24 março, 2010

553. Lluvia

Lloven cuchillos em Berna – suizos genuinos

552. Concupiscencia de la carne

No deseaba la mujer del prójimo. Ni la suya.
* tradução: não desejava a mulher do próximo. Nem a sua.

551. o mestre

Lá fora sentia o verbo preso, contido. Cá dentro, recluso, encarcerado, é mestre de aforismos.

04 março, 2010

550. hai kai n.46

Nos amplos estábulos
Da Torre de Babel
Cavalos cagam vocábulos

549. hai kai 45

Vago abstêmio
Em espírito convosco
Pelo bairro boêmio.

548. hai kai 44

Aqueduto em ruínas
Águas passadas
Só movem saudades

547. hai kai n.43

Jacaré ia marcar o tento
Tamanduá bandeira
Marcou impedimento

24 fevereiro, 2010

546. memória da dor

A dor fantasma. Já ouvira falar que se dava naqueles que tem pernas ou mãos ou braços amputados. A tal memória da dor. Agora sentia-a ele próprio. E no coração que lhe tinham levado embora.

545. joão (conto)

João nunca faltava ao trabalho, jamais adoecia, era o tipo do funcionário exemplar. Vivia, comia e respirava a fábrica. Vestia a camisa, ou melhor, o macacão, que para ele era como se fosse uma segunda pele e, ao longo dos anos, esforçava-se por mostrar-se engrenagem importante no funcionamento da linha de produção onde atuava. Quando chegou a época de se aposentar, não o fez - decidiu continuar trabalhando com o mesmo amor e entusiasmo do primeiro dia; embora a sua saúde já não colaborasse muito para que sua produção se mantivesse satisfatória. Na concepção de João, porém, ele se havia tornado insubstituível e estava de certa forma convencido de que sem ele o mecanismo não funcionaria a contento. E como naquele ambiente totalitário ter concepções, opiniões, fazer conjecturas ou pensar era algo perigoso e por si só já acusava em quem tivesse este tipo de comportamento um desvio, uma avaria, João foi encontrado morto. Morrera tarde da noite no pleno exercício de suas funções. Fazia serão para cumprir atingir as metas de desempenho.

Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.

544. sugestão

"Vai cuidar da sua vida!", ela disse ao dispensá-lo. Mas ele não seguiu seu conselho. Preferiu refugiar-se no trabalho pois muito mais que a ela ele amava o que fazia: maquiar cadáveres, cuidar da morte dos outros.

543. o cara (miniconto)

“Eu sou o cara”, costumava se vangloriar. E um dia ao dizê-lo na hora e no lugar e para a pessoa errada, foi executado friamente.
“Aquele coroa não era o cara!”, repreendeu o contratante ao pistoleiro de aluguel. “ É nisso que dá confiar em amadores”

Ricardo Delfim, Claudio Brites (Editor) e Ademir Pasquale - No lançamento do Contos Imediatos.

Eu, Sergio P. Couto, Roberto Causo, Ramiro Giroldo e Marcello Simão Branco. Na Martins Fontes da Paulista.

18 fevereiro, 2010

542. hai kai n.41

O rio da minha aldeia
Agora corre apenas
Pelas minhas veias

541. o seguidor (the follower)

tuitou antes de ser encontrado morto: estou sendo seguido. se algo me acontecer ( e com certeza vai acontecer) descartem a versão de suicídio. De nada lhe valeu, pois, seu único follower era justamente o assassino.

05 fevereiro, 2010

540. o velho capitão

As águas do rio subiram rapidamente, invadiram as margens e, malgrado os perigos, o velho capitão permaneceu em seu posto encarapitado no telhado enegrecido como seus dentes de fumante secular. Não abandonaria a casa. Afundaria com ela. Aos que tentaram resgatá-lo apontou a carabina. Enxergava neles intenções bucaneiras.

TV CRONÓPIOS H2horas (O Filme)

Minicontos, poemas, pequenos textos... É o que apresenta o filme H2horas do Pipol, na TV Cronópios. Fiz uma ponta. Confiram.

http://www.cronopios.com.br/h2horas/

13 janeiro, 2010


Produção em alta: sairam contos meus no site O Bule e na Cyberzine Terrorzine n.17

04 janeiro, 2010

No lançamento do Contos...

Com o escritor Ademir Pasquale, editor da Terrorzine, zine em que andei publicando umas brevidades

26 novembro, 2009

539. hai cai 40

O caminho só se faz andando
Ensina o mestre
Aos discípulos que o vão carregando

538. hai cai 39

Prova de coragem, exame
Para o curumim
É cutucar enxame

537. hai cai 38

Lua alta
Refletida no rio
Tarrafeio-a.

