01 agosto, 2011

646. o rejeitado (miniconto)

As pesquisas eleitorais davam como certo que a sua rejeição atingia pela primeira vez o nível mais alto. Protestou. Acusou os institutos de manipulação dos dados. Pois sabia-se amado, reverenciado pelo povo, endeusado pelas massas. À noite, retornando ao aconchego do lar, seu filho, concentrado no videogame, sequer deu pela sua presença. Na cama, sua mulher alegou uma súbita dor de cabeça, virou de lado e dormiu. Há alguém nesta casa que ainda se importa comigo?, perguntou-se. O cão! Lembrou. Sim, o fiel amigo canino de todas as horas, o que não se vendia, não fazia acordos escusos, nem seguia tendências. Onde estava este bendito ser que desinteressado sempre o esperava à porta, contente, a lhe fazer festas? Teria aproveitado que a porta estava aberta e escapado para a rua? (era, como ele próprio, um amante e defensor fervoroso da liberdade). Estaria enfermo? Alguém o teria raptado?

Como resposta aos seus questionamentos ouviu um ganido aflito e correu até quintal. Ali constatou por que o pobre cãozinho não pudera ir ao seu encontro: o animal tinha o rabo preso.

645. um sinal (miniconto)

Na tarde chuvosa em que pediria sua noiva em casamento, um arco-íris cruzou seu caminho e fez com que mudasse de ideia. Místico, considerou como sendo um “sinal” para que assumisse o que realmente era.

644. haicai n.99

vento vespertino
vaga pela rua - cão vadio?
um saco plástico

643. haicai n.98

equilibro seixos
um sobre o outro
faço um pedido

642. haicai n.97

Terreno baldio
Perseguindo lagartixas
Um cachorro vadio

641. haicai n.96

Vazante do açude
Canas que ao vento ondeiam
Lembrança me acude

640. haicai n.95

Aos olhos boêmios
Cabem guardar o segredo
Desta lua insone.

639. haicai n.94

Eita porra!
Tanto preá dando mole
E eu sem gangorra.

04 julho, 2011

Seleção Final de VII Demônios - Avareza




De antologia em antologia vou pegando o jeito. Meu conto Os Doze Apóstolos foi um dos classificados pela Antologia Demônios VII da Editora Estronho. Farão-me companhia nessa empreita Erivelton Clarindo Gomes (O tesouro do Mão Furada), Fábio D´Oliveira (Pérfido), Felipe Castilho (O dono da rua), Ghad Arddhu (Segredos sob a Égide de Mercúrio), Lemos Milani (A maleta preta), Luciano Milici (Academia inferno), Raphael Montes (O porquinho de porcelana da vovó), Rodolfo Santos (É tudo meu), Thiago Vieira (Sua Bethânia), Valentina Silva Ferreira (Águas malditas), ViviFerr (Carmen) e Zé Wellington (O trágico destino do colecionador de riquezas)

Parabéns a Todos!

21 junho, 2011

638. miniconto (debut) 8

Como, senhora? Não, não sou avô de nenhumas delas. Claro, com esta idade bem que poderia ser. Vontade de botá-las no colo não me falta.

637. miniconto (debut) 6

Debutava. Os olhares pegajosos dos velhos buscando no seu corpo a poção que os rejuvenesceria. Eles tinham dinheiro e sabiam negociar.

636. miniconto (debut) 5

O baile inteiro ela nos braços de outro. A flecha negra do ciúme na aljava do cupido é metáfora. Arma branca é o que ele portava.

635. miniconto (debut) 4

Frente ao espelho, fez a prova. Estava deslumbrante e triste. Não seria Ele que iria debutar dentro do vestido no baile daquela noite.

634. miniconto (debut) 3

Rita invadiu histérica o Social Clube, e tentou agredir uma das debutantes. “Devolve o meu homem, rameira!”, acusava a viúva.

633. miniconto (debut) 2

A fotografia oval de louça, dela aos quinze. A última que tirou antes que o tifo a vitimasse. Dizem que obra milagres. Nem um milagre a salvou.

632. miniconto (debut) 1

Dá-me o prazer? – aproximou-se o cavalheiro. Ela sorriu e deixou-se conduzir. O prazer, no entanto, seria todo dela, a Predadora.

