06 março, 2008

320. abissal

nunca sonhava pois sequer dormia. dedicava-se, como aconselhavam as escrituras, a orar e vigiar para não ser surpreendido.
uma noite, na escuridão liquida da fossa abissal em que custumava mergulhar, divisou um pequeno ponto de luz fosforescente e imaginou se não seria um daqueles seres esquisitos que só se encontram nas profundezas. não quis crer que sonhasse e esfregou os olhos uma, duas vezes. foi então que percebeu que estava sem o escafandro.

319. diálogo entre barras

- já há quantos anos aqui?
- quinze, quase dezesseis - respondeu o carcereiro.
- quando eu sair daqui pretendo escrever. e você?

318. aplicada

aplicada, riu enquanto passava a borracha em volta do braço para dilatar as veias. a avó costumava defini-la assim, com orgulho: uma menina aplicada.

317. festa

na festa dos descolados, eu deslocado.

29 fevereiro, 2008

316. memory

o elefante que sempre se orgulhou de sua prodigiosa memória agora deu para beber. acontece que a sua parceira fugiu com outro e por não conseguir esquece-la é que a maldiz (a memória)

315. equestres

venderam-lhe aquele cavalo como um legitimo andaluz ( entendia as ordens em espanhol). só depois é que ele se deu conta: o animal era paraguaio. e bilingue.

314. kali II

Kali nasceu com seis braços. Toda vez que ia à manicure gastava uma nota - mas em compensação botava a fofoca em dia e desabafava: "se os caras prestassem mais atenção nas minhas pernas..."

313. kali I

kali nasceu com seis braços. a mãe, do lar, crendo-se amaldiçoada pelos deuses caiu em profunda depressão. o pai, agricultor, homem prático, ao contrário, viu "naquilo" uma bênção.

15 fevereiro, 2008

312. cena urbana I

o semáforo demorava-se no vermelho. o carro era blindado e não havia nada que pudesse temer. o que ele não sabia era que o líquido que o menino molambento com o rodinho na mão derramou no para-brisa não era água. descobriria-o com olhos de pavor quando o segundo garoto, o que fazia acrobacias pirotécnicas, se aproximasse com um sorriso nos lábios rachados pelo frio do fim da tarde e uma tocha na mão .

311. perdas

perdeu a virgindade, o primeiro marido, o segundo, o trem da história, o das onze, o fio da meada, o medo de ser feliz, o juízo, a esperança e a vergonha sem jamais se queixar. os finais de telenovela, porém, ( quem ficou com quem?) eram sagrados. não os perdia por nada. no fim da vida encontrou a paz dos videos- tapes.

310. de amor e jogo

tomou um pé-na-bunda mas não se abalou. era um otimista incorrigivel e acharia rápido uma forma de consolar-se a si mesmo. "azar no amor, sorte no jogo", vibrou e dirigiu-se confiante ao Bingo Crosby disposto a arrebentar a banca. Ali apostou , perdeu e conheceu ana maria villari khaled prado, divorciada, vinte e dois anos mais velha, cheia da grana e de amor pra dar.

309. no lugar errado

no lugar errado, na hora errada quando anunciou-se o assalto. a policia cercou o local. tomado entre tantos como refém perguntou-se: por que eu? acaso, azar, destino... analisou probabilidades, avaliou chances, perdeu-se em estimativas- nunca fora bom com os cálculos. lá fora, pelo altifalante, alguém propunha negociação pela sua vida. quanto valeria? quem dá mais?estranhamente não sentiu medo. talvez porque não tivesse nada a perder além do fim do filme da sua vida que lhe passava pela cabeça. cabeça contra a qual premiam o frio e curto cano da arma.

308. o contrabandista de órgãos

Capturado, Bertoldo foi apresentado à imprensa e ao grande público como o mais infame contrabandista de órgãos de que se tinha notícia. Por conta dos seus atos vis foi levado a juri popular e condenado por unanimidade e sem apelação à pena capital.
No dia seguinte à sua execução, nossa valorosa polícia, sempre diligente, voltou a campo e capturou também os receptores de órgãos, não menos culpados. Com eles, as provas do delito: Um container inteiro de Yamahas de última geração.