536. de anjos e demônios (a Ana Maria Shua)

Asmodeus , o demônio regente do sexo, interpôs-se malevolamente entre aquele jovem casal: ora deixava a esposa frígida como a neve das montanhas e com cefaléias enlouquecedoras; ora arrefecia com uma ducha de água fria a excitação efervescente do marido. E assim começaram as brigas que acabariam com aquele casamento se um anjo do Senhor não fosse enviado em seu socorro. Este anjo a quem coube tão nobre missão era leal, destemido e com sua poderosa espada de luz não demorou em despachar o demônio de volta aos domínios abissais de Lúcifer. Era, como o são os anjos, também tão divinamente belo que ambos, esposa e esposa, por ele acharam de se apaixonar perdidamente. Estabeleceu-se aí uma situação no mínimo constrangedora. À distancia, do seu nicho de trevas, Asmodeus se divertia com tudo aquilo. Quem conhece a natureza dos humanos, estes seres imprevisíveis?

535. nó

O grito do gol que não houve atravessado na garganta. Um nó que ele sabia só se desataria depois de tomar duas conduções e quatro branquinhas no boteco lá da vila; ou progressivamente, ao longo da semana, até a próxima rodada do campeonato.

534. realização

Sentindo-se não realizado profissionalmente o chaveiro do bairro baixou as portas do seu negócio e se mandou para a Amazônia. Lá abraçou o Santo Daime. Aprenderia a abrir as portas da percepção.

533. cruzeiro

Cruzeiro para as Ilhas Virgens. Impuseram-lhe: ou dá ou desce. Ela mirou o azul calmo dos Caribe e achou que era tarde para aprender a nadar, então relaxou. E gozou.

16 novembro, 2009

532. 1929

Tarde da noite já, Ariosto Bequimão está só e, meticulosamente, manuseia sua arma: uma pistola cromada, cabo de madrepérola, presente do seu vizinho e parceiro comercial, o Conde Francisco Matarazzo. Desmontar, limpar, lubrificar... para ele é uma espécie de terapia. Ao fazê-lo esquece por alguns momentos dos seus problemas financeiros que o Crack da Bolsa de Nova Iorque não poupara ninguém. Suas mulheres, esposa e amante, já o abandonaram carregando o que podiam. Seus amigos, ou aqueles que se apresentavam como tal quando ele ainda dispunha de dinheiro e prestígio, arredaram pé - só os credores, hienas famintas, não desistem de bater à sua porta.
Ao certificar-se de que a arma está descarregada, Bequimão inevitavelmente lembra-se de sua falecida mãe a adverti-lo para que tomasse cuidado ao brincar com armas. “Superstição”, ri. “Como pode o diabo enfiar um cartucho aí sem que se perceba?”. Não responde. Não é de botar fé em crendices. Descontraído, lembranças de sua vida logo afluem: casamento, viagens, pequenas aventuras, irresponsabilidades... Lembra-se de uma vez ter feito roleta russa com alguns colegas da faculdade. Loucura. Estavam bêbados e riam muito. Felizmente ninguém se machucou. O estampido seco que se ouviu não surpreende ninguém. Aquele seria um ano triste.

531. anéis

Tomou-lhe a mão esquerda fria entre as suas e, disfarçadamente, tentou retirar do seu dedo gordo a aliança de ouro bem fornida, porém gasta pela sucessão das tantas bodas que comemoraram juntos. Se da vida nada se leva, concluiu, de nada mais haveria de servir à sua defunta esposa aquele maldito elo dourado que lhes algemara as almas por meio século. Não conseguindo, lamentou em voz baixa: uma pena. Mas logo reconfortou-o a certeza da existência em algum lugar de uma apólice de seguros acenando com uma revoada de notas de cem, cinqüenta... novinhas. Revirou a casa, quase botou abaixo as paredes sisudas entre as quais procriaram, cresceram e se multiplicaram e envelheceram e nada encontrou. Irritou-se. Blasfemou. Perdeu o que lhe restava de compostura. Deu para acusar a prole pelo sumiço do documento. Ameaçava deserdá-los a todos. Como um imóvel avariado que ameaçasse desabar interditaram-no. Mingou. A aliança delgada frouxa dançando no dedo. À filha solteirona coube o fardo de cuidá-lo. Elisa não se lastima: vive de espera. Seu príncipe tem a cara de Dom Sebastião. Para passar o tempo inventa coisas inúteis como tricotar cachecóis de lã que nunca serão usados naquele sertão agreste onde vivem confinados.

530. dilema

acordou sentindo-se um ser desprezível. E com um dilema: "sou um homem ou um rato?". ao questionar-se assim não ocultava a clara intenção de provocar um terremoto, um cisma que fosse no seu mundinho cômodo, um vendaval que intimasse o seu íntimo a enfim assumir de vez uma personalidade ímpar, sólida, compacta.sem que pudesse se controlar saiu de casa cabisbaixo arrastando o sobrepeso do corpo, os olhos a varrer os desníveis do pavimento de velhas pedras portuguesas e fez ponto no mesmo bar de sempre, o Oráculo. ali, entre a cerveja gelada e a porção generosa de provolone, foi aos poucos se desencorajando de convencer-se a si mesmo da urgente necessidade de aprender, antes tarde do que nunca, a conviver com suas próprias diferenças e com aquela sua cruel e inusitada dualidade.

