Só muitos anos depois dele morto – de desgosto – é que as suas feições começaram a tomar forma na face filho que sempre renegara.
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
23 junho, 2010
04 junho, 2010
570. hai kai n. 57
Entornado o Veronal
O morto – com cabelos
Transpõe o portal.
(Ao escritor japonês Akutagawa)
O morto – com cabelos
Transpõe o portal.
(Ao escritor japonês Akutagawa)
569. Apócrifo Cearense
Esaú – morador do Ipu
- Está lá, nas escrituras -
Cedeu sua primogenitura
Ao seu meio-irmão Jacó
Que era natural do Icó
- Está lá, nas escrituras -
Cedeu sua primogenitura
Ao seu meio-irmão Jacó
Que era natural do Icó
Por um pedaço de rapadura.
*. Ao escritor conterrâneo Ronaldo Correia de Brito, autor dos livros: Galiléia, e O Livro dos Homens.
DULCINÉIA CATADORA - H2Horas

Dia 1 de junho, noite fria em Sampa. Casa das Rosas. Lá estive para o lançamento do H2Horas do Cronópios em parceria com o Coletivo Dulcinéia Catadora. Contos mínimos, fragmentos, poemas curtíssimos. Dei a minha pequena contibuição (um microconto lá na página 13). E tive o prazer de conhecer pessoas interessantetes como o Pipol (editor do Cronópios), Milton Felipetti (locutor do video H2Horas), o poeta e escritor Silas Correia Leite, o poeta Nestor Isejima Lampros e a artista plástica Lúcia Rosa, curadora do coletivo que já publicou autores como Marcelino Freire, Wilson Bueno, Xico Sá e Alice Ruiz entre outros.
Levei meu exemplar, é claro, e a escolha foi da minha filha, Julia.
31 maio, 2010
568. rimas
Clarisse sonhava em ser Miss
Ernesto queria ser honesto
Luis? Apenas ser feliz.
Raimundo – o estraga-prazeres –
Disse com todas as letras, hieróglifos e ideogramas
Parafraseando Carlos
Um gauche lá das Gerais:
Rima não é solução. Tirem o cavalinho da chuva.
Ernesto queria ser honesto
Luis? Apenas ser feliz.
Raimundo – o estraga-prazeres –
Disse com todas as letras, hieróglifos e ideogramas
Parafraseando Carlos
Um gauche lá das Gerais:
Rima não é solução. Tirem o cavalinho da chuva.
Dito e feito:
Clarisse engordou cem quilos
Ernesto entrou pra política
Luis? Que é de Luis?
Dizem que caiu no mundo
Depois que Felicidade
Que não entrava na estória
Foi embora na garupa do cavalo de Raimundo.
03 maio, 2010
567. Francisco, meu avô.
Meu avô paterno, também Francisco como seu pai e meu pai e o filho que ainda não tive, quando moço, esteve na Amazônia. A cara e a coragem, uma mão na frente e outra atrás, este cearense obstinado subiu igarapés, venceu distâncias a remo, deu duro na coleta da borracha, ganhou cem contos de réis e doze malárias que curou a base de quinino. Saudade, porém, não se cura. Logo que pode ele tomou um Ita e regressou à terra árida que lhe viu nascer; e morreu de velhice aos cinquenta e oito anos.
*. esboço feito após um papo rápido, porém gratificante, que tive com o célebre escritor manauara Milton Hatoum.
566. o bom entendedor (miniconto)
“Carpen Dien”, concedeu pleno de erudição o sábio e célebre escritor Francês ao seu humilde serviçal Congolês que lhe pedira um dia de folga. O serviçal agradeceu com uma mesura e foi pescar Carpas no pavilhão japonês.
23 abril, 2010
562. koan (miniconto)
À mesa, o venerável Mestre Zen japonês Hakuin Ekaku perguntou ao mais néscio dos seus discipulos, Aguri Fumikazu, que fora encarregado aquele dia de servir as refeições no templo:
"Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?"
Aguri Fumikazu olhou para suas próprias mãos como se as visse pela primeira vez e não pode evitar o desconcerto. Sentiu que lhe dava um nó na cabeça. Como não sabia a resposta, manteve-se em respeitoso silêncio. Calado admitia a sua ignorância.
Ao servir a tigela com arroz fumegante, porém, o humilde discípulo entregou ao mestre, talvez por descuido, apenas um hachi.*
O mestre curvou-se numa reverência e recolheu-se ao pátio onde costumava meditar. A lua cheia só viria no dia seguinte, mas mesmo assim ele adiantou-se: começou no mesmo instante o seu jejum.
"Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?"
Aguri Fumikazu olhou para suas próprias mãos como se as visse pela primeira vez e não pode evitar o desconcerto. Sentiu que lhe dava um nó na cabeça. Como não sabia a resposta, manteve-se em respeitoso silêncio. Calado admitia a sua ignorância.
Ao servir a tigela com arroz fumegante, porém, o humilde discípulo entregou ao mestre, talvez por descuido, apenas um hachi.*
O mestre curvou-se numa reverência e recolheu-se ao pátio onde costumava meditar. A lua cheia só viria no dia seguinte, mas mesmo assim ele adiantou-se: começou no mesmo instante o seu jejum.
