16 setembro, 2008

336. Elvis

Antes de morrer, Adalberto, o taxista, chamou a esposa e confidenciou-lhe um último segredo:

“ Elvis não morreu”

“Grande novidade”, ela disse.
“Esperava que me contasse que me traía com a Cida Cabeleireira, aquela vaca”

Ele riu e tossiu e pediu calma – a voz era um fio. Nem sombra do vozeirão que jurava ter tido.

“Você não bota fé, não é? Mas eu posso provar”

“Provar o que?”

“Que Elvis não morreu, ora!”

“Está bem, homem. Vá lá, prove”

Adalberto fez uma pausa e revelou-lhe:

“Eu sou Elvis, Marilda. Elvis Aaron Presley”


Marilda não queria acreditar mas rendeu-se quando ele lembrou-a de como, com aquele peso todo, conseguia fazer o diabo com os quadris. E e de como quando, no meio da noite, sonâmbulo, costumava se expressar em inglês fluente com sotaque do Tennesee, assustando-a .

Como veio parar em Santo Inácio do Pinhal, no entanto, nem ele próprio conseguia explicar; já que por aquele tempo, admitia, as drogas pesadas é que estavam no comando dos seus atos.

Diante dos olhos mareados da esposa, ele finalmente entregou os pontos. Descansou. E ela,como sempre fazia, às vezes por pirraça, e para não perder o costume, contrariou-o:

“Você estava errado, Adalberto. Totalmente equivocado. Elvis está morto, sim. Mortinho da Silva”

27 agosto, 2008

335. hai kai n.7

de cabeça para baixo
o morcego soletra
inscrições rupestres

334. hai kai n.6

sapinho degusta
um mosquito da dengue
seu dia de herói.

333. hai kai n.5

sem encontrar resistência
o sal da maresia
corrói a vontade dos canhões.

332. hai kai n.4

o bambuzal vibra
ao sabor do vento
e desorienta os morcegos.

331. hai kai n.3

estendido ao pé do ipê
o tapete de flores
recebe com honras o mendigo.

330. hai kai n.2

sombra no muro de arrimo
pantera ?
um gato - seu primo

329. hai-kai n.1

gaijin se esforça
capricha na letra
kanji invertido

328. as pernas do general

Por vinte e cinco anos e cinco dias as pernas compridas do general Tiburcio marcharam inseparáveis, na mesma disciplinada cadência. A esquerda, destemida como o dono à época, cedo o deixou a coxear: descuidada pisou numa mina anti-pessoal, se estraçalhou toda e virou lenda; já a segunda perna, cautelosa mas na definição de alguns covarde, decerto traumatizada pelo destino trágico de sua incauta irmã, não justificava a parte da calça que lhe cabia. Dedicou sua existencia ao amparo do dono. Desnecessario dizer que envelheceu com ele e sustentou resignada sua débil carcassa. Foi enterrada com ele com honras de heroi no mausoléu dos veteranos.

14 maio, 2008

327. reconstituição

aquele perito era um bom profissional mas exageradamente perfecionista. fato é que na reconstituição do crime o assassino, primário, acabou por tornar-se reincidente.

326. obra-prima

sexo masculino, vinte e quatro anos, classe média, condenado a três anos por falsificação (falsidade ideológica). o curso superior, porém, lhe dá direito a cela especial (o diploma da USP em letras góticas, orgulha-se, é sem dúvida o seu melhor trabalho).

12 maio, 2008

325. superpoder

o menininho rezava toda as noites pedindo que lhe fosse concedido pelo menos um dos poderes do super-homem. cresceu, desiludiu-se: virou prático de raio-x em um hospital público.
1º lugar no Concurso de Microcontos do site Papo de Quadrinhos (Abril/2009) http://papodequadrinho.blogspot.com/

324. cara e coragem

contava com exacerbado orgulho e à guisa de exortar os filhos à luta que viera e vencera com a cara e a coragem. não tinha coragem porém de confessar que mudava de cara sempre que os fins, por pérfidos que fossem, o justificassem.

323. a espiã de mil faces

capturada a agente do serviço secreto do vaticano, o inimigo não perdeu a chance de esbofeteá-la. e ela, fiel aos seus principios cristãos, como era de se esperar ofereceu-lhe a outra face, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra...