529. prevenção

diagnosticado que sofria de mal do coração, para prevenir-se de quaisquer sobressaltos, deu para ler edições de jornais da semana anterior. tudo corria muito bem até que descobriu, com óbvio atraso e nenhuma surpresa, o seu próprio necrológio.

528. o fim

O condenado acreditava que renasceria das cinzas do último cigarro do último pedido feito ante o pelotão de fuzilamento. Enquanto fumava, divertia-se com a inquietação do comandante do pelotão que marchava de um lado para outro, mãos para trás, suando em profusão. E alongava seus últimos minutos fumando sem nenhuma pressa.
– Não se afobe Coronel. Eu podia ter pedido um charuto – pilheriou soltando uma baforada. O outro não riu. Apenas ia e voltava. Consumiu-se o cigarro. Resoluto o oficial sacou do sabre e ordenou:
– Preeeeeeeeparar!! Seus comandados juntaram os calcanhares e levaram aos ombros as armas.– Apoooontar!!Apontaram. Quando o enchia outra vez os pulmões para ordenar que atirassem ouviu atrás de si um tropel dos cavalos e uma ordem:
– Cancele a execução, Coronel! Voltou-se. Fez-lhe sombra a figura de um general estropiado com um braço na tipóia. Confuso, sua imediata reação foi perfilar– se e prestar continência.
– É o fim, Coronel – disse o comandante, a voz embargada. – Resta-nos a rendição. Empreste-me sua espada para que... – parecia pedir desculpas – Pois perdi a minha.
– Sim, senhor!
Triste e diligentemente o Coronel embainhou a espada, desafivelou o cinto e entregou o conjunto ao seu superior.

527.hai cai 37

Língua de fora
Gravata rósea
Cão a rigor.

526. hai cai 36

Sem cachorro, no mato
Improvisou na fábula
E caçou com gato.

525. hai cai 35

Cachorros latem com atitude
Em latim vulgar
Por estas latitudes.

524. hai kai 34

Que mais o bicho-homem teme?
Bala perdida, vírus letal, um par de cornos
Ou a patroa todo mês de Tepeeme?

523. zona

Seu time do coração na zona do rebaixamento, a moça da zona azul multou seu carro, sentiu-se indefeso. Zona. Como detestava esta palavra. Na avenida Radial , rumo à Zona Leste da cidade , chorou copiosamente. Como quando era criança chamou pela mãe mesmo sabendo que ela não viria; pois a guerreira estava na Zona batalhando para lhe proporcionar uma vida melhor que a que ela tivera.

522. a arte da guerra

De pijama e quepe o velho general traça estratégias. Enquanto seus netos, após curta trégua, munidos de fofos travesseiros de pena de ganso recomeçam as provocações.

05 novembro, 2009

521. os filhos do rey

Aos seus filhos gêmeos e ciclopes, batizou-os o Rey como Jorge Luis e Luiz Vaz e ordenou que lhes fosse dada esmerada educação que dessa forma se ampliasse a sua limitada visão. Foi lhes ensinado grego, latim e humanidades. Nas duas primeiras áreas ambos se mostraram alunos exemplares; já na última, jamais conseguiram por com sucesso arreios ao seu instinto primitivo, e ficavam fora de controle, principalmente na quaresma, ao farejarem no ar qualquer indício de carne humana.

520. água e fogo

Era pra ser uma missa de corpo presente mas o avião caíra no mar e nem todos os corpos foram resgatados. A idéia de colocar no caixão os objetos de que ele mais gostava – a mala fora encontrada em uma praia - fora da viúva.

Do fundo da igreja, disfarçado, ele assistia a tudo com um sorriso de enorme satisfação sob a barba postiça. Seu plano tinha funcionado perfeitamente. Só lamentava pela camisa do seu time do coração, autografada pelo maior ídolo, relíquia do inesquecível tetracampeonato. Paciência. O fogo do crematório é indiferente às paixões.

519. crustáceo

Na solidão lúgubre do banheiro imundo daquele restaurante chinês do bairro oriental o velho guaiamum imaginava que qualquer sorte que tivesse dali em diante aceitaria como sendo uma bênção, pois já estaria no lucro.

518. casamento coreano

Quando o senhor Kim, funcionário público em Seul, casou-se com a senhora Kim, enfermeira, deram-lhe setenta vezes sete palmadas nas palmas dos pés. Quando ela o deixou para viver com o senhor Kim, vendedor de oratórios budistas, foi muito mais dolorido.