*. palitos japoneses
12 abril, 2010
III Encontro Prática de Escrita

Estive lá. Foi no meu velho bairro, cercado de reminiscências (entre o velho colégio Roosevelt da minha adolescência e o cursinho Anglo por onde também passei). A Liberdade a degradar-se e me agradar. Sempre. Trilhei estas ruas todas no automático movido pelos álcoois e pelas paixões.
Do encontro, o prazer de aprender. De conhecer pessoas. De rever outras que já guardo aqui, no peito.
Agradeço em particular ao Claudio Brites, da Editora Terracota, que acredita sempre, agita e anima o meio; ao Nelson de Oliveira pelo seu entusiasmo e generosidade; ao Sergio Couto pelas dicas no gênero onde apenas engatinho; ao palestrante Milton Hatoum, por compartilhar sua experiência de vida e de autor.
01 abril, 2010
25 março, 2010
557. purgante
Sua avó se aproxima com a colher de chá apontando na sua direção e ele recua aterrorizado como se visse naquela mão engelhada e trêmula um punhal.
- olha o aviãozinho! – ela sorri diabolicamente. E enfia-lhe o purgante garganta abaixo.
- olha o aviãozinho! – ela sorri diabolicamente. E enfia-lhe o purgante garganta abaixo.
Ele tenta bravamente resistir e acaba se engasgando e acordando em estado de pânico, com acessos incontroláveis de tosse.
Recomposto, com alívio lembra-se de que a avó estava morta e enterrada. E que aquele pesadelo provavelmente deve-se aqule trauma de infância.
24 março, 2010
554. Dignidade
É humilhante para um policial como eu ver espalhados por aí esse monte de cartazes de Procurado como se eu fosse um delinquente, um fora da lei. Não fiz nada para merecer isso. Apenas não conseguia mais viver naquela casa, com aquela gente insuportável. Ia acabar agredindo um deles. Porra, eu mereço mais respeito, consideração. Sou um cachorro, mas tenho cá minha dignidade.
552. Concupiscencia de la carne
No deseaba la mujer del prójimo. Ni la suya.
* tradução: não desejava a mulher do próximo. Nem a sua.
551. o mestre
Lá fora sentia o verbo preso, contido. Cá dentro, recluso, encarcerado, é mestre de aforismos.
04 março, 2010
24 fevereiro, 2010
546. memória da dor
A dor fantasma. Já ouvira falar que se dava naqueles que tem pernas ou mãos ou braços amputados. A tal memória da dor. Agora sentia-a ele próprio. E no coração que lhe tinham levado embora.
545. joão (conto)
João nunca faltava ao trabalho, jamais adoecia, era o tipo do funcionário exemplar. Vivia, comia e respirava a fábrica. Vestia a camisa, ou melhor, o macacão, que para ele era como se fosse uma segunda pele e, ao longo dos anos, esforçava-se por mostrar-se engrenagem importante no funcionamento da linha de produção onde atuava. Quando chegou a época de se aposentar, não o fez - decidiu continuar trabalhando com o mesmo amor e entusiasmo do primeiro dia; embora a sua saúde já não colaborasse muito para que sua produção se mantivesse satisfatória. Na concepção de João, porém, ele se havia tornado insubstituível e estava de certa forma convencido de que sem ele o mecanismo não funcionaria a contento. E como naquele ambiente totalitário ter concepções, opiniões, fazer conjecturas ou pensar era algo perigoso e por si só já acusava em quem tivesse este tipo de comportamento um desvio, uma avaria, João foi encontrado morto. Morrera tarde da noite no pleno exercício de suas funções. Fazia serão para cumprir atingir as metas de desempenho.
Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.
Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.
544. sugestão
"Vai cuidar da sua vida!", ela disse ao dispensá-lo. Mas ele não seguiu seu conselho. Preferiu refugiar-se no trabalho pois muito mais que a ela ele amava o que fazia: maquiar cadáveres, cuidar da morte dos outros.
543. o cara (miniconto)
“Eu sou o cara”, costumava se vangloriar. E um dia ao dizê-lo na hora e no lugar e para a pessoa errada, foi executado friamente.
“Aquele coroa não era o cara!”, repreendeu o contratante ao pistoleiro de aluguel. “ É nisso que dá confiar em amadores”
18 fevereiro, 2010
541. o seguidor (the follower)
tuitou antes de ser encontrado morto: estou sendo seguido. se algo me acontecer ( e com certeza vai acontecer) descartem a versão de suicídio. De nada lhe valeu, pois, seu único follower era justamente o assassino.
05 fevereiro, 2010
540. o velho capitão
As águas do rio subiram rapidamente, invadiram as margens e, malgrado os perigos, o velho capitão permaneceu em seu posto encarapitado no telhado enegrecido como seus dentes de fumante secular. Não abandonaria a casa. Afundaria com ela. Aos que tentaram resgatá-lo apontou a carabina. Enxergava neles intenções bucaneiras.
