16 setembro, 2008

336. Elvis

Antes de morrer, Adalberto, o taxista, chamou a esposa e confidenciou-lhe um último segredo:

“ Elvis não morreu”

“Grande novidade”, ela disse.
“Esperava que me contasse que me traía com a Cida Cabeleireira, aquela vaca”

Ele riu e tossiu e pediu calma – a voz era um fio. Nem sombra do vozeirão que jurava ter tido.

“Você não bota fé, não é? Mas eu posso provar”

“Provar o que?”

“Que Elvis não morreu, ora!”

“Está bem, homem. Vá lá, prove”

Adalberto fez uma pausa e revelou-lhe:

“Eu sou Elvis, Marilda. Elvis Aaron Presley”


Marilda não queria acreditar mas rendeu-se quando ele lembrou-a de como, com aquele peso todo, conseguia fazer o diabo com os quadris. E e de como quando, no meio da noite, sonâmbulo, costumava se expressar em inglês fluente com sotaque do Tennesee, assustando-a .