517. morte delivery

O Joystick era um REM HG 600. Como num vídeo-game ele apontou, apertou o gatilho e agüentou firme o coice poderoso da arma. O pássaro de aço atingido em cheio pegou fogo, rodopiou e se espatifou ali no campinho onde ele costumava bater bola com a galera quando ainda era um inocente olheiro. Virou o herói do dia. Era o cara. O chefe do Morro dos Macacos, em pessoa, condecorou-o com a Ordem do Mérito dos Primatas Loucos e Cheirados. Fama efêmera: na manhã seguinte entregaram-no lá embaixo, varado de balas,dentro de um carrinho de supermercado, para causar efeito psicológico no inimigo.

516. o intruso

O intruso não lhe deu esperanças nem adeus e depois de se fartar com o seu corpo continuou a freqüentar todas as noites a casa dos seus sonhos. Para afastá-lo, descobriu um dia, precisava cultivar pesadelos. Neles o monstro encontraria oponentes à altura.

515. figuras de linguagem

Seu corpo era terrivelmente sensível às figuras de linguagem e ele não podia evitá-las. Quando ouvia músicas antigas, por exemplo, seus cotovelos doíam tanto que tinha que tomar doses substanciais de analgésicos para poder agüentar o tranco. Ao pegar-se desconfiado de alguém ou de alguma coisa, invariavelmente se formavam atrás das suas orelhas de abano inquietas colônias de pulga. Nessas horas sentia-se um cão e não um homem. Outra vez, quando ao terminar um relacionamento que lhe parecia promissor e seu par lhe disse para que sumisse da sua vida; sentiu , mais que mágoa ou ressentimento, doer-lhe os glúteos como se lhe tivessem dado um pontapé.

514. reu confessa

Foi em Itacorubi, lá na Ilha, assistindo à Farra do Boi que tive a idéia, que tramei tudo. E não me arrependo não, Doutor. Aquela vaca teve por merecer. Sou assim: quando eu ponho uma coisa na cabeça vou até o fim. E quando me põem então...

513. o homem invisivel

A segurança da Enterprise Co. Fertilizantes estava em primeiro lugar. Tecnologia de ponta com câmeras de alta definição, alarmes e detectores associada a agentes especialmente treinados parecia torná-la inexpugnável. Nada ali, pensava-se, podia passar despercebido; exceto Raimundo, o auxiliar de limpeza, que na sua simplicidade, também não percebia que não era percebido. Todos os dias, inclusive aos sábados, Raimundo trafegava por todos os ambientes daquela fortaleza sempre munido de um balde, detergente, panos, e esfregões, sem deixar vestígios dele ou de outrem – era o seu trabalho. Entrava no ginásio, no refeitório, nas salas onde ocorriam reuniões confidenciais onde eram traçados intrincados planos de ação, e ninguém se dava por sua presença – quem iria dar atenção a um personagem tão iníquo, tão sem importância? E havia ainda outros Raimundos. E eram todos, como ele, seres invisíveis, translúcidos. Um dia Raimundo foi cooptado ( ele não sabia o significado do verbo cooptar) para ser espião de uma empresa concorrente. Os benefícios (tíquete restaurante, passe de ônibus etc. compensavam) E foi quando finalmente o notaram.

512. guam

O velho soldado japonês encarapitado no alto do coqueiro, tem os novos inquilinos da ilha sob a mira do seu fuzil. O vento que sopra do mar desta vez lhe traz fragmentos esparsos, farpas de vocábulos, que ele consegue identificar como sendo na complicada língua do inimigo que ele ouviu quando criança nos cinemas do bairro de Ginza em Tóquio; além do cheiro forte, atrativo, sedutor, das fêmeas (éguas louras) no cio. Mais que ódio sente desejo. Sob os trapos da farda, depois de muitos anos, seu membro desperta e enrijece e esboçava uma reação.

23 outubro, 2009

511. namorada, precisa-se

Não era bonito nem interessante, nem experiente nem rico. Talvez fosse inteligente pois sabia de muitas coisas que os outros não sabiam, e tudo cultura inútil de que se valia sempre para uma coisa: impressionar. Sabia por exemplo a altura do Monte Everest, o hino nacional do Nepal, a capital do Uzbequistão, o lateral direito reserva da seleção uruguaia na copa de 50... Não sabia no entanto quem era seu pai, nem que fora adotado ou que comeu de sobremesa no almoço. Mas com isso não se importava; o importante é que tinha um objetivo, um propósito, ou nas suas próprias palavras, uma missão. E precisava mostrar que era capaz do sacrifício que se exigia para cumpri-la. Em suma precisava arranjar uma namorada. Não virtual, que já às tinha às pencas. Nem imaginária, pois sua imaginação tendia ao perfeccionismo fortemente influenciada pelo cinema e era bem capaz de idealizar uma super-modelo. Precisava mas era de uma namorada real, de carne e osso, que chorasse e risse, menstruasse quinzenalmente e morasse no mesmo bairro para que não precisasse ir longe demais pedalando sua velha bicicleta já que tinha fobia de transporte público.