16 junho, 2011

631. Outro Conto Hindi


O arqueiro Arjeder foi posto à prova por seu mestre e colocado em um cova de tigres de bengala. A consultar sua aljava viu que todas as flechas estavam ali, mas surpreendeu-se ao ver que a corda do seu arco estava arrebentada. Crente de que não teria chance, o guerreiro maldisse mil vezes o seu mestre. Mas quando as feras apareceram, ele percebeu que eram apenas filhotes não maiores que um gato doméstico e bendisse também mil vezes os seu mestre.Mais tarde o mestre veio ter com ele e lhe disse:

"O tigre às vezes é do tamanho de um gato; assim como o medo de um homem às vezes a o torna menor que um rato."

630. Um Conto Hindi

Narjandi, o sábio, subiu a montanha Layaheema e por doze anos jejuou purificando o corpo e alma. Ao descer o venerável distraiu-se e pisou na bosta de um Yaqui.


"Puta-que-pariu!", xingou irritado.


O eco daquele palavrão, para o pasmo dos alpinistas estrangeiros cuja presença é cada vez mais frequentes naquelas paragens, ainda reverbera nas encostas geladas da montanha.

3º concurso de minicontos do Estronho



Saiu o resultado do 3º concurso de minicontos do Estronho. O tema foi "Baile de Debutantes", já que o Estronho e Esquésito completa 15 anos em setembro de 2011. Foram duas categorias! Miniconto e Nanoconto!


Emplaquei tres nanocontos, confiram no link abaixo.


629. Dois minicontos budistas

I-

Um mestre zen peregrinou a sua vida inteira por muitos países. Buscava o equilíbrio. No fim da vida encontrou um abismo, mas se esquecera de tecer a corda.

II-

Um camponês, homem simples, a conselho de um monge saiu em busca do equilibrio. Não o achando voltou a ter com o monge que lhe deu uma corda. Dias depois o campones foi encontrado morto: enforcado.

628. hai kai n.93

Lobo solitário
Velho samurai safado
Espreita as Netchans.

627. hai kai n.92

diga que me ama
Se não transforme em kirigami
este telegrama.

626. Pasárgada, a Outra

Vou me embora de Pasárgada


A República triunfou


As mulheres não me queremA minha cama quebrou.


Vou-me embora de PasárgadaEscaparei por um triz


Da turba que não me atura


Caio fora, sigo em frente


Que Joana, safada, me estranha


Diz que me ama mas mente.


Já empregou seus parentes


Chance que eu jamais tive.


Na fuga farei um cooper


Roubarei uma bicicleta


Não mais burro nem mais brabo


Liso como pau-de-sebo


Tomarei banhos de gato


E quando estiver bem longe


Em São Paulo ou no Rio


Bebo, viro um pau-d'água


E dano a contar histórias


Que no tempo das vacas-gordas


Eu costumava inventar.


Vou-me embora de Pasárgada


Em Pasárgada não tem nada


Fim de civilização


Tenho um processo nas costas


Movido por Conceição


Meu celular não funciona


A Lei Seca me esturrica


As putas beijam na boca


Tenho pena de quem fica.

31 maio, 2011

625. hai kai n.91

Biguá abre os braços
Rende-se - e mesmo assim
Caçador faz fogo.

27 maio, 2011

626. culpa

Ele sempre fez isso (mijar fora do vaso), disse vovó. Agora é que deu para por a culpa em um tal de Parkinson.

625. tocaia (miniconto)

Ao preservar a floresta latifoliada, mal sabia que dali partiriam os tiros covardes que selariam o seu destino.

624. hai kai n.90

O tempo virou
Apressa o passo a saúva
Abro o guarda-chuva

623. hai kai n.89

Aquela miragem
no meu deserto interior
está só de passagem.

622. hai kai n.88

Chuva de outono
Folhas secas de momiji
Entopem a calha

621. hai cai n.87

Sapinho guloso
Ao engolir pirilampos
Pisca luminoso.

620. hai kai n.86

Nesta plataforma
Enquanto o meu trem não chega
Descarrilo um sonho

619. hai kai n.86

Atrás do biombo
Vejo uma moça nuinha
Cinema de sombras.