TV CRONÓPIOS H2horas (O Filme)
Minicontos, poemas, pequenos textos... É o que apresenta o filme H2horas do Pipol, na TV Cronópios. Fiz uma ponta. Confiram.
http://www.cronopios.com.br/h2horas/
http://www.cronopios.com.br/h2horas/
04 janeiro, 2010
26 novembro, 2009
536. de anjos e demônios (a Ana Maria Shua)
Asmodeus , o demônio regente do sexo, interpôs-se malevolamente entre aquele jovem casal: ora deixava a esposa frígida como a neve das montanhas e com cefaléias enlouquecedoras; ora arrefecia com uma ducha de água fria a excitação efervescente do marido. E assim começaram as brigas que acabariam com aquele casamento se um anjo do Senhor não fosse enviado em seu socorro. Este anjo a quem coube tão nobre missão era leal, destemido e com sua poderosa espada de luz não demorou em despachar o demônio de volta aos domínios abissais de Lúcifer. Era, como o são os anjos, também tão divinamente belo que ambos, esposa e esposa, por ele acharam de se apaixonar perdidamente. Estabeleceu-se aí uma situação no mínimo constrangedora. À distancia, do seu nicho de trevas, Asmodeus se divertia com tudo aquilo. Quem conhece a natureza dos humanos, estes seres imprevisíveis?
535. nó
O grito do gol que não houve atravessado na garganta. Um nó que ele sabia só se desataria depois de tomar duas conduções e quatro branquinhas no boteco lá da vila; ou progressivamente, ao longo da semana, até a próxima rodada do campeonato.
534. realização
Sentindo-se não realizado profissionalmente o chaveiro do bairro baixou as portas do seu negócio e se mandou para a Amazônia. Lá abraçou o Santo Daime. Aprenderia a abrir as portas da percepção.
533. cruzeiro
Cruzeiro para as Ilhas Virgens. Impuseram-lhe: ou dá ou desce. Ela mirou o azul calmo dos Caribe e achou que era tarde para aprender a nadar, então relaxou. E gozou.
16 novembro, 2009
532. 1929
Tarde da noite já, Ariosto Bequimão está só e, meticulosamente, manuseia sua arma: uma pistola cromada, cabo de madrepérola, presente do seu vizinho e parceiro comercial, o Conde Francisco Matarazzo. Desmontar, limpar, lubrificar... para ele é uma espécie de terapia. Ao fazê-lo esquece por alguns momentos dos seus problemas financeiros que o Crack da Bolsa de Nova Iorque não poupara ninguém. Suas mulheres, esposa e amante, já o abandonaram carregando o que podiam. Seus amigos, ou aqueles que se apresentavam como tal quando ele ainda dispunha de dinheiro e prestígio, arredaram pé - só os credores, hienas famintas, não desistem de bater à sua porta.
Ao certificar-se de que a arma está descarregada, Bequimão inevitavelmente lembra-se de sua falecida mãe a adverti-lo para que tomasse cuidado ao brincar com armas. “Superstição”, ri. “Como pode o diabo enfiar um cartucho aí sem que se perceba?”. Não responde. Não é de botar fé em crendices. Descontraído, lembranças de sua vida logo afluem: casamento, viagens, pequenas aventuras, irresponsabilidades... Lembra-se de uma vez ter feito roleta russa com alguns colegas da faculdade. Loucura. Estavam bêbados e riam muito. Felizmente ninguém se machucou. O estampido seco que se ouviu não surpreende ninguém. Aquele seria um ano triste.
531. anéis
Tomou-lhe a mão esquerda fria entre as suas e, disfarçadamente, tentou retirar do seu dedo gordo a aliança de ouro bem fornida, porém gasta pela sucessão das tantas bodas que comemoraram juntos. Se da vida nada se leva, concluiu, de nada mais haveria de servir à sua defunta esposa aquele maldito elo dourado que lhes algemara as almas por meio século. Não conseguindo, lamentou em voz baixa: uma pena. Mas logo reconfortou-o a certeza da existência em algum lugar de uma apólice de seguros acenando com uma revoada de notas de cem, cinqüenta... novinhas. Revirou a casa, quase botou abaixo as paredes sisudas entre as quais procriaram, cresceram e se multiplicaram e envelheceram e nada encontrou. Irritou-se. Blasfemou. Perdeu o que lhe restava de compostura. Deu para acusar a prole pelo sumiço do documento. Ameaçava deserdá-los a todos. Como um imóvel avariado que ameaçasse desabar interditaram-no. Mingou. A aliança delgada frouxa dançando no dedo. À filha solteirona coube o fardo de cuidá-lo. Elisa não se lastima: vive de espera. Seu príncipe tem a cara de Dom Sebastião. Para passar o tempo inventa coisas inúteis como tricotar cachecóis de lã que nunca serão usados naquele sertão agreste onde vivem confinados.