510. o osbtinado

Rudolph H. planejou meticulosamente por anos a fio como cruzar a temível cortina de ferro que vergonhosamente dividia o seu país. Entusiasmado e esperançoso, sonhava todas as noites com a aquela façanha cuja consecução com êxito seria por assim dizer a coroação justa dos seus desmedidos esforços. Quando finalmente elaborou o plano perfeito, Eles vieram e derrubaram o muro. Rudolph foi abaixo junto.
Tempos depois, porém, resolveu que não devia entregar os pontos assim tão facilmente. Convicto de que tal afronta ao seu sonho sem dúvida exigia uma devida reparação, Rudolph entrou com uma petição junto ao Ministério da Justiça do seu país. A burocracia daquele órgão público, porém, tem-se mostrado um empecilho de proporções quase instransponíveis. Vencê-la, superá-la, é agora a razão de viver de Rudolph, o obstinado.

509. sodade

Ouvia no radinho de pilha Saudades de Matão, mas sentia mesmo era saudade de Santa Ernestina, que ficava logo ali adiante.

508. fragmentos

O peito apertado, o nó na garganta...Queria explodir, estilhaçar-se, fragmentar-se em mil pedaços. Via diante de si naquele ocaso melancólico não o mar de Copacabana físico e real , mas um oceano revolto de impossibilidades. Tudo porque sempre fizera escolhas ruins e andara – para o desespero dos pais – em péssimas companhias. Agora já não tinha os pais a se acharem no direito de opinar sobre sua vida; todavia tinha impressão, quase certeza, de que andar consigo mesmo já era um péssimo negócio.

O desânimo que nem ao menos lhe empurra ao parapeito. Os dedos enrijecidos pela artrite agrilhoados perpetuamente em anéis. Os brincos de jade, as roupas de grife, os 120 pares de sapato, o violino de cordas arrebentadas... Dos objetos inanimados cuja função resume-se em domar sua compulsão perdulária e preencher seus vazios, o vaso chinês - vítima de bala perdida seus cacos se espalhavam sobre o tapete persa - era o que mais invejava.

507. no meio da noite

Telefonaram no meio da madrugada, ele atendeu sonolento e, do outro lado, lhe avisaram que ele tinha sofrido um grave acidente no cruzamento da rua tal com avenida tal. Sem ao menos trocar de roupa ele simplesmente pegou seu carro e dirigiu-se à toda para o local sem respeitar semáforo ou sinalização. No cruzamento da rua tal com a avenida tal havia um orelhão escarlate em cuja concha de acrílico se escondia o rosto de um corpo bem definido de mulher que ele não pode identificar pois, justamente nessa hora, perdeu o controle do carro.

506. nobre concisão

o Conde chamava-se Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans e Saxe-Coburgo-Gota. resumiu-se conciso: assinava d’Eu.

09 outubro, 2009

505. hai kai 33

girafa, menino
É periscópio
Sem submarino

504. função

funcionário fantasma, recebia e nunca aparecia na repartição. sentia-se um completo inútil até que decidiu escrever: virou ghost writer.

503. 25 de março

Choveu canivete aquela tarde. Suíço. Mas, olhando bem, verifiquei que eram apenas cópias bem feitas. E olhando melhor, certifiquei-me, não estava chovendo: a Federal é que dava um rapa nos últimos andares da tradicional Galeria Pajé justo quando eu passava lá embaixo.

502. metáfora

Era reconhecido mundialmente como um mago da genética. Ao manipular o tecido das vísceras para dar forma ao órgão propulsor e vital materializou a metáfora: Fez das tripas coração.

ANTOLOGIA CONTOS IMEDIATOS




Foi marcado o lançamento da antologia de ficção científica organizada por Roberto de Sousa Causo, chamada Contos Imediatos. Será em 28 de novembro de 2009, das 15h00 às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509.

Os autores são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso e Tibor Tibor Moricz.
P.S. É a minha estréia em livro.

28 setembro, 2009

501. speranza

Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.

501. speranza

Alimentava a esperança de que sua amada, que o havia deixado por outro, voltasse para os seus braços. Aí aconteceu o terrível acidente em que perdeu os braços. Nem tudo estava perdido, disse. E ergueu a cabeça. Pelo menos ainda lhe restara aquela esperança para que desse de comer. As esperanças, como se sabe, não cantam como os pássaros nem são tão fiéis quanto os cães mas duram bem mais. E só depois que ele se foi é que ela, a esperança, finalmente morreu.

500. são francisco

na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.