Historia Fantástica do Brasil



História Fantástica do Brasil - Inconfidência.



Estarei presente nesta nova antologia da Editora Estronho com o conto "Antevisões do Destino de Um Heroi da Inconfidência"



Aguardem!

24 março, 2011

618. hai kai n.84

Para amor bandido
Pistola sete-meia-cinco
Na mão do Cupido

617. hai kai n.83

Tremores frequentes
Temores constantes - cismo
Sísmicos rompantes

Namida (lágrima)




11 março, 2011

616. hai kai n.82

Cruzo o viaduto
Recitando o velho mantra
Pronto para o dia

615. hai kai n.81

Finda a tempestade
Deixo o abrigo da igreja
De alma lavada

614. hai kai n.80

Trovões ribombeiam
Como salvas de canhões
Cachorro se esconde

613. hai kai n.79

Na barra do rio
Ali encontram-se duas águas
E a lua nuinha

612. hai kai n.78

Sofri por amor
Quem não sofreu que atire
A primeira flor

611. hai kai n.77

Passa a tempestade
Destas árvores tombadas
Antigas vontades.

610. hai kai n.76

Chuva de granizo
O som que me dá na telha
É raro improviso

609. hai kai n.75

Todos meus segredos
Se revelam assim frágeis
Nos teus dedos ágeis

PROCURADO


11 fevereiro, 2011

608. passarela

Flor de favela, beleza esguia e exótica moldada pela fome, Iracema sonhava com a passarela. Não passou despercebida aos olhos experientes de um selecionador. Na pressa e na ansiedade de comparecer à agencia de modelos em que faria o teste redentor, atravessou a avenida aquela manhã sem olhar para os lados e foi colhida por um automóvel em alta velocidade. Na grama rala do canteiro central, enquanto esperava o socorro da ambulância pública que não chegaria a tempo, mal respirava e ainda sonhava: Via-se em passos de ave pernalta, exuberante num modelito de griffe, a desfilar na velha passarela de concreto que metros acima seccionava o céu fuliginoso da cidade.

A revista eletrônica de Literatura O Bule (http://www.o-bule.com/) está com um Especial em que apresenta o melhor em narrativas curtas. Wilson Gorj, Felipe Valério, Angela Schnoor, Hélverton Baiano, Ana Mello, Tiago Moralles, Raphael Gancz e este que aqui vos escreve, estamos colaborando com micronarrativas, nanocontos, brevidades. Confiram.

20 janeiro, 2011

CURSED CITY

Ay caramba! Comemoro. Dou tiros a esmo. Já matei três tristes abutres. Motivo: meu conto "Duas Lendas" vingou e é um dos classificados em concurso organizado pela Editora Estronho, do escritor/editor M.D. Amado.


Os relatos se passam neste pedaço esquecido do inferno chamdo Cursed City (Cidade Amaldiçoada)





Estou mal acompanhado. Do meu bando fazem parte os celerados: André Bozzetto Jr. , Alfer Medeiros, Alliah, Ana Cristina Rodrigues, Carolina Mancini , Cirilo S. Lemos, Davi M. Gonzales, , Georgette Silen, Jota Marques, Lucas Rocha , M. D. Amado, Marcel Breton, Romeu Martins, Tânia Souza, Valentina Silva Ferreira, Verônica Freitas, Yvis Tomazini e Zenon.




Breve teremos o lançamento, Carajo!!

Chico Pascoal

14 janeiro, 2011

607. o preso político

O senhor R. Olivares tinha um sestro feio: de cinco em cinco segundos coçava discretamente o saco escrotal. Isso quando trabalhava na Secretária de Assunto Restritos e Confidenciais e podia fazê-lo tranquilamente sob o tampo da mesa de cedro em que elaborava relatórios diários e planilhas Excel que abasteciam os diversos órgãos e sub-órgãos da Administração Pública. Fora dali usava sempre, mesmo em dias abafados, um largo sobretudo com bolsos vazados através dos quais podia se coçar sem o risco do constrangimento.