530. dilema
acordou sentindo-se um ser desprezível. E com um dilema: "sou um homem ou um rato?". ao questionar-se assim não ocultava a clara intenção de provocar um terremoto, um cisma que fosse no seu mundinho cômodo, um vendaval que intimasse o seu íntimo a enfim assumir de vez uma personalidade ímpar, sólida, compacta.sem que pudesse se controlar saiu de casa cabisbaixo arrastando o sobrepeso do corpo, os olhos a varrer os desníveis do pavimento de velhas pedras portuguesas e fez ponto no mesmo bar de sempre, o Oráculo. ali, entre a cerveja gelada e a porção generosa de provolone, foi aos poucos se desencorajando de convencer-se a si mesmo da urgente necessidade de aprender, antes tarde do que nunca, a conviver com suas próprias diferenças e com aquela sua cruel e inusitada dualidade.
529. prevenção
diagnosticado que sofria de mal do coração, para prevenir-se de quaisquer sobressaltos, deu para ler edições de jornais da semana anterior. tudo corria muito bem até que descobriu, com óbvio atraso e nenhuma surpresa, o seu próprio necrológio.
528. o fim
O condenado acreditava que renasceria das cinzas do último cigarro do último pedido feito ante o pelotão de fuzilamento. Enquanto fumava, divertia-se com a inquietação do comandante do pelotão que marchava de um lado para outro, mãos para trás, suando em profusão. E alongava seus últimos minutos fumando sem nenhuma pressa.
– Não se afobe Coronel. Eu podia ter pedido um charuto – pilheriou soltando uma baforada. O outro não riu. Apenas ia e voltava. Consumiu-se o cigarro. Resoluto o oficial sacou do sabre e ordenou:
– Preeeeeeeeparar!! Seus comandados juntaram os calcanhares e levaram aos ombros as armas.– Apoooontar!!Apontaram. Quando o enchia outra vez os pulmões para ordenar que atirassem ouviu atrás de si um tropel dos cavalos e uma ordem:
– Cancele a execução, Coronel! Voltou-se. Fez-lhe sombra a figura de um general estropiado com um braço na tipóia. Confuso, sua imediata reação foi perfilar– se e prestar continência.
– É o fim, Coronel – disse o comandante, a voz embargada. – Resta-nos a rendição. Empreste-me sua espada para que... – parecia pedir desculpas – Pois perdi a minha.
– Sim, senhor!
Triste e diligentemente o Coronel embainhou a espada, desafivelou o cinto e entregou o conjunto ao seu superior.
524. hai kai 34
Que mais o bicho-homem teme?
Bala perdida, vírus letal, um par de cornos
Ou a patroa todo mês de Tepeeme?
Bala perdida, vírus letal, um par de cornos
Ou a patroa todo mês de Tepeeme?
523. zona
Seu time do coração na zona do rebaixamento, a moça da zona azul multou seu carro, sentiu-se indefeso. Zona. Como detestava esta palavra. Na avenida Radial , rumo à Zona Leste da cidade , chorou copiosamente. Como quando era criança chamou pela mãe mesmo sabendo que ela não viria; pois a guerreira estava na Zona batalhando para lhe proporcionar uma vida melhor que a que ela tivera.
522. a arte da guerra
De pijama e quepe o velho general traça estratégias. Enquanto seus netos, após curta trégua, munidos de fofos travesseiros de pena de ganso recomeçam as provocações.
05 novembro, 2009
521. os filhos do rey
Aos seus filhos gêmeos e ciclopes, batizou-os o Rey como Jorge Luis e Luiz Vaz e ordenou que lhes fosse dada esmerada educação que dessa forma se ampliasse a sua limitada visão. Foi lhes ensinado grego, latim e humanidades. Nas duas primeiras áreas ambos se mostraram alunos exemplares; já na última, jamais conseguiram por com sucesso arreios ao seu instinto primitivo, e ficavam fora de controle, principalmente na quaresma, ao farejarem no ar qualquer indício de carne humana.
520. água e fogo
Era pra ser uma missa de corpo presente mas o avião caíra no mar e nem todos os corpos foram resgatados. A idéia de colocar no caixão os objetos de que ele mais gostava – a mala fora encontrada em uma praia - fora da viúva.
Do fundo da igreja, disfarçado, ele assistia a tudo com um sorriso de enorme satisfação sob a barba postiça. Seu plano tinha funcionado perfeitamente. Só lamentava pela camisa do seu time do coração, autografada pelo maior ídolo, relíquia do inesquecível tetracampeonato. Paciência. O fogo do crematório é indiferente às paixões.
Do fundo da igreja, disfarçado, ele assistia a tudo com um sorriso de enorme satisfação sob a barba postiça. Seu plano tinha funcionado perfeitamente. Só lamentava pela camisa do seu time do coração, autografada pelo maior ídolo, relíquia do inesquecível tetracampeonato. Paciência. O fogo do crematório é indiferente às paixões.
519. crustáceo
Na solidão lúgubre do banheiro imundo daquele restaurante chinês do bairro oriental o velho guaiamum imaginava que qualquer sorte que tivesse dali em diante aceitaria como sendo uma bênção, pois já estaria no lucro.