500. são francisco

na proa do velho gaiola abandonado a carranca desdentada se assusta com as peripécias do espírito do rio morto.

499. licantropo (hombrelobo juvenil)

Todas as noites antes de dormir, Jordi, o ambidestro, costumava trancar-se no banheiro da casa dos seus pais com sua coleção da playboy e praticar aquilo a que vulgarmente chamam de vício solitário. Um dia, ele, que era ainda um garoto imberbe, percebeu com assombro que pelos negros e grossos brotavam-lhe abundantemente das palmas de ambas as mãos. Sem saber bem ao certo o que fazer, foi ter com um amigo mais velho que lhe explicou que aquilo se dava quando alguém se excedia na prática do tal vício. e que ele devia maneirar.

foi com lágrimas nos olhos que Jordi voltou para casa e se desfez da fonte da sua inspiração. mas de nada adiantou; àquela altura o seu imaginário pornográfico estava solidamente consolidado e ele não conseguia mais se controlar.

Hoje, cinquentão e solteiro convicto, a imaginação já não tão fértil, Jordi ainda pratica esporadicamente o vício. Às vezes, quando lhe sobra algum ou ele ganha no jogo do bicho, vai às vias de fato: aborda e arrasta alguma dessas vagabundas do calçadão para um período de três horas no Lua Cheia. Naquele hoteleco cabeça-de-porco na Praça Carlos Gomes, segundo contam as tais meninas, na hora de gozar, ele costuma entrar em terrível e repulsiva convulsão e baba e uiva - mas paga direitinho.
Versão para o Espanhol:
Todas las noches antes de acostarse el ambidestro jordi costumbrava cerrar la puerta del cuarto de baño de la casa de sus padres y hojear su colección de playboy. A el como a cualquier adolescente le gustaba estimular los genitales y abandonarse al vicio solitario. No se demoró mucho para que él, aún un chico imberbe, descubrise con asombro unos pelos negros y gruesos a brotabarle en las palmas de las manos. sin saber exacto bien lo que hacer, lo contó fué tener con un amigo más viejo que le explicó que eso se daba por el exceso de práctica y que él debia disminuir el ritmo .

Sin otra salida, ojos llenos de lágrimas, Jordi se volvió hacia a la casa muy triste y si deshizo de la fuente de su inspiración. Todavia, eso de nada le servió; ya que su imaginación pornografica estaba muy bien definida y el no tuvo más como parar.

Hoy, cinquenton y soltero por opción, la imaginación ya no tan fértil, Jordi no obstante aun practica esporadicamente el vicio solitário.Sin embargo, cuando ahorra alguna plata o la gana en el juego del bicho se acerca y arrastra sin piedade a una de esas vagabundas del acero para un periodo en un hotelito de mala muerte en la plaza Carlos Gomes llamado Luna Llena;
Alli, según las chicas, en la hora del gozo él empeza terrible convulsión. De su boca mana espuma amarilla y aúlla terriblemente como se fuera un monstruo herido de muerte - todavia les paga bien.
*. publicado no site: http://www.contosgrotescos.com.br

10 setembro, 2009

498. chá de sumiço (a Belchior)

Sumiu. Ninguém deu por ele pois não fez falta. Aliás, há tempos não fazia falta. Que se recorde desde que era zagueiro do Terrão F.C. em Sobral na década de Setenta.

497. síndrome de tcheckov

Anton era um médico competente e um escritor extremamente criativo; mas nas cantadas – atentem - era simplesmente um fracasso. Quando a dama passou com o cachorrinho em frente à janela do seu consultório àquela tarde ele saiu-se com esta pérola:
"É muita areia para o meu caminhãozinho!"

496. contatos

Que não lhe viessem com estórias de contatos imediatos. Um homem de ciência precisa ter antes de tudo paciência e perseverança. Como podia ser imediatista se vinha tentando se comunicar com os venusianos há pelo menos quarenta anos?

08 setembro, 2009

495. engarrafamento

Não tem como escapar. Nem há atalhos que possam servir de rota de fuga que as veias e vísceras da cidade estão todas congestionadas. É uma loteria: a cola passa de mão em mão e eles se animam e vem e escolhem uma fêmea desprotegida no flanco exposto da manada. E atacam. Os olhos infantis de bandido vidrados, injetados, estouram com naturalidade o vidro com insufilme e coletam o que lhes parece valer alguma coisa: a bolsa de grife que é uma imitação perfeita da que vendem na Daslu; o celular no console que é verdadeiro; os seios macios, que tocam curiosos, e que são falsos.

494. e agora?

José riu por último. Quando a festa acabou e todos já se tinham ido. E não riu melhor pois ria de si, do seu próprio ridículo e assumia o fato de que era uma piada. Então chorou. E só então sentiu-se melhor.

493. tigresa

Saiu vestida para matar. Encontram-na morta. E despida.

