16 abril, 2013

Sodoma e Gomorra (conto curto)

Na volta do trampo, tão cansado estava que não percebeu o olhar de pena e de maldade dos vizinhos. No barraco vazio, a comida fria na mesa, mas nem sinal dela.  Lá  acima o funk rolava solto.

De madrugada, ela voltou trançando as pernas roliças e caiu na cama feito uma pedra.

Cheirava a álcool, erva,  sexo, perfume, suor...

Ele ainda acordado, fumava.  
 
Ela ressonava quando Ele  apanhou a mochila e o pandeiro que ainda lhe dava alegrias. Sem pressa espargiu álcool sobre pelas paredes, riscou outro fósforo e desceu a viela.
Lá embaixo, já no asfalto, parou e ficou assistindo  o espetáculo do fogo se alastrando, devorando tudo. Tamborilava o instrumento mas não demonstrava apreensão.
 “Nero?”, alguém tocou seu ombro.
 Voltou-se. Era o Biro, um chegado. Ex-traficante ali mesmo no morro, agora convertido em Pastor da Igreja do Povo Eleito. Decerto de volta do culto.
“Que tu faz na rua a esta hora, homem de Deus? Procurando a Jane?”
 Nero tirou uma baforada, olhou o clarão lá encima, fechou o pulso e tossiu seco. Era um sujeito calado, reservado. Costumava guardar para si seus problemas o que na maioria das vezes, lhe fazia muito mal. Mas naquela situação, excepcionalmente , sentia-se bem. Muito bem. Bem até demais. Continuou tamborilando o pandeiro.

Premiação do I Concurso de Contos do Bunkyo - 26/03/2013

Cerimônia de Premiação do I Concurso de Contos do Bunkyo - 26/03/2013 - No qual o meu conto Um Noivo Para a Filha do Senhor Murakoshi  conquistou o terceiro lugar.

http://www.bunkyo.bunkyonet.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1628%3Aconcurso-bunkyo-de-contos-um-encontro-de-homenagem-aos-premiados&catid=98%3A2013&Itemid=122&lang=br







22 março, 2013

Lendas Urbanas - Editorial Llyr

Meu conto "Loira", é um dos classificados para compor a antologia Lendas Urbanas da Editora Llyr.

08 fevereiro, 2013

Conselho

Se beber, não dirija. Digira.

Tarefas (miniconto)


- Descendo, todo santo ajuda – queixou-se Sísifo empurrando a pedra morro arriba – Não é o meu caso.

 -  É a tal da Lei da Gravidade. Coisa dos homens  -  opinou Baco, a quem Zeus havia concedido uma tarefa bem mais fácil: empurrar bêbado em ladeira.

07 fevereiro, 2013

I CONCURSO BUNKYO DE CONTOS - Resultado

Uma boa notícia hoje. O reconhecimento pelo meu trabalho.


Resultado final do I Concurso Bunkyo de Contos ( em que concorreram 184 contos)

1º lugar: o conto "Duas cenas, um muro?, de Célia Sakurai (São Paulo-SP);

2º lugar: o conto "Ipês brancos", de Camilla Ferreira (Brasília-DF);

3º lugar (empatado): o conto "Corrente fria, corrente quente", de Fernanda Caldas Fuchs (Curitiba-PR)

3º lugar (empatado): o conto

"Um noivo para a filha do senhor Murakoshi", de Francisco Pascoal Pinto (São Paulo-SP)


04 fevereiro, 2013

Stand-up Comedy (miniconto)

Era o chefe aparecer e todos ficavam atentos. O velho descobrira sua veia cômica. Velhas anedotas, contadas de pé, arrancavam risadas aos bajuladores.

Nanocontos do Facebook (50 caracteres)


1 . Olhos bovinos, guiava turistas pelo labirinto de Creta

 

 
2 . Cego de paixão, visitava-a no Museu. O coração dispensa guia.

27 dezembro, 2012

Halloween (miniconto)

- Na verdade são  para o meu avô – disse o garoto fantasiado de Chuck, o boneco assassino.
 
- O velho  gosta de doces, eh?

 - Adora. Mas Vovó o proíbe de comprá-los. É diabético.

