosse.
Recomposto, com alívio lembra-se de que a avó estava morta e enterrada. E que aquele pesadelo provavelmente deve-se aqule trauma de infância.
24 março, 2010
554. Dignidade
É humilhante para um policial como eu ver espalhados por aí esse monte de cartazes de Procurado como se eu fosse um delinquente, um fora da lei. Não fiz nada para merecer isso. Apenas não conseguia mais viver naquela casa, com aquela gente insuportável. Ia acabar agredindo um deles. Porra, eu mereço mais respeito, consideração. Sou um cachorro, mas tenho cá minha dignidade.
552. Concupiscencia de la carne
No deseaba la mujer del prójimo. Ni la suya.
* tradução: não desejava a mulher do próximo. Nem a sua.
551. o mestre
Lá fora sentia o verbo preso, contido. Cá dentro, recluso, encarcerado, é mestre de aforismos.
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