02 setembro, 2009

492. sushi erótico

reencontrei-a anos depois - nua e crua - naquele restaurante japonês da moda.

491. hai kai n.32

Na transpanteira
Fartam-se as formigas
Com o Tamanduá-bandeira

490. hai kai n.31

Nuvem em forma de elefante
De tarde, com certeza
Tromba d’água.

489. hai kai n.30

Volto à primeira escola
O pátio antigo - parece
Encurtou

488. hai kai n.29

Granizo estala
no teto de zinco
Carnaval em Julho

487. hai kai n.28

Ausentes as nuvens
A imaginação da menina
Pousa numa pedra.

26 agosto, 2009

486. hai kai n.27

Perco os cabelos
Desemaranham-se
Meus pesadelos

485. hai kai n.26

Nos ilumina
Lanterna japonesa
Made in china

24 agosto, 2009

484. a proposta

Dorme e queima lata na própria obra. Faz economia. Cada centavo ganho cá lá no Norte vale o triplo. Domingo quase não sai. Não bebe, não fuma, apenas poupa, guarda. E guarda-se para Rosa que ficou lá em Novo Oriente, esperando-o para o fim do ano.

Do vigésimo andar obra tem vista privilegiada. Pode dizer que conhece São Paulo. De vista.

Agora os crentes deram de aparecer nos finais de semana. Sobem, distribuem revistas, versões de bolso do Novo Testamento, convites para o culto, oram, cantam cânticos.

O pastor é de uma cidade lá perto da sua. Fala empolgado, com desenvoltura, quase sem sotaque. Cita de cor os Evangelhos. Pede contribuição.

Ontem veio novamente. Tinha os olhos injetados e disse estar possuído pelo fogo do Espírito Santo. Tinha uma proposta. Ali mesmo no parapeito apontou para as centenas de minaretes de concreto erguidos por outros tantos conterrâneos que os precederam. “Assim como ao povo de Moisés coube erguer as pirâmides do Egito”, disse.

“Ajoelha-te e me presta adoração!”, disse o pastor. “E tudo isso será teu!”

Na sua simplicidade não pode entender que o homem recitava um versículo emprestado da Bíblia. Bíblia que jamais havia lido. Aliás, nunca havia sido capaz de juntar as letras, de aprender a ler.

Intuiu, pressentiu, porém, quão malévola era a proposta. Quando a esmola é demais, dizem lá na sua terra, até o santo desconfia. Não queria tanto. Queria apenas juntar um bom dinheiro e voltar para Rosa. Só isso.

“Meu mundo não é deste reino”, desculpou-se. E saiu. O outro quedou-se perplexo, boquiaberto, sem argumento.

Desceu. Lá embaixo sentiu-se pequeno, oprimido, um inseto. Na esquina salvou-o um bar aberto. Fazia frio. Entrou. E depois de cinco meses abstêmio, pediu uma pinga.

483. dos Insetos

Era uma vez uma borboleta chamada SunTzu que, em um café da moda, conheceu uma barata chamada Gregor Samsa. Entre um chá e um café expresso, entabularam uma animada conversa e descobriram interesses comuns: livros, vinhos, charutos, belas mulheres, música clássica... Mas como tudo é efêmero e superficial nessa vida de inseto, entre baforadas espessas o sonho logo se dissipou: Sun Tzu voltou a vender pastel na feira aos sábados; e Joseph K a cuidar da sua lojinha de miudezas no Bom Retiro.

12 agosto, 2009

482. cinismo

"Meu cliente não explora o trabalho infantil", explicou o advogado do usineiro: "São homens-gabirus. Não crescem mais que 1,60 m. Não viu no Fantástico?""

481. bilhar

Nódoas. Manchas esbranquiçadas a macular o verde do feltro. Porque, taco em riste, encaçapei-a ali mesmo, na mesa de bilhar.

480. siameses (homenagem a José Luis Peixoto)

Elias precisava apenas ficar só consigo mesmo, mas Moisés, seu irmão, não desgrudava dele.

479. Amores

Meu ex se foi carregando meu desprezo e o seu desleixo. Meu atual, arqueólogo (talvez por isso goste de mulheres mais velhas), mais organizado, tem outras manias. Outro dia fez uma descoberta surpreendente: uma cueca posta há séculos para secar atrás da minha geladeira. Dedica-se agora a estudar sua origem e procedência.

05 agosto, 2009

478. juramento

Em visita ao Cemitério de Arlington descobriu que tinha ali quinze homônimos seus. Jurou pela alma deles que ia desertar.

477. paz

Os soldados de ambos os lados do conflito interrompem excepcionalmente os combates àquela tarde para assistir pela TV à final do campeonato de futebol. O mundo comemora um momento de paz em meio à guerra encarniçada. Aos quarenta minutos do segundo tempo, porém, o jogo é cancelado por causa da violência incontrolável das torcidas organizadas.