307. o atalho

para cortar caminho tomou um atalho. o que cruzava a linha do trem. do outro lado, para sua surpresa e estranheza, a esperavam a mãe, a avó, o avô e outras pessoas bem mais antigas em quem ela angustiada reconheceu traços de sua própria fisionomia.

306. conto policial indiano

na busca ao desaparecido ao longo das margens sagradas do ganges, para desespero dos legistas, o inspetor ganesh ordenou o resgate de mais um corpo - até aquela hora, quinze para o meio-dia, já era um total de dezessete.

31 outubro, 2007

305. 25 de março de 2007


o camelô chegou antes de amanhecer armou a barraca naquele ponto de intenso movimento e esperou o dia inteiro as pessoas possiveis fregueses clientes potenciais que passaram indiferentes assim como os guardas municipais que também deram as caras estranhamente ignorando a sua visivel apreensão nada apreenderam e só no fim da tarde um bancário ou securitário meia-idade récem-demitido fez-lhe uma oferta:
"dou três paus nessa barraca, parceiro. um em cash e dois no pré-datado".

304. blue viagra


o som ambiente (kenny g) dá o clima.

- sobe? - pergunta-me a ascensorista mais sexy do mundo com um sorriso sensual a desabrochar nos lábios rubros.

remoço vinte anos, sorrio de volta, e respondo pleno de confiança e força:

- não tenha dúvida, baby.

a cartela de pilulas azuis no bolso da jaqueta é o segredo do meu super-poder. ninguém pode saber, assim como da minha identidade secreta. vamos às alturas.

26 outubro, 2007

303. olhar fulminante


ninguém que se dignasse cumprir sua última vontade : uns por caridade cristã (deus dá a vida, só ele pode tirá-la), outros por temer a justiça dos homens. de repente lembra-se de quando falavam que tinha um olhar fulminante, mira a superfície cromada da máquina a que está conectado por fios há anos , e descobre poder fazer algo sem depender deles.

302. naturismo


amou-a secretamente desde o primeiro instante em que foram apresentados por um amigo comum no clube de naturismo. excitava-o vesti-la com os olhos.

10 outubro, 2007

301. vegetal


vendo o velho ali, prostrado em um leito hospitalar em estado vegetativo, não teve dúvidas: abriu a braguilha e regou-o efusivamente.
o médico havia se enganado. o paciente não perdera de todo a sensibilidade. comprovou-o ao decifrar na iris opaca do enfermo resquicios de um ódio antigo, de uma prepotência agora domada pela impotência.

300. o enforcado

o cheiro da ingrata - também o do outro com quem havia dormido e fugido àquela quinta - ainda impregnado nos lençóis com que o desgraçado teceu a corda.

289. vamp


- mais depressa, por favor - quase suplicou a jovem passageira, os lábios roxos, a voz angustiada.
- preciso chegar a este endereço antes que amanheça!

ele disse é prá já, moça, e acelerou. no caminho pensou em marcar urgente uma consulta com o oculista. ou, quem sabe, entrar com os papéis da aposentadoria - por que não?

pelo retrovisor, via apenas o banco traseiro, o estofado de couro vermelho, vazio.

288. calafrio


quinze para a meia-noite deixa meio zonzo o prédio cinzento do IML onde acaba de identificar o corpo do tio solteirão que desaparecera já há alguns meses e dirige-se ao metrô consolação. arrasta os passos sem pressa, desce as escadas, cruza a frieza metálica da catraca e posta-se na plataforma. está sozinho.

mãos nos bolsos da jaqueta jeans desbotada, sentidos estimulados por sucessivas doses de cafeína, espera junto à linha amarela.
o trem assoma no túnel. o serviço de alto-falante todavia anuncia que o mesmo será recolhido para manutenção e portanto não há de parar naquela estação - um procedimento técnico, de praxe.

o trem se aproxima, o deslocamento de ar lhe assanha os cabelos que começam a rarear. os vagões, as luzes acesas, passam rápidos à distancia de dois palmos do seu nariz constipado. ele os supõe vazios mas o que vê ou imagina ver é um passageiro solitário, olhos profundos a acenar-lhe com a mão raquítica e ossuda, a dar-lhe um solitário adeus.