Tons de Cinza (miniconto)

Haviam se conhecido nas sessões semanais dos D.A (Daltonicos Anônimos). Apaixonaram-se perdidamente e quando, como era natural que acontecesse, fizeram amor,  ao atingirem o êxtase supremo do orgasmo, o universo que os congregava explodira qual fogos de artificio  em milhões e milhões de cores incandescentes.
Quando anos depois, como também era natural que  um dia acontecesse, aquele amor se desgastou, e eles faziam amor automática e esporadicamente, e apenas por convenção e obrigação, o gozo vinha ralo, opaco, desbotado. Era uma questão de tempo para que tudo voltasse ao processo cromático inicial, aos antigos tons de cinza que tingiam a sua realidade.
 

27 novembro, 2012

haicai


Girassol Quem fez-te
Do astro-rei a semelhança?
Deus Pai ou Vicente?

Segunda Chance (conto)

Todo dia o paraplégico Agostinho ia à beira de um enorme precipício com a firme determinação de que dali se atiraria para acabar com a sua vida – algo que não pedira, fardo que tanto o incomodava -  mas nunca encontrava a coragem necessária ao cumprimento do que se propunha. E limitava-se a chamar a plenos pulmões a si próprio de covarde e ouvir o irritante eco, lá embaixo, nos socavões.
“Covarde! Arde! Arde! Arde!  Arde! Arde! Arde!”
Um dia – havia chovido muito na noite anterior – ele aproximava-se da borda do penhasco para mais uma tentativa de suicídio  quando  escorregou e despencou pela encosta acidentada entre pedras e espinhos.
Foi uma queda e tanto. Ossos fraturados, traumatismos, hematomas...  e ele ainda vivo, que vaso ruim, como dizem, não quebra. Apesar de tudo isso não conseguiu o que queria.
 Agora o tetraplégico Agostinho faz da língua uma lâmina. Vive de aporrinhar a enfermeira contratada por seus parentes para cuidá-lo, para que empurre sua cadeira de rodas e deixe-a deslizar outra vez penhasco abaixo. Quer por que quer uma segunda chance. Mas a enfermeira, sábia, tem a percepção de que os tempos andam difíceis e que se fizer o que ele lhe pede ficará desempregada. E em contrapartida redobra os cuidados.

Conto da Purificação


 

Poema da purificação


Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.


Carlos Drummond de Andrade
 

O primeiro corpo, encontraram-no uma bela manhã de sol forte enganchado num galho da velha ingazeira que, qual um braço esguio parcialmente submerso, movia-se em nervoso ritmo tocado pela corrente. Misericórdia vegetal para com o cadáver. O braço da ingazeira piedosamente o recolhera.

 “Um menino!”, afirmaram uns. “Uma menina”, contestaram outros. Como quando um ser vem ao mundo e é dado à luz. Tinha  a idade em que as diferenças entre meninos e meninas são quase imperceptíveis. Por isso mesmo o pomo de discórdia..

 Morto, morta. Disso todos tinham certeza.  Afogamento, era a causa mais provável.

 Samaritanos prestos logo acorreram: As lavadeiras, os pescadores... E os inevitáveis curiosos, gente desocupada.

 À força de vigorosas  remadas a canoa encostou, e a criança foi recolhida. O processo de putrefação ainda não se fazia sentir. Hematomas azulados marcando a  pele branca como o leite, talvez provocados por colisões contra as pedras em um trecho anterior do rio conhecido como porto das pedrinhas. Nas omoplatas, dois talhos enormes. Fendas abertas na carne que ninguém conseguia explicar.
Convocassem o vigário.
 
 A igreja lá no alto. O galo do campanário tocando com sua crista rubra o céu.
 Um rapazola de pernas rápidas  galgou as pedras que martirizavam penitentes. Pela urgência esmurrou as grossas portas chamando por frei António.
 Inútil. Que surda é a luxúria. Insolúveis  os mistérios gozosos.  Encerrado na sacristia, os santos encobertos, o  padre sucumbia à tentação da carne tenra.
 O rapaz não se deu por vencido e tangeu os sinos desentocando do covil o lobo.
O que o biltre viu em seguida, a ninguém foi dado ver. E tudo aconteceu por mais seis vezes. Para cada inocência perdida nas mãos de frei Antonio  o rio trazia um novo anjo morto.
Intimamente o culpado quis se enforcar na corda do sino. Quis atirar-se da torre da Igreja. Quis misturar veneno ao sangue de Cristo. Não achou coragem.
 Seus dias estavam contados. E seu nome inscrito já na caderneta negra dos impuros.
 Ao entrar a quaresma,  acometeu-o estranha moléstia. Secou. Havia ainda o desejo, a ânsia, os apetites sórdidos, mas o corpo os rejeitava. E frei António padeceu entrevado por dez anos, sob o olhar do arcanjo São Miguel. Nem quando roubaram o santo para que a estiagem cessasse, ele sentiu melhora.
Um dia, simplesmente, desapareceu. Um buraco escuro tragara a casa paroquial  levando-o junto. Um buraco como uma boca abissal faminta  e escancarada  que ninguém conseguiu vedar.

