o elefante que sempre se orgulhou de sua prodigiosa memória agora deu para beber. acontece que a sua parceira fugiu com outro e por não conseguir esquece-la é que a maldiz (a memória)
minicontos, micro-contos, nanocontos, micro-narrativas, relatos curtos, contos breves, hiperbreves, microrelatos, cartuns, poemas etc.
29 fevereiro, 2008
315. equestres
venderam-lhe aquele cavalo como um legitimo andaluz ( entendia as ordens em espanhol). só depois é que ele se deu conta: o animal era paraguaio. e bilingue.
314. kali II
Kali nasceu com seis braços. Toda vez que ia à manicure gastava uma nota - mas em compensação botava a fofoca em dia e desabafava: "se os caras prestassem mais atenção nas minhas pernas..."
313. kali I
kali nasceu com seis braços. a mãe, do lar, crendo-se amaldiçoada pelos deuses caiu em profunda depressão. o pai, agricultor, homem prático, ao contrário, viu "naquilo" uma bênção.
15 fevereiro, 2008
312. cena urbana I
o semáforo demorava-se no vermelho. o carro era blindado e não havia nada que pudesse temer. o que ele não sabia era que o líquido que o menino molambento com o rodinho na mão derramou no para-brisa não era água. descobriria-o com olhos de pavor quando o segundo garoto, o que fazia acrobacias pirotécnicas, se aproximasse com um sorriso nos lábios rachados pelo frio do fim da tarde e uma tocha na mão .
311. perdas
perdeu a virgindade, o primeiro marido, o segundo, o trem da história, o das onze, o fio da meada, o medo de ser feliz, o juízo, a esperança e a vergonha sem jamais se queixar. os finais de telenovela, porém, ( quem ficou com quem?) eram sagrados. não os perdia por nada. no fim da vida encontrou a paz dos videos- tapes.
310. de amor e jogo
tomou um pé-na-bunda mas não se abalou. era um otimista incorrigivel e acharia rápido uma forma de consolar-se a si mesmo. "azar no amor, sorte no jogo", vibrou e dirigiu-se confiante ao Bingo Crosby disposto a arrebentar a banca. Ali apostou , perdeu e conheceu ana maria villari khaled prado, divorciada, vinte e dois anos mais velha, cheia da grana e de amor pra dar.
309. no lugar errado
no lugar errado, na hora errada quando anunciou-se o assalto. a policia cercou o local. tomado entre tantos como refém perguntou-se: por que eu? acaso, azar, destino... analisou probabilidades, avaliou chances, perdeu-se em estimativas- nunca fora bom com os cálculos. lá fora, pelo altifalante, alguém propunha negociação pela sua vida. quanto valeria? quem dá mais?estranhamente não sentiu medo. talvez porque não tivesse nada a perder além do fim do filme da sua vida que lhe passava pela cabeça. cabeça contra a qual premiam o frio e curto cano da arma.
308. o contrabandista de órgãos
Capturado, Bertoldo foi apresentado à imprensa e ao grande público como o mais infame contrabandista de órgãos de que se tinha notícia. Por conta dos seus atos vis foi levado a juri popular e condenado por unanimidade e sem apelação à pena capital.
No dia seguinte à sua execução, nossa valorosa polícia, sempre diligente, voltou a campo e capturou também os receptores de órgãos, não menos culpados. Com eles, as provas do delito: Um container inteiro de Yamahas de última geração.
No dia seguinte à sua execução, nossa valorosa polícia, sempre diligente, voltou a campo e capturou também os receptores de órgãos, não menos culpados. Com eles, as provas do delito: Um container inteiro de Yamahas de última geração.
307. o atalho
para cortar caminho tomou um atalho. o que cruzava a linha do trem. do outro lado, para sua surpresa e estranheza, a esperavam a mãe, a avó, o avô e outras pessoas bem mais antigas em quem ela angustiada reconheceu traços de sua própria fisionomia.
306. conto policial indiano
na busca ao desaparecido ao longo das margens sagradas do ganges, para desespero dos legistas, o inspetor ganesh ordenou o resgate de mais um corpo - até aquela hora, quinze para o meio-dia, já era um total de dezessete.
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31 outubro, 2007
305. 25 de março de 2007
o camelô chegou antes de amanhecer armou a barraca naquele ponto de intenso movimento e esperou o dia inteiro as pessoas possiveis fregueses clientes potenciais que passaram indiferentes assim como os guardas municipais que também deram as caras estranhamente ignorando a sua visivel apreensão nada apreenderam e só no fim da tarde um bancário ou securitário meia-idade récem-demitido fez-lhe uma oferta:
"dou três paus nessa barraca, parceiro. um em cash e dois no pré-datado".
304. blue viagra
o som ambiente (kenny g) dá o clima.
- sobe? - pergunta-me a ascensorista mais sexy do mundo com um sorriso sensual a desabrochar nos lábios rubros.
remoço vinte anos, sorrio de volta, e respondo pleno de confiança e força:
- não tenha dúvida, baby.
a cartela de pilulas azuis no bolso da jaqueta é o segredo do meu super-poder. ninguém pode saber, assim como da minha identidade secreta. vamos às alturas.
26 outubro, 2007
303. olhar fulminante
ninguém que se dignasse cumprir sua última vontade : uns por caridade cristã (deus dá a vida, só ele pode tirá-la), outros por temer a justiça dos homens. de repente lembra-se de quando falavam que tinha um olhar fulminante, mira a superfície cromada da máquina a que está conectado por fios há anos , e descobre poder fazer algo sem depender deles.
302. naturismo
amou-a secretamente desde o primeiro instante em que foram apresentados por um amigo comum no clube de naturismo. excitava-o vesti-la com os olhos.
10 outubro, 2007
301. vegetal
vendo o velho ali, prostrado em um leito hospitalar em estado vegetativo, não teve dúvidas: abriu a braguilha e regou-o efusivamente.
o médico havia se enganado. o paciente não perdera de todo a sensibilidade. comprovou-o ao decifrar na iris opaca do enfermo resquicios de um ódio antigo, de uma prepotência agora domada pela impotência.
300. o enforcado
o cheiro da ingrata - também o do outro com quem havia dormido e fugido àquela quinta - ainda impregnado nos lençóis com que o desgraçado teceu a corda.
289. vamp
- mais depressa, por favor - quase suplicou a jovem passageira, os lábios roxos, a voz angustiada.
- preciso chegar a este endereço antes que amanheça!
ele disse é prá já, moça, e acelerou. no caminho pensou em marcar urgente uma consulta com o oculista. ou, quem sabe, entrar com os papéis da aposentadoria - por que não?
pelo retrovisor, via apenas o banco traseiro, o estofado de couro vermelho, vazio.
288. calafrio
quinze para a meia-noite deixa meio zonzo o prédio cinzento do IML onde acaba de identificar o corpo do tio solteirão que desaparecera já há alguns meses e dirige-se ao metrô consolação. arrasta os passos sem pressa, desce as escadas, cruza a frieza metálica da catraca e posta-se na plataforma. está sozinho.
mãos nos bolsos da jaqueta jeans desbotada, sentidos estimulados por sucessivas doses de cafeína, espera junto à linha amarela.
o trem assoma no túnel. o serviço de alto-falante todavia anuncia que o mesmo será recolhido para manutenção e portanto não há de parar naquela estação - um procedimento técnico, de praxe.
o trem se aproxima, o deslocamento de ar lhe assanha os cabelos que começam a rarear. os vagões, as luzes acesas, passam rápidos à distancia de dois palmos do seu nariz constipado. ele os supõe vazios mas o que vê ou imagina ver é um passageiro solitário, olhos profundos a acenar-lhe com a mão raquítica e ossuda, a dar-lhe um solitário adeus.
"Tio...", balbucia ao mesmo tempo que sente um calafrio percorrer-lhe a espinha e morrer na base da nuca.
o trem já passou.
24 julho, 2007
287. há vagas
Doutor Firmino Fortes, a pretexto de exercitar sua autoridade de gerente-geral récem-nomeado, logo no primeiro dia despediu sem mais delongas dona Marioneide, a faxineira, nordestina, analfabeta, oito filhos pequenos para criar.
Olhos úmidos, impotente, Dona Marioneide só conseguia balbuciar com sotaque: "o senhor não tem coração, doutor".
Enganava-se a infeliz. Que ele o tinha. Com quatro pontes. Aquelas que ainda aquela noite, ruiriam sob o peso da sua prepotência.
Dia seguinte, no quadro de contratações da empresa, duas novas vagas. A fila, lá fora, dobrava o quarteirão.
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