"Tio...", balbucia ao mesmo tempo que sente um calafrio percorrer-lhe a espinha e morrer na base da nuca.

o trem já passou.

24 julho, 2007

287. há vagas


Doutor Firmino Fortes, a pretexto de exercitar sua autoridade de gerente-geral récem-nomeado, logo no primeiro dia despediu sem mais delongas dona Marioneide, a faxineira, nordestina, analfabeta, oito filhos pequenos para criar.
Olhos úmidos, impotente, Dona Marioneide só conseguia balbuciar com sotaque: "o senhor não tem coração, doutor".
Enganava-se a infeliz. Que ele o tinha. Com quatro pontes. Aquelas que ainda aquela noite, ruiriam sob o peso da sua prepotência.
Dia seguinte, no quadro de contratações da empresa, duas novas vagas. A fila, lá fora, dobrava o quarteirão.

286. haiti


jean-pierre matou a golpe de machete seu louis-antoine seu vizinho e desafeto e tentou se desfazer do corpo atirando-o no penhasco que dava para o mar.
teve porém de fazê-lo por mais de uma dúzia de vezes, tomando o cuidado de mudar sempre o local e o modo - ora era um poço abandonado com uma pedra amarrada no pescoço, ora uma cova rasa na mata fechada ou uma pedreira desativada - porque no dia seguinte, teimosamente, lá estava o maldito de volta a atormentá-lo. cansado daquilo tudo, jean-pierre confessou o crime e se entregou à policia. foi condenado por homicidio mas - menos mal - livrou-se da acusação de ocultação de cadáver.

285. amor aos pedaços


esperava-a. ela, como sempre, atrasou-se. ele não conseguiu se conter: devorou voluptuosamente o coração de chocolate com que a presentearia.
quando ela apareceu ele, meia hora depois, ele ainda mastigava o último pedaço e lambia os lábios.
acabou-se, ele disse. não sou aquele cara sem vicios que voce pensou que eu fosse.

284. bolsa-familia

ir pro sul? pra quê? nem pensar! - riu-se joão climério, o polígamo, na fila do bolsa-familia em cabrobó.

10 julho, 2007

283. big brother

expôs-se por dez semanas em um reality show e ganhou um milhão de reais. a fama subiu-lhe a cabeça. ontem esmurrou um paparazzi por invadir sua intimidade.

282. excursão

a excursão do pessoal da terceira idade pelos igarapés terminou em tragedia: nopescoço do bugre abatido um colar de dentaduras

281. dúvida

político de carreria, tarimbado, uma única dúvida o incomodava: vender amãe é nepotismo?

20 abril, 2007

280. invocado


era um sujeito invocado. invocado e perigoso. bastava que alguém lhe olhasse torto para que ele lhe tirasse a vida. já tinha matado pra mais de vinte. dezoito deles eram vesgos.

279. alquimia


nas bodas de ouro ela o encheu de chumbo.

278. dedo-duro



o oyabun* mostrou afinidade com a faca yanagi - havia sido um hábil sushiman quando jovem, em nagoya.- e decepou, um a um os dedos que se lhe eram oferecidos pelos seus homens. só assim pode identificar o delator.

* chefão da máfia japonesa, a yakuza.

277. Perícia


a conclusão do perito criminal sobre o "decujus" da vítima encontrada morta no clube de nudismo pareceu-me contraditória:

- levou um tiro a queima-roupa.

28 março, 2007

276. mondo cane

fizeram amor de forma animal - estavam ligados, definitivamente, um ao outro.

275. cantada I


quer trepar comigo? sim? não? ok. cê sabe: quem cala, consente, mudinha .