Mais um título para Éder Jofre - Antologia

Participo com um conto intitulado "A Aposta" desta antologia em homenagem ao nosso maior Campeão de Boxe: Éder Jofre.
E aí, vai encarar?? 

12 novembro, 2012

haicai

De olhos de coruja
Que conjuram dentro da noite
Há quem não fuja?

Bodas em Guan Dong (conto)

A união matrimonial de Dao Lei e Chiang Han foi acordada com tradicional cerimônia budista e farta ceia promovidas pela viúva Ping, mãe do rapaz, juntamente com o senhor e a senhora Han, os pais da moça. Conquanto não se conhecessem pessoalmente, não se amassem e pertencessem a uma geração mais liberal que dos seus pais, não houve qualquer resistência ou oposição da parte dos jovens - nem poderia ser diferente, já que ambos haviam morrido em circunstâncias, lugares e datas distintas, cerca de dois anos antes.

Povoado (poema)

Era uma rusga na serra, um lugarejo, um lugar ermo
A meia-légua a pé do nada - para um obstinado penitente andejo
Fim de mundo e abrigo para fugitivos
Quilombo-abrigo para ex-cativos.
O seu fio tênue d’água rio não perene não era o Tejo
Tampouco um brejo
Ou açude que acudisse súplicas e preces.
Mas era o que lhe cabia.
Era só um povoado acanhado a se despovoar de vivos
Há – dizem - qualquer referência a ele nos velhos livros ilegíveis
Da antiga Freguesia de Nosso Senhor do Bonfim.

O Suicida (conto policial)


Quando do passamento do interno Audálio Olvedo, a causa mortis, segundo o médico do próprio Sanatório F. Nietzsche, deveu-se a uma otite aguda causada por severa ação bacteriana.  Ninguém ousaria contestar o laudo oficial daquele profissional respeitável,  mas Honório Bustos Domecq, companheiro de quarto e adversário preferido do  morto em memoráveis partidas de xadrez, sustentava a versão de suicídio.

 

- Para que se resolva este caso, senhor – opinou Domecq dirigindo-se ao  diretor da instituição de recuperação de esquizofrênicos -  precisamos antes descobrir quem fez facilitou a entrada de uma pistola nesta casa.

 

- Uma pistola. O que o senhor quer dizer?

 

- Quero dizer que  a vítima, por alguma razão, foi induzid a disparar contra o próprio ouvido.

 

O Diretor não se alterou.  Para ele não era novidade que  o paciente Jorge Luis Borba assumisse a personalidade de detetives imaginários, de personagens consagrados pela ficção policial. Um dia era Marlowe, outro podia ser Maigret. Às vezes acordava Sherlock Holmes e dormia Inspetor Espinosa. Era a sua mania.  Por causa dela era que vinha sendo, sistematicamente , ao longo dos anos, sempre que as crises se acentuavam, recolhido àquele manicômio. O momento, a ocorrência do óbito em si, também colaboravam.

 

Experiente o Diretor sabia dos riscos de contrariar os delírios de um interno e, sendo ele próprio um aficionado aos romances de detetive,  achou melhor fazer o jogo.

 

- Ok, Domecq. Ordenarei uma busca. Quando localizarmos a arma a encaminharemos à pericia técnica. Quem sabe descobrindo em nome de quem está registrada possamos chegar ao mentor do crime.

 

- Adianto porém que já localizei a arma, senhor.

 

- Já? Quanta presteza, rapaz! E a trouxe consigo?

 
Quem depositou sobre a mesa de carvalho  diretor aquela pistola d’água de plástico transparente com detalhes verdes, e tinha nos lábios um sorriso triunfante, não era o interno José Luis Borba -  mas Honório Bustos Domecq, um dos mais perspicazes detetives do gênero literário policial.

haicai

Sol a pino arde
Bicho-preguiça espreguiça-se
Acordou tarde

haicai

A melancolía
É como cólica – de tanto comer
Melancia