518. casamento coreano
Quando o senhor Kim, funcionário público em Seul, casou-se com a senhora Kim, enfermeira, deram-lhe setenta vezes sete palmadas nas palmas dos pés. Quando ela o deixou para viver com o senhor Kim, vendedor de oratórios budistas, foi muito mais dolorido.
517. morte delivery
O Joystick era um REM HG 600. Como num vídeo-game ele apontou, apertou o gatilho e agüentou firme o coice poderoso da arma. O pássaro de aço atingido em cheio pegou fogo, rodopiou e se espatifou ali no campinho onde ele costumava bater bola com a galera quando ainda era um inocente olheiro. Virou o herói do dia. Era o cara. O chefe do Morro dos Macacos, em pessoa, condecorou-o com a Ordem do Mérito dos Primatas Loucos e Cheirados. Fama efêmera: na manhã seguinte entregaram-no lá embaixo, varado de balas,dentro de um carrinho de supermercado, para causar efeito psicológico no inimigo.
516. o intruso
O intruso não lhe deu esperanças nem adeus e depois de se fartar com o seu corpo continuou a freqüentar todas as noites a casa dos seus sonhos. Para afastá-lo, descobriu um dia, precisava cultivar pesadelos. Neles o monstro encontraria oponentes à altura.
515. figuras de linguagem
Seu corpo era terrivelmente sensível às figuras de linguagem e ele não podia evitá-las. Quando ouvia músicas antigas, por exemplo, seus cotovelos doíam tanto que tinha que tomar doses substanciais de analgésicos para poder agüentar o tranco. Ao pegar-se desconfiado de alguém ou de alguma coisa, invariavelmente se formavam atrás das suas orelhas de abano inquietas colônias de pulga. Nessas horas sentia-se um cão e não um homem. Outra vez, quando ao terminar um relacionamento que lhe parecia promissor e seu par lhe disse para que sumisse da sua vida; sentiu , mais que mágoa ou ressentimento, doer-lhe os glúteos como se lhe tivessem dado um pontapé.
514. reu confessa
Foi em Itacorubi, lá na Ilha, assistindo à Farra do Boi que tive a idéia, que tramei tudo. E não me arrependo não, Doutor. Aquela vaca teve por merecer. Sou assim: quando eu ponho uma coisa na cabeça vou até o fim. E quando me põem então...
513. o homem invisivel
A segurança da Enterprise Co. Fertilizantes estava em primeiro lugar. Tecnologia de ponta com câmeras de alta definição, alarmes e detectores associada a agentes especialmente treinados parecia torná-la inexpugnável. Nada ali, pensava-se, podia passar despercebido; exceto Raimundo, o auxiliar de limpeza, que na sua simplicidade, também não percebia que não era percebido. Todos os dias, inclusive aos sábados, Raimundo trafegava por todos os ambientes daquela fortaleza sempre munido de um balde, detergente, panos, e esfregões, sem deixar vestígios dele ou de outrem – era o seu trabalho. Entrava no ginásio, no refeitório, nas salas onde ocorriam reuniões confidenciais onde eram traçados intrincados planos de ação, e ninguém se dava por sua presença – quem iria dar atenção a um personagem tão iníquo, tão sem importância? E havia ainda outros Raimundos. E eram todos, como ele, seres invisíveis, translúcidos. Um dia Raimundo foi cooptado ( ele não sabia o significado do verbo cooptar) para ser espião de uma empresa concorrente. Os benefícios (tíquete restaurante, passe de ônibus etc. compensavam) E foi quando finalmente o notaram.
512. guam
O velho soldado japonês encarapitado no alto do coqueiro, tem os novos inquilinos da ilha sob a mira do seu fuzil. O vento que sopra do mar desta vez lhe traz fragmentos esparsos, farpas de vocábulos, que ele consegue identificar como sendo na complicada língua do inimigo que ele ouviu quando criança nos cinemas do bairro de Ginza em Tóquio; além do cheiro forte, atrativo, sedutor, das fêmeas (éguas louras) no cio. Mais que ódio sente desejo. Sob os trapos da farda, depois de muitos anos, seu membro desperta e enrijece e esboçava uma reação.
23 outubro, 2009
511. namorada, precisa-se
Não era bonito nem interessante, nem experiente nem rico. Talvez fosse inteligente pois sabia de muitas coisas que os outros não sabiam, e tudo cultura inútil de que se valia sempre para uma coisa: impressionar. Sabia por exemplo a altura do Monte Everest, o hino nacional do Nepal, a capital do Uzbequistão, o lateral direito reserva da seleção uruguaia na copa de 50... Não sabia no entanto quem era seu pai, nem que fora adotado ou que comeu de sobremesa no almoço. Mas com isso não se importava; o importante é que tinha um objetivo, um propósito, ou nas suas próprias palavras, uma missão. E precisava mostrar que era capaz do sacrifício que se exigia para cumpri-la. Em suma precisava arranjar uma namorada. Não virtual, que já às tinha às pencas. Nem imaginária, pois sua imaginação tendia ao perfeccionismo fortemente influenciada pelo cinema e era bem capaz de idealizar uma super-modelo. Precisava mas era de uma namorada real, de carne e osso, que chorasse e risse, menstruasse quinzenalmente e morasse no mesmo bairro para que não precisasse ir longe demais pedalando sua velha bicicleta já que tinha fobia de transporte público.