476. milagro

06:30 min. Mens insana in Corpore Sano, invento de fazer cooper na Praça Barão de Japurá. Deus surpreende quem madruga e sou abençoado com um milagre: o mendigo cadeirante que habita o playground levanta-se e anda. Em direção ao bar.

475. minuto de silêncio

Antes que a bola rolasse, o árbitro bigodudo de olhos insanos determinou que se fizesse um minuto de silêncio pelo grande cartola que se intitulou um dia senhor de ambos os tempos regulamentares, intervalos e prorrogações. Como ninguém confirmou a notícia de que Deus estava realmente morto, corpulentos agentes do manicômio de Munique invadiram o campo e lhe puseram ao árbitro uma camisa de força.

474. luuanda (homenagem a José Luandino Vieira)

Dentro da cubata*, nos furos do zinco, coxo João Gonçalves espia lua que caminha no céu e ri. “Lua anda”, encanta-se o coxo. “Luanda". Sakua!** Aluado este monandengue!*** Via também lua andar quando pisou mina ali mesmo, no lixão, próximo ao musseque****. Bum! Lua ficou encarnada sangue dele.
cubata - barraco
sakua! - Eita!
monandengue - criança, moleque
musseque - favela

04 agosto, 2009

473. hai kai n.25

a algarávia cessa
os trovões de abril
respeito

472. hai kai n.24

léguas adiante
na encosta cíclope
chora um olho d'água

471. hai kai n.23

sem encontrar resistência
o sal da maresia
corrói a vontade dos canhões

470. hai kai n.22

o bambuzal vibra
ao sabor do vento
e desorienta os morcegos

469. hai kai n.21

à deriva
sonha com o deserto
a agua-viva

468. presença

Estava no Orkut, no Twitter, no Facebook, nos mais recônditos sítios do cyber-espaço, e fisicamente já não estava entre nós. Reduzido à mínima unidade virou um holograma.

467. janelas

Ao despertar abriu a janela que percebeu dava para outra janela que já estava aberta e que dava para uma terceira através da qual via mais uma, escancarada, onde outra se encaixava qual moldura de um quadro com uma janela em close, entreaberta, onde sua vista já então se perdia. Fechou os olhos, bafejou, abriu-os novamente e, como supunha, as vidraças daquelas janelas todas se tornaram baças. Só então ensaboou o rosto e começou a fazer a barba que lhe crescera durante a noite.

466. pacto

Conheceram-se em um lugar inusitado: um hemocentro onde foram se oferecer como doadores. Foi, como dizia o bardo porralouca, uma paixão cruel, desenfreada. Até cogitaram um pacto de sangue, mas acharam melhor deixar pra lá pois concordavam que em tempos de crise deve-se evitar toda espécie de desperdícios.

465. david

Da janela do hotel em Bangcoc o velho ator estranhou mesmo que o dia tivesse nascido cinza. E que as coisas todas do mundo com exceção das túnicas alaranjadas dos jovens monges que cruzavam a praça estivessem em mil tons diferentes de cinza. Seus olhos estavam cansados. Suas pálpebras pesavam como os sinos de um templo e no entanto tudo que ele via movia-se sem que lhes ouvisse o som. Considerou que também a ele lhe faltassem as palavras . Logo escureceu. Lanternas opacas pontilharam a noite. E quando o velho ator já não mais esperava, de uma viela estreita ou de dentro dele mesmo, do rio que se esgueirava qual serpente logo adiante ou do sorriso bonito das moças que distraiam os turistas, veio um acalanto antigo, morno, que não lhe era estranho:

“Descanse, gafanhoto! Descanse!”, ouviu, quando já se acreditava privado de qualquer sentido.

27 julho, 2009

464. agente laranja

As folhas caíram todas tristes. E não era sequer outono ainda no Vietnam.

463. o dom que deus lhe deu

O desenhista técnico pericial do Departamento de Investigações de Crimes contra a Família, Xavier M, era um apaixonado pela sua profissão; mas vez por outra via-se surpreendido com sua própria habilidade com o lápis e as possibilidades ainda não exploradas daquele dom que Deus lhe dera. Aquela manhã, antes de ser detido pela corregedoria, seguindo as descrições feitas pelas mulheres que tiveram coragem de fazer a denúncia, desenhou a mão livre o rosto do homem que as estuprara. Era um auto-retrato. O mais perfeito que jamais fizera.

462. diferencial

Era um pobre diabo. Para sobreviver postava-se imóvel na praça logo cedo vestido e maquiado de anjo, os cornos disfarçados sob uma peruca loura encaracolada. O rabo em seta, inquieto, às vezes lhe escapava sob a túnica e despertava a curiosidade dos passantes - era o seu diferencial com o crescente aumento da concorrência.