Quando informações sigilosas vazaram causando prejuízos irreparáveis ao Estado, a polícia política o levou preso como suspeito. De mãos atadas, o senhor Olivares foi tomado por incontrolável desespero. Em cinco minutos, tempo em que durou sua resistência psicológica, deu com a língua nos dentes e confessou tudo, embora não tivesse culpa alguma.

Passou anos encarcerado. Tiraram sua liberdade, mas não completamente. As mãos continuavam livres .

606. cantiga de roda

Terezinha de Jesus, levou uma queda e foi ao chão... Esta era a versão do marido para as escoriações e hematomas no corpo da amásia. Não, jurou, não agrediria jamais a mãe dos seus filhos.
"Qual delas?", quis saber a delegada. "Seja mais específico, senhor Bernabéu!"

605. intempéries

Choveu em três horas o que era esperado para o mês inteiro. Choveu durante o mês o que era esperado para o ano inteiro. E não foi mais que uma garoa fina, que mal umedeceu a face áspera do velho beduíno.

10 janeiro, 2011

NO CRONÓPIOS...


Êba! Presente de Ano Novo: um poema meu publicado pelo conceituado site de literatura Cronópios http://www.cronopios.com.br/

Confiram!


30 novembro, 2010

604. hai cai n. 74

Saquê em excesso
No restaurante Mitsuzu
Onde o meu sapato?

603. hai cai n. 73

Sinal fechado
Vendedora de caqui
Toda faceira

602. hai cai n. 71

Gavião de penacho
Desafia o pintinho:
Desce, se for macho!

601. hai kai n.70

Guarde sigilo
pediu a cigarra ingênua
ao camarada grilo

600. hai kai n.69

Casamento hippie
Sobre os noivos uma salva
De arroz integral

599. hai kai n.68

Com o rei de Liliput
Tamanho e documento
Ninguém discute

598. hai kai n.67

Triste despedida
Que fazer com esta carta?
Outro origami?

597. hai kai n.66

Uiva para a lua
O lobisomem idoso
Reumatismo crônico

596. hai kai n.65

Terminada a feira
Menininha Guarani
Recolhe o jantar

595. acerto

Agora eram só os dois. O prato para se comer frio e as facas. O ofendido sabia do gosto do ofensor e que um dia o paladar o trairia. Morreria como o peixe que ali era servido: pela boca.

594. mistura

Eram os tempos difíceis do pós-guerra. Antes da mãe servir a rala sopa de lentilhas ele disse: Vou buscar alguma mistura. Saiu. E voltou anos só depois conduzindo pela mão um garotinho que era a cara dele, mas com a pele de uma cor que contrastava com o que ainda restava da família. Do porta-retratos o velho pai, garboso em seu uniforme da Gestapo, o fuzilava com o olhar; como se ele pertencesse a uma daquelas tribos de Davi.

29 outubro, 2010

593. o homem centenário

O sonho é mais ou menos assim: voce chega exausto do trabalho ao apartamento ou à casa aonde mora, abre a porta e, na penumbra da sala... Surpresa! Sobre a mesa há bebidas, salgados e um belíssimo bolo de creme e confeitos de chocolate (como voce gosta) com uma velinha solitária de número 100 acesa e fincada bem no meio.
Ei, voce diz, Onde está todo mundo? Não há resposta. E voce pensa que seus amigos estão lhe aprontando alguma, mas espera que surjam de repente das sombras e cantem parabéns pra voce e o abracem, e o beijem, e o cumprimentem por mais um aniversário. Mas ninguém dá as caras.
Até que a vela se consuma, você vai perceber que eles já se foram há muito tempo.

14 outubro, 2010

592. hai kai n.64

Cá dentro de mim
O vazio é só pretexto
Para que me ocupes

591. hai kai n.63

Lua na sarjeta
A moeda que o poeta
Deu de gorjeta

590. hai kai .62

Barulhinho de chuva
Me encolho todo na cama
Esticando o sonho

589. Biawak Raksasa (Dragão-de-Komodo)

Da desafortunada fotógrafa alemã Bertha Von Weingast, da National Geographic, encontraram apenas a câmera Nikon D3X de 24,5 megapixels, os óculos de sol da grife italiana Dolce&Gabbana, e um livro do escritor Hondurenho Augusto Monterroso. O "dinossauro indonésio", principal suspeito de a ter devorado, já não estava lá.