510. o osbtinado
Rudolph H. planejou meticulosamente por anos a fio como cruzar a temível cortina de ferro que vergonhosamente dividia o seu país. Entusiasmado e esperançoso, sonhava todas as noites com a aquela façanha cuja consecução com êxito seria por assim dizer a coroação justa dos seus desmedidos esforços. Quando finalmente elaborou o plano perfeito, Eles vieram e derrubaram o muro. Rudolph foi abaixo junto.
Tempos depois, porém, resolveu que não devia entregar os pontos assim tão facilmente. Convicto de que tal afronta ao seu sonho sem dúvida exigia uma devida reparação, Rudolph entrou com uma petição junto ao Ministério da Justiça do seu país. A burocracia daquele órgão público, porém, tem-se mostrado um empecilho de proporções quase instransponíveis. Vencê-la, superá-la, é agora a razão de viver de Rudolph, o obstinado.
509. sodade
Ouvia no radinho de pilha Saudades de Matão, mas sentia mesmo era saudade de Santa Ernestina, que ficava logo ali adiante.
508. fragmentos
O peito apertado, o nó na garganta...Queria explodir, estilhaçar-se, fragmentar-se em mil pedaços. Via diante de si naquele ocaso melancólico não o mar de Copacabana físico e real , mas um oceano revolto de impossibilidades. Tudo porque sempre fizera escolhas ruins e andara – para o desespero dos pais – em péssimas companhias. Agora já não tinha os pais a se acharem no direito de opinar sobre sua vida; todavia tinha impressão, quase certeza, de que andar consigo mesmo já era um péssimo negócio.
O desânimo que nem ao menos lhe empurra ao parapeito. Os dedos enrijecidos pela artrite agrilhoados perpetuamente em anéis. Os brincos de jade, as roupas de grife, os 120 pares de sapato, o violino de cordas arrebentadas... Dos objetos inanimados cuja função resume-se em domar sua compulsão perdulária e preencher seus vazios, o vaso chinês - vítima de bala perdida seus cacos se espalhavam sobre o tapete persa - era o que mais invejava.
O desânimo que nem ao menos lhe empurra ao parapeito. Os dedos enrijecidos pela artrite agrilhoados perpetuamente em anéis. Os brincos de jade, as roupas de grife, os 120 pares de sapato, o violino de cordas arrebentadas... Dos objetos inanimados cuja função resume-se em domar sua compulsão perdulária e preencher seus vazios, o vaso chinês - vítima de bala perdida seus cacos se espalhavam sobre o tapete persa - era o que mais invejava.
507. no meio da noite
Telefonaram no meio da madrugada, ele atendeu sonolento e, do outro lado, lhe avisaram que ele tinha sofrido um grave acidente no cruzamento da rua tal com avenida tal. Sem ao menos trocar de roupa ele simplesmente pegou seu carro e dirigiu-se à toda para o local sem respeitar semáforo ou sinalização. No cruzamento da rua tal com a avenida tal havia um orelhão escarlate em cuja concha de acrílico se escondia o rosto de um corpo bem definido de mulher que ele não pode identificar pois, justamente nessa hora, perdeu o controle do carro.
506. nobre concisão
o Conde chamava-se Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans e Saxe-Coburgo-Gota. resumiu-se conciso: assinava d’Eu.
09 outubro, 2009
504. função
funcionário fantasma, recebia e nunca aparecia na repartição. sentia-se um completo inútil até que decidiu escrever: virou ghost writer.
503. 25 de março
Choveu canivete aquela tarde. Suíço. Mas, olhando bem, verifiquei que eram apenas cópias bem feitas. E olhando melhor, certifiquei-me, não estava chovendo: a Federal é que dava um rapa nos últimos andares da tradicional Galeria Pajé justo quando eu passava lá embaixo.
502. metáfora
Era reconhecido mundialmente como um mago da genética. Ao manipular o tecido das vísceras para dar forma ao órgão propulsor e vital materializou a metáfora: Fez das tripas coração.
ANTOLOGIA CONTOS IMEDIATOS

Foi marcado o lançamento da antologia de ficção científica organizada por Roberto de Sousa Causo, chamada Contos Imediatos. Será em 28 de novembro de 2009, das 15h00 às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509.
Os autores são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso e Tibor Tibor Moricz.
P.S. É a minha estréia em livro.
28 setembro, 2009
501. speranza
Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.
501. speranza
Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado por outro, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.
500. são francisco
na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.
500. são francisco
na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.
499. licantropo (hombrelobo juvenil)
Todas as noites antes de dormir, Jordi, o ambidestro, costumava trancar-se no banheiro da casa dos seus pais com sua coleção da playboy e praticar aquilo a que vulgarmente chamam de vício solitário. Um dia, ele, que era ainda um garoto imberbe, percebeu com assombro que pelos negros e grossos brotavam-lhe abundantemente das palmas de ambas as mãos. Sem saber bem ao certo o que fazer, foi ter com um amigo mais velho que lhe explicou que aquilo se dava quando alguém se excedia na prática do tal vício. e que ele devia maneirar.
foi com lágrimas nos olhos que Jordi voltou para casa e se desfez da fonte da sua inspiração. mas de nada adiantou; àquela altura o seu imaginário pornográfico estava solidamente consolidado e ele não conseguia mais se controlar.