02 abril, 2008

322. o pequeno deus

faça-se a luz, ordenou prepotente como sempre o pequeno deus. sua voz de trovão de sonoplasta de radio-novela ecoou dentro da escuridão da casa, agrediu as paredes forradas por retratos antigos da familia, mas não surtiu o efeito esperado.
.
faça-se a luz! porra! repetiu irritado pressionando com força a verruga do interruptor que sabia onde se encontrava mesmo que estivesse de olhos fechados. e nadica de nada de luz .

desolado o mini-deus desabou sua obesidade sobre o sofá puído da sala cujo estofamento seu velho costumava torturar fincando sádico pontas de cigarro na esperança vã de arrancar-lhe confissões intimas de tempos imemoriais quando vivia a suspeitar que, sobre o maldito recheio de espuma, sua defunta mulher o traía com o açougueiro também já há décadas desencarnado.

daquele ponto à ínfima divindade foi concedido perceber que, na fina restia de claridade horizontal proveniente das lampadas de mercúrio que iluminavam a avenida lá fora e vazava a preencher a fresta, havia algo enfiado sob a porta que à sua passagem, minutos antes, talvez até tivesse pisado sem percebe-lo.

ergueu-se. movia-lhe agora uma curiosidade comum aqueles felinos dométicos que tanto detestava. foi até lá decidido, porém, até agachar-se para apanhar o envelope (era um envelope pardo, se pudesse ve-lo), viu dissipar-se como o fumo espesso das chaminés das velhas fábricas das imediações o ânimo de abri-lo. e se o tivesse feito descobriria sem surpresa que o velho decrépito torrara a grana que ele deixara para que pagasse as contas com cigarros, putas e uísque falsificado.

06 março, 2008

321. Uma Arma Quente (Tradução Livre)

HAPINESS IS A WARM GUN

John Lennon
(Tradução Livre de Francisco Pascoal Pinto)

Ela é não é aquele tipo da mina que perde tempo com conversa mole
Ela saca o lance e sabe como usar suas mãos delicadas
Como uma lagartixa que assente e bafeja o vidro polido e blindado.

O sujeito da 25 de março que vende espelhos e colar de contas para os índios usa coturnos velhos do seu tempo no 4o. BEC.*
Negaceia com o olhar enquanto faz um bico:
Suas mãos se ocupam em esculpir num sabonete de motel o corpo da mulher que já foi sua, que ele comeu e cedeu ao Patrimonio Histórico.

Preciso me garantir no arame, cara, que estou desabando
Caindo pedaço a pedaço ao longo da linha férrea que leva a Subúrbia
Preciso me garantir, senão eu danço.
Madre Superiora aperte o cano
Madre Superiora aponte o cano
Madre Superiora dispare o cano
Felicidade é uma arma quente
Felicidade é uma arma quente
Quando te abraço te espalmo não me protejo
Meu dedo roça e coça em teu gatilho
Não somos alvos, sei, ninguém vai nos atingir.

Porque a felicidade é uma arma quente.
Sim, sem dúvida é.
Ah, você não sabia, Mãe, que a Felicidade é uma arma quente?
Não?
*. 4o. BEC (Quarto Batalhão de Engenharia e Construção)

320. abissal

nunca sonhava pois sequer dormia. dedicava-se, como aconselhavam as escrituras, a orar e vigiar para não ser surpreendido.
uma noite, na escuridão liquida da fossa abissal em que custumava mergulhar, divisou um pequeno ponto de luz fosforescente e imaginou se não seria um daqueles seres esquisitos que só se encontram nas profundezas. não quis crer que sonhasse e esfregou os olhos uma, duas vezes. foi então que percebeu que estava sem o escafandro.

319. diálogo entre barras

- já há quantos anos aqui?
- quinze, quase dezesseis - respondeu o carcereiro.
- quando eu sair daqui pretendo escrever. e você?

318. aplicada

aplicada, riu enquanto passava a borracha em volta do braço para dilatar as veias. a avó costumava defini-la assim, com orgulho: uma menina aplicada.

317. festa

na festa dos descolados, eu deslocado.