13 outubro, 2010

Notícia boa em meio à enxurrada de Spams degradantes de uma campanha eleitoral de baixo nível:


Acabo de ser informado que o meu conto "Licantropo", foi o vencedor do concurso Minicontos Lupinos, organizado pelo escritor Alfer Medeiros, autor do livro Fúria Lupina .

Valeu!!!


http://towerofreading.blogspot.com/2010/10/encerrado-concurso-furia-lupina.html#more

08 outubro, 2010

588. agosto

“Agosto, desgosto”, pensou. A rima e o provérbio popular não ajudavam nem suavizavam em nada a sua situação. Pelo contrário. Decidiu então que contaria aos pais em Setembro. Pelo menos fugiria do lugar-comum e podia até calhar deles perceberem sua barriguinha de três meses, protuberante.

587. meio de vida

Dentro do trem vendo indulgências. É o meu meio de vida. Podia estar roubando, matando, me prostituindo... mas tenho quatro vícios pequenos para alimentar. E a virtude de ser um bom pai.

586. consciência ecológica (Homo-Pet)

Ao virar os quarenta, a rotina de procurar emprego para ele tornara-se uma espécie de tortura. “O senhor precisa se reciclar “, diziam ao descartá-lo. E ele não tinha como não se sentir um lixo.

585. tropa de elite

Subiram o morro dispostos a tudo. Missão: acabar com o inimigo, dizimá-lo. Aquele ano, garantiam, a dengue não ira se mostrar tão letal.

23 setembro, 2010

584. o cobrador (a Ruben Fonseca)

Foi lá chamou para si a responsabilidade. Estava confiante e, para convencer seus dez companheiros e o treinador de que era o mais preparado para fazê-lo, usou do argumento de que nunca havia desperdiçado uma penalidade máxima. Só não revelou, mesmo porque ninguém lhe perguntou, que jamais havia cobrado um pênalti antes.

583. hai cai n.61

Cores de setembro
Tingem olhos desbotados
Outra primavera

582. hai kai n.60

Dentro da armadura
Apenas um sonho antigo
De triste figura

16 setembro, 2010

581. dores & amores

Tia Zulmira morreu solteirona. Amou uma vez na sua vida (um carteiro) e não foi correspondida.

580. da arte de coçar

Aposentado, passava o dia à toa. A mulher chegava do trabalho e fazia sempre a mesma pergunta (que é que você fez hoje, bem?) para a qual ele dava sempre a mesma resposta: o dia inteiro coçando, fazer o que? Atrás da própria orelha, ela percebeu, havia muito mais que o aparelho bege para a surdez. Trair e coçar é natural dos desocupados. Coçar o safado já coçava.

06 setembro, 2010

FANTASTICON 2010


Estive no Fantasticon 2010 organizado pelo Silvio Alexandre revendo amigos, travando novas amizades, me interando das novidades da Literatura Fantástica. Fui prestigiar o Claudio Brites pelo seu romance ( a oito mãos) recém-lançado “A Tríade” e levar-lhe o meu abraço que estendi ao Nelson (Luis Brás) de Oliveira, ao sempre gentil Roberto Causo, ao Brontps Baruq, ao Mustafá Ali Kanso com quem primeiro dei de cara no evento, com o Ramiro Giroldo, e o meu amigo de Catanduva o sempre simpático Sid Castro.

Lá estavam também Ricardo Delfim, Larissa Caruso e Claudio Parreira (que conheci pessoalmente ao pedir um autógrafo do Portal 21) e o roteirista Alex Mir. O evento foi de uma efervescência tal que me senti meio perdidão no espaço entre os presentes.

Mas valeu. Ano que vem quero estar lá.

579. urbanodramas I


Tarde quente. 42 graus. Sol incinerador sobre São Paulo, o asfalto é uma chapa escura de lanchonete. O trânsito vilão assume sádico todas as culpas. O acidente – mais um- logo ali, próximo a alça de acesso ao Rodoanel. O caminhão com a placa de Bastos* tombou interditando a pista e a notícia correu rápida que nem fogo em favela:“Sal! Não esqueçam de levar sal! Temos o maior omelete do mundo!”