Hoje, cinquentão e solteiro convicto, a imaginação já não tão fértil, Jordi ainda pratica esporadicamente o vício. Às vezes, quando lhe sobra algum ou ele ganha no jogo do bicho, vai às vias de fato: aborda e arrasta alguma dessas vagabundas do calçadão para um período de três horas no Lua Cheia. Naquele hoteleco cabeça-de-porco na Praça Carlos Gomes, segundo contam as tais meninas, na hora de gozar, ele costuma entrar em terrível e repulsiva convulsão e baba e uiva - mas paga direitinho.
foi com lágrimas nos olhos que Jordi voltou para casa e se desfez da fonte da sua inspiração. mas de nada adiantou; àquela altura o seu imaginário pornográfico estava solidamente consolidado e ele não conseguia mais se controlar.
Hoje, cinquentão e solteiro convicto, a imaginação já não tão fértil, Jordi ainda pratica esporadicamente o vício. Às vezes, quando lhe sobra algum ou ele ganha no jogo do bicho, vai às vias de fato: aborda e arrasta alguma dessas vagabundas do calçadão para um período de três horas no Lua Cheia. Naquele hoteleco cabeça-de-porco na Praça Carlos Gomes, segundo contam as tais meninas, na hora de gozar, ele costuma entrar em terrível e repulsiva convulsão e baba e uiva - mas paga direitinho.
Versão para o Espanhol:
Todas las noches antes de acostarse el ambidestro jordi costumbrava cerrar la puerta del cuarto de baño de la casa de sus padres y hojear su colección de playboy. A el como a cualquier adolescente le gustaba estimular los genitales y abandonarse al vicio solitario. No se demoró mucho para que él, aún un chico imberbe, descubrise con asombro unos pelos negros y gruesos a brotabarle en las palmas de las manos. sin saber exacto bien lo que hacer, lo contó fué tener con un amigo más viejo que le explicó que eso se daba por el exceso de práctica y que él debia disminuir el ritmo .
Sin otra salida, ojos llenos de lágrimas, Jordi se volvió hacia a la casa muy triste y si deshizo de la fuente de su inspiración. Todavia, eso de nada le servió; ya que su imaginación pornografica estaba muy bien definida y el no tuvo más como parar.
Hoy, cinquenton y soltero por opción, la imaginación ya no tan fértil, Jordi no obstante aun practica esporadicamente el vicio solitário.Sin embargo, cuando ahorra alguna plata o la gana en el juego del bicho se acerca y arrastra sin piedade a una de esas vagabundas del acero para un periodo en un hotelito de mala muerte en la plaza Carlos Gomes llamado Luna Llena;
Alli, según las chicas, en la hora del gozo él empeza terrible convulsión. De su boca mana espuma amarilla y aúlla terriblemente como se fuera un monstruo herido de muerte - todavia les paga bien.
Sin otra salida, ojos llenos de lágrimas, Jordi se volvió hacia a la casa muy triste y si deshizo de la fuente de su inspiración. Todavia, eso de nada le servió; ya que su imaginación pornografica estaba muy bien definida y el no tuvo más como parar.
Hoy, cinquenton y soltero por opción, la imaginación ya no tan fértil, Jordi no obstante aun practica esporadicamente el vicio solitário.Sin embargo, cuando ahorra alguna plata o la gana en el juego del bicho se acerca y arrastra sin piedade a una de esas vagabundas del acero para un periodo en un hotelito de mala muerte en la plaza Carlos Gomes llamado Luna Llena;
Alli, según las chicas, en la hora del gozo él empeza terrible convulsión. De su boca mana espuma amarilla y aúlla terriblemente como se fuera un monstruo herido de muerte - todavia les paga bien.
*. publicado no site: http://www.contosgrotescos.com.br
10 setembro, 2009
498. chá de sumiço (a Belchior)
Sumiu. Ninguém deu por ele pois não fez falta. Aliás, há tempos não fazia falta. Que se recorde desde que era zagueiro do Terrão F.C. em Sobral na década de Setenta.
497. síndrome de tcheckov
Anton era um médico competente e um escritor extremamente criativo; mas nas cantadas – atentem - era simplesmente um fracasso. Quando a dama passou com o cachorrinho em frente à janela do seu consultório àquela tarde ele saiu-se com esta pérola:
"É muita areia para o meu caminhãozinho!"
496. contatos
Que não lhe viessem com estórias de contatos imediatos. Um homem de ciência precisa ter antes de tudo paciência e perseverança. Como podia ser imediatista se vinha tentando se comunicar com os venusianos há pelo menos quarenta anos?