274. desandando


escreveu um livro, fez um filho e plantou uma árvore. sentia-se plenamente realizado como profissional, pai e ecologista quando as coisas começaram a dar errado: foi processado por plágio, a mulher revelou-lhe que o filho era do seu editor, os galhos da árvore cresceram e invadiram o seu escritório e ele, num acesso de fúria, podou-os com uma motoserra - foi multado em mil e duzentos reais.

273. campeão de audiência


a deusa-mídia, dona do seu destino, por tê-lo criado reinvindicava o divino direito de destruí-lo quando ele se tornasse desnecessário aos seus própositos. ele se antecipou e apontando o controle remoto contra a própria cabeça cometeu suicidio: estava no auge. seus últimos índices de audiência alcançaram 32 pontos àquela noite.

272. matou a familia I


o menor infrator matou a família e foi ao cinema: "cai fora, pirralho!" - escorraçou-o o bilheteiro - "que esta sessão é pra maiores de dezoito!"

271. quem avisa...

o teu está na reta - alertou. e o outro ainda olhou torto.

270. choque térmico

com a garrafa de café acertou-lhe os cornos.

269. publicitário, ex-marine

invadiu uma escola primária no oregon portando um fuzil de assalto M-16. encontrara enfim o seu público-alvo.

268. ensaio


fiz o ensaio fotográfico da garota da laje, disse o papiloscopista.

08 março, 2007

267. enigma


de-me cifras ou te defloro! - ameaçava.
e a prostituta morria de rir do modo empolado de falar daquele velhinho safado.

266. o mago


à margem do que um dia foi o rio piedra, o mago sentou e chorou - água mesmo só dos seus olhos.

265. o atirador


- reconheces que fostes tu que atirastes ontem contra os transeúntes? - interrogou o juiz.
- para ser franco, meritíssimo, sim.

264. hábito


sempre cinco quilos acima do peso. culpa do hábito (comer unhas) e do emprego - era manicure desde os dezesseis.

263. proust


marcel costumava andar sozinho pela praia. não refletia; apenas buscava o tempo perdido. uma vez achou um relógio zerinho...

262. o concurso


na pressa tinha errado a mão e digitado: concurso de minicoitos. o que bastava para explicar a insistência daqueles anões para que os atendesse.

12 fevereiro, 2007

261. o último boitatá


na escuridão da floresta latifoliada mil olhos o espreitavam.

260. falsidade ideológica

não, não era comunista. nunca o fora. nem cogitava ser - negou por três vezes.

259. sada abe

hábil com a faca, enquanto fatiava o nabo "daikon", sada* sorria.


*. sada abe, “geisha” que em 1936 matou o seu amante e lhe cortou o pénis (inspiradora do filme "o império dos sentidos", de nagisa oshima.

258. curare


dose única. milimétrica - só pra relaxar.

08 janeiro, 2007

257. destino


nos anos de chumbo, para não ser morto, caiu na clandestinidade; atualmente, para sobreviver, pilota um ônibus clandestino.

256. lei da oferta e da procura


vendo apenas o corpo - disse a prostituta ao pobre diabo.

255. retrospectiva 2006


odiava o natal - nada para ver na TV além das retrospectivas - foi dormir cedo. na cama, o ano inteiro passou como um filme diante dos seus olhos.

254. natal letal


matou o amigo oculto e ocultou o cadáver.

27 novembro, 2006

253. conversa


era conservador e não admitia de forma laguma aquele tipo de comportamento - então chamou a filha para uma conversa de homem para homem.

252. o rato de roma


adestrei-o, companheiros, para que devorasse os olhos de césar - queixou-se o conspirador. e o maldito roedor contentou-se em estraçalhar-lhe as finas roupas.

07 novembro, 2006

251. na hora do almoço


entrou no restaurante amarillo e anunciou em alto e bom tom: vim matar quem está me matando! um bordão mais do que batido. houve quem pensasse na fome, outros na vontade de comer; mas no geral quase ninguém levou-o muito a sério. até que ele sacou um trinta e oito e...

250. compras


entrou na optica vision e pediu uma ilusão.

249. psicotrópico


à terceira tragada no narguillé, o tapete moveu-se inquieto sob os seus pés.

248. peão


dois minutos - queixou-se a parceira, olho azul no relógio - na arena do rodeio teu desempenho é melhor.

06 novembro, 2006

247. DP


fazia ponto no barzinho em frente a faculdade: DP em química.

246. sonegador


preso por sonegação, foi enfático: nada a declarar.

245. versão


a versão de que ele se havia envenenado com baygon não colou: encontraram-no com a boca cheia de formigas.

30 outubro, 2006

244. educação pela pedra


havia uma pedra no caminho e depois outra pedra e depois outra. pedras. caminho? caminho há um. sabe-o sem volta, contudo.

243. passional


na fúria descontrolada das carícias, o contador silas engoliu sem perceber o brinco de pérola da sua fogosa amante adelita. lamentável falha a de silas, diga-se de passagem: no dia seguinte, ao levar material para exame no laboratório de análise clínica, celino, o técnico coletor e coincidentemente noivo de adelita, descobriu tudo e tentou matá-lo.

242. promessa para parar de beber


a última gota do derradeiro drinque foi, para variar, para o santo.

241. vocação


por causa das aulas de anatomia, cedo desistiu da medicina - hoje toca os negócios que o pai, açougueiro, lhe deixou .

240. tentação


em vez da "marvada" o portugues do botequim serviu foi uma dose de biotônico. daí que deu no jeca uma disposição fora do comum, uma vontade incontrolável de trabalhar que, não fosse aquele um dia santo feriado, teria ele vergonhosamente cedido à tentação do coisa-ruim.

239. fim da linha


é o fim da linha, suspirou resignada a mãe e caiu morta sobre a máquina de costura - e o filho, inocente, estendeu a mãozinha condicionada na esperança do carretel que não viria.

20 outubro, 2006

238. promessas


o vicio mais forte que o medo, esperou um descuido das vestais e acendeu o cigarro ali mesmo, na pira em que ardia o fogo dos deuses. se o vissem, sabia, seria duramente castigado. prometeu pela centésima vez que ia parar de fumar.

17 outubro, 2006

237. o fanático


o fanático religioso invadiu de arma em punho a padaria e estorou os miolos - dos pães, porque acreditava que era o diabo quem os amassava.

09 outubro, 2006

236. vodu


a propaganda subliminar imperialista transformara seus garotos em animais sedentários e obesos com altas taxas de colesterol e propensão a doenças cardiacas. angustiada, trapassou com a agulha de croché o peito do boneco ronald mcdonald.

235. o sonho de tiradentes


àquela noite o alferes dormiu mal e sonhou que mãos pálidas e frias lhe cingiam o pescoço com um colar de dentes podres. Dona Anna Mariana, com quem compartilhava idéias e leito, interpretou aquilo como um mau presságio; mas por sabê-lo homem céptico, capaz de atribuir à prática do oficio que lhe dera a alcunha o sonho intrigante, simplesmente não lho disse.

02 outubro, 2006

234. tesão

"fazer literatura exige tesão", confessou o palestrante, escritor de microcontos, que sofria de ejaculações precoce.

233. o retrato de dorian


desconfiada de que dorian lhe escondia algo, esperou ele adormecer e revirou-lhe a carteira: o velho horrivel da foto três por quatro do RG tinha o mesmo nome que ele: imaginou que fosse o seu avô.

232. predisposição


trancou o ressentimento num cofre e engoliu a chave - estava predisposto ao perdão. e o concederia se não ficasse preso naquela maldita porta giratória do banco onde ela trabalhava.

231. herodes


ao perder a inocência, matou a criança que havia dentro de si - e sentiu-se o próprio herodes.

230. jó I

jó era um sujeito impaciente e apressado (talvez porque fosse paulista). por conta disso não fugia à dieta de quibe cru no habibs e sashimi no shimpati.

26 setembro, 2006

229. tentativas


todo ano pelo seu aniversário o louco tentava em vão morder as próprias orelhas. um dia ele ouviu dizer que com a idade elas cresceriam e se encheu de esperança. quando finalmente fez noventa anos, sorriu satisfeito e conseguiu tocar com a língua áspera o lóbulo esquerdo. mas -senil cruedade - logo recolheu-se triste: percebera que dentes para mordê-las já não os tinha.

228. medida


meça suas palavras, moçinha!, ralhou o pai. mal sabia ele que a filhota mandara tatuar nas laterais da língua pontos de fita métrica.

25 setembro, 2006

227. humano

errar é humano, disse o alienigena. e acertou-o no meio dos cornos.

226. inadimplência


despejaram o artista de rua por inadimplência, e ele, otimista: agora trabalho em casa.

08 setembro, 2006

225. o escritor underground

escreveu os microcontos todos entre as estações liberdade e paraíso.

224. boa noite, cinderela

disse chamar-se morpheo e ofereceu-me um drinque.

05 setembro, 2006

223. pelo orkut


depressivas e obesas, indignadas por terem sido a vida toda vítimas de preconceito, as baleias azuis resolveram dar um basta: combinaram pelo orkut um suicidio coletivo .

28 agosto, 2006

222. esopo


houve quem estranhasse quando o velho esopo, que era de poucas palavras, deu bom dia ao cavalo.

221. o eremita


aqueles maços de notas todos não compraram sua alma eremita - devotava-se à pobreza . aceitou-as, contudo. pois cultivava a nobre prática do origami como exercicio contra possiveis tentações.

220. homenagem

menos famoso por milagrosas defesas que por reter a bola quando seu time estava em vantagem, aquele guarda-metas não ganhou busto na praça do estádio: ironicamente o homegearam com um estátua no museu de cera.

219. mau-olhado

para não ser vitima de mau-olhado baniu de casa todos os espelhos.

16 agosto, 2006

218. correspondente no vale do bekkaa

uma câmara na mão e uma bala na cabeça.

14 agosto, 2006

217. coerência


achava a vida uma merda e se atirou da ponte - acharam o corpo boiando no rio entre coliformes.

216. o sonho da mariposa


chuang tzu sonhou que era uma mariposa e que, azar dos azares, caía justo nas mãos de um colecionador ganancioso que, honra das honras, lhe reservara um lugar firmado por alfinete de ouro num lindo biombo decorado com ferozes dragões. Ao despertar, traumatizado, tzu cancelou a consulta marcada com o acupunturista.
*. Sueño de la mariposa
Chuang Tzu (300 AC.)
chuang tzu soñó que era una mariposa. al despertar ignoraba si era tzu que había soñado que era una mariposa o si era una mariposa y estaba soñando que era tzu.

215. arrependimento

deu ouvidos ao que os outros falavam - sua mulher andava costurando para fora - e para não cometer uma besteira expulsou-a de casa e da sua vida. hoje ao vê-la estilista famosa no são paulo fashion week bate um puta arrependimento.

214. o bêbado equilibrista

tinha medo de altura mas precisava ganhar a vida - por isso, antes de encarar o arame, tomava uma.

213. boca-suja


poeta maldito boca-suja desses que escrevem em guardanapos de botecos de quinta categoria prolífico e compulsivo. escrevia e comia muito: churrasquinhos-de-gato, rodelas de salame com limão, regados a rabo-de-galo. porém, toda vez que precisava limpar a boca, sacrificava um poema. e assim a minha obra, dita maldita e capaz de fazer corar a velha dercy, permanece totalmente inédita.

10 agosto, 2006

212. papa-léguas

alertaram-no para que não confiasse em coiotes - mas ele precisava desesperadamente cruzar o rio grande.

(correcaminos) lo alertaron para que no confiara em coyotes - pero él necessitaba desperadamente cruzar el rio grande.

01 agosto, 2006

211. gafe


no enterro de atlas alguém desejou-lhe com redundante pesar: que a terra lhe seja leve.