*.Cidade paulista conhecida como A Capital do Ovo

578. dos traumas da infância

As novas tecnologias eram para ele um verdadeiro tormento. De informática, por exemplo, aprendera apenas o comando COPIAR; quanto ao seu natural complementar, o COLAR, permanecia reticente. Isso ocorria talvez porque a figura severa do pai obrigando-o a estudar embaixo de ameaça lhe fosse recorrente. Parecia ouvi-lo vociferando: Se souber que você andou colando, moleque, eu te mato!

577. aragem

Problemas de ordem diversa o afligiam. Disse que ia sair para areja a cabeça. Encontraram-no com um furo na testa.

20 agosto, 2010

576. um conto policial ainda sem título

Naquele mundo às avessas, pensava o Sargento Cordeiro, nada mais o haveria de surpreender. E de repente - fogo no cerrado - o boato de que a mulher o corneava. “Tá cheirando a chifre queimado”, chacoteavam-no com crueldade, apontando-o pelas costas. Antes tivesse levado um tiro, pensou.

Educado, fino trato, manso como o animal que lhe dava o sobrenome, diziam, melhor que estivesse no serviço burocrático, no serviço de relações publicas da PM. Quem podia imaginá-lo em uma situação de risco?

Com a arma da corporação entendia não podia fazer os dois. Usaria a outra, com a numeração raspada, apreendida em diligência. Mamão com açúcar. Esperou. Para não agir ao sabor da emoção. Ocupou a cabeça em fazer simulações. Elaborava minuciosamente, escrevia e reescrevia mentalmente o roteiro. Na juventude, benditos arroubos, cometera alguns curtas em super 8. O sonho de tornar-se diretor de cinema todavia ficara para atrás. Virou mesmo foi policial, personagem de um filme violento e repetitivo.

Matou-os. Numa sexta-feira de Agosto em um Motel na saída da cidade. A cena do crime – as vítimas nuas sobre a cama redonda tingida de vermelho e refletidas no espelho do teto - fotografada pelo perito, por si só indicava que o amante assassinara a sua esposa e em seguida cometera suicídio.

Principal suspeito, o sargento Cordeiro tinha um álibi. Testemunhas e câmeras de circuito fechado do bar onde passara a noite do crime bebendo jogavam a seu favor. Estranho era que até então ele sempre havia se definido como abstêmio. Quando o perguntaram, disse que se decidira a tomar uns tragos para ver se afogava toda sua mágoa.

Um ano depois, calmas as águas, e com o pretexto de realizar o velho sonho de estudar Cinema pediu baixa e mudou-se para a Capital. Não disse pois ninguém precisava saber, mas ia morar justamente com o seu irmão gêmeo com quem nos momentos difíceis, sabia, sempre podia contar.

575. confissão

Matei-a sim. Mas foi por amor, juro! Por ódio jamais o faria. Se assim o fizesse, matasse por ódio, seria um assassino serial; pois odeio tudo e a todos. Só a ela amei. Minha mãezinha.

574. o trem de Ibiapaba


O “Trem Horário”, que eu me lembre, compadre, nunca se atrasava. O tempo naquele tempo é que vivia sempre avexado. Acho que pra mode nos envelhecer.

16 agosto, 2010



Em breve vai sair um E-book Minimos Contos, resultado do Concurso promovido pelo Simpósio Internacional de Contadores de Histórias. Entre os 33 selecionados tem um continho meu. Confiram.

http://www.simposiodecontadores.com.br/

573. hai kai n.59

No espelho do lago
O salgueiro -chorão penteia
Suas madeixas

572. hai kai n.58

Panapaná
Borboletas mil enfeitam
Meu chapéu panamá

23 junho, 2010

571. desconfianças

Só muitos anos depois dele morto – de desgosto – é que as suas feições começaram a tomar forma na face filho que sempre renegara.

Lançamento do livro/cd/ filme H2Horas na Casa das Rosas. Pipol, editor do site de Literatura Cronópios, minha filha Julia, e eu.

04 junho, 2010

570. hai kai n. 57

Entornado o Veronal
O morto – com cabelos
Transpõe o portal.

(Ao escritor japonês Akutagawa)

569. Apócrifo Cearense

Esaú – morador do Ipu
- Está lá, nas escrituras -
Cedeu sua primogenitura
Ao seu meio-irmão Jacó
Que era natural do Icó
Por um pedaço de rapadura.

*. Ao escritor conterrâneo Ronaldo Correia de Brito, autor dos livros: Galiléia, e O Livro dos Homens.

DULCINÉIA CATADORA - H2Horas


Dia 1 de junho, noite fria em Sampa. Casa das Rosas. Lá estive para o lançamento do H2Horas do Cronópios em parceria com o Coletivo Dulcinéia Catadora. Contos mínimos, fragmentos, poemas curtíssimos. Dei a minha pequena contibuição (um microconto lá na página 13). E tive o prazer de conhecer pessoas interessantetes como o Pipol (editor do Cronópios), Milton Felipetti (locutor do video H2Horas), o poeta e escritor Silas Correia Leite, o poeta Nestor Isejima Lampros e a artista plástica Lúcia Rosa, curadora do coletivo que já publicou autores como Marcelino Freire, Wilson Bueno, Xico Sá e Alice Ruiz entre outros.



Levei meu exemplar, é claro, e a escolha foi da minha filha, Julia.

31 maio, 2010

568. rimas

Clarisse sonhava em ser Miss
Ernesto queria ser honesto
Luis? Apenas ser feliz.

Raimundo – o estraga-prazeres –
Disse com todas as letras, hieróglifos e ideogramas
Parafraseando Carlos
Um gauche lá das Gerais:

Rima não é solução. Tirem o cavalinho da chuva.

Dito e feito:

Clarisse engordou cem quilos
Ernesto entrou pra política
Luis? Que é de Luis?

Dizem que caiu no mundo
Depois que Felicidade
Que não entrava na estória
Foi embora na garupa do cavalo de Raimundo.

03 maio, 2010

567. Francisco, meu avô.

Meu avô paterno, também Francisco como seu pai e meu pai e o filho que ainda não tive, quando moço, esteve na Amazônia. A cara e a coragem, uma mão na frente e outra atrás, este cearense obstinado subiu igarapés, venceu distâncias a remo, deu duro na coleta da borracha, ganhou cem contos de réis e doze malárias que curou a base de quinino. Saudade, porém, não se cura. Logo que pode ele tomou um Ita e regressou à terra árida que lhe viu nascer; e morreu de velhice aos cinquenta e oito anos.
*. esboço feito após um papo rápido, porém gratificante, que tive com o célebre escritor manauara Milton Hatoum.

566. o bom entendedor (miniconto)

“Carpen Dien”, concedeu pleno de erudição o sábio e célebre escritor Francês ao seu humilde serviçal Congolês que lhe pedira um dia de folga. O serviçal agradeceu com uma mesura e foi pescar Carpas no pavilhão japonês.

23 abril, 2010

565. hai kai n.56

Tão magrela, tão esbelta
Como cê faz, ó menina?
"Corro", diz a bicicleta

564. hai kai n.55

Faziam amor na rede
Nossos avós Cariris
Sítios de relacionamento.

563. hai kai n.54

Vaso de porcelana rara
Da dinastia Ming
Penico do Mandarim

562. koan (miniconto)

À mesa, o venerável Mestre Zen japonês Hakuin Ekaku perguntou ao mais néscio dos seus discipulos, Aguri Fumikazu, que fora encarregado aquele dia de servir as refeições no templo:

"Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?"

Aguri Fumikazu olhou para suas próprias mãos como se as visse pela primeira vez e não pode evitar o desconcerto. Sentiu que lhe dava um nó na cabeça. Como não sabia a resposta, manteve-se em respeitoso silêncio. Calado admitia a sua ignorância.

Ao servir a tigela com arroz fumegante, porém, o humilde discípulo entregou ao mestre, talvez por descuido, apenas um hachi.*

O mestre curvou-se numa reverência e recolheu-se ao pátio onde costumava meditar. A lua cheia só viria no dia seguinte, mas mesmo assim ele adiantou-se: começou no mesmo instante o seu jejum.
*. palitos japoneses