08 setembro, 2009
495. engarrafamento
Não tem como escapar. Nem há atalhos que possam servir de rota de fuga que as veias e vísceras da cidade estão todas congestionadas. É uma loteria: a cola passa de mão em mão e eles se animam e vem e escolhem uma fêmea desprotegida no flanco exposto da manada. E atacam. Os olhos infantis de bandido vidrados, injetados, estouram com naturalidade o vidro com insufilme e coletam o que lhes parece valer alguma coisa: a bolsa de grife que é uma imitação perfeita da que vendem na Daslu; o celular no console que é verdadeiro; os seios macios, que tocam curiosos, e que são falsos.
494. e agora?
José riu por último. Quando a festa acabou e todos já se tinham ido. E não riu melhor pois ria de si, do seu próprio ridículo e assumia o fato de que era uma piada. Então chorou. E só então sentiu-se melhor.
02 setembro, 2009
26 agosto, 2009
24 agosto, 2009
484. a proposta
Dorme e queima lata na própria obra. Faz economia. Cada centavo ganho cá lá no Norte vale o triplo. Domingo quase não sai. Não bebe, não fuma, apenas poupa, guarda. E guarda-se para Rosa que ficou lá em Novo Oriente, esperando-o para o fim do ano.
Do vigésimo andar obra tem vista privilegiada. Pode dizer que conhece São Paulo. De vista.
Agora os crentes deram de aparecer nos finais de semana. Sobem, distribuem revistas, versões de bolso do Novo Testamento, convites para o culto, oram, cantam cânticos.
O pastor é de uma cidade lá perto da sua. Fala empolgado, com desenvoltura, quase sem sotaque. Cita de cor os Evangelhos. Pede contribuição.
Ontem veio novamente. Tinha os olhos injetados e disse estar possuído pelo fogo do Espírito Santo. Tinha uma proposta. Ali mesmo no parapeito apontou para as centenas de minaretes de concreto erguidos por outros tantos conterrâneos que os precederam. “Assim como ao povo de Moisés coube erguer as pirâmides do Egito”, disse.
“Ajoelha-te e me presta adoração!”, disse o pastor. “E tudo isso será teu!”
Na sua simplicidade não pode entender que o homem recitava um versículo emprestado da Bíblia. Bíblia que jamais havia lido. Aliás, nunca havia sido capaz de juntar as letras, de aprender a ler.
Intuiu, pressentiu, porém, quão malévola era a proposta. Quando a esmola é demais, dizem lá na sua terra, até o santo desconfia. Não queria tanto. Queria apenas juntar um bom dinheiro e voltar para Rosa. Só isso.
“Meu mundo não é deste reino”, desculpou-se. E saiu. O outro quedou-se perplexo, boquiaberto, sem argumento.
Desceu. Lá embaixo sentiu-se pequeno, oprimido, um inseto. Na esquina salvou-o um bar aberto. Fazia frio. Entrou. E depois de cinco meses abstêmio, pediu uma pinga.
Do vigésimo andar obra tem vista privilegiada. Pode dizer que conhece São Paulo. De vista.
Agora os crentes deram de aparecer nos finais de semana. Sobem, distribuem revistas, versões de bolso do Novo Testamento, convites para o culto, oram, cantam cânticos.
O pastor é de uma cidade lá perto da sua. Fala empolgado, com desenvoltura, quase sem sotaque. Cita de cor os Evangelhos. Pede contribuição.
Ontem veio novamente. Tinha os olhos injetados e disse estar possuído pelo fogo do Espírito Santo. Tinha uma proposta. Ali mesmo no parapeito apontou para as centenas de minaretes de concreto erguidos por outros tantos conterrâneos que os precederam. “Assim como ao povo de Moisés coube erguer as pirâmides do Egito”, disse.
“Ajoelha-te e me presta adoração!”, disse o pastor. “E tudo isso será teu!”
Na sua simplicidade não pode entender que o homem recitava um versículo emprestado da Bíblia. Bíblia que jamais havia lido. Aliás, nunca havia sido capaz de juntar as letras, de aprender a ler.
Intuiu, pressentiu, porém, quão malévola era a proposta. Quando a esmola é demais, dizem lá na sua terra, até o santo desconfia. Não queria tanto. Queria apenas juntar um bom dinheiro e voltar para Rosa. Só isso.
“Meu mundo não é deste reino”, desculpou-se. E saiu. O outro quedou-se perplexo, boquiaberto, sem argumento.
Desceu. Lá embaixo sentiu-se pequeno, oprimido, um inseto. Na esquina salvou-o um bar aberto. Fazia frio. Entrou. E depois de cinco meses abstêmio, pediu uma pinga.
483. dos Insetos
Era uma vez uma borboleta chamada SunTzu que, em um café da moda, conheceu uma barata chamada Gregor Samsa. Entre um chá e um café expresso, entabularam uma animada conversa e descobriram interesses comuns: livros, vinhos, charutos, belas mulheres, música clássica... Mas como tudo é efêmero e superficial nessa vida de inseto, entre baforadas espessas o sonho logo se dissipou: Sun Tzu voltou a vender pastel na feira aos sábados; e Joseph K a cuidar da sua lojinha de miudezas no Bom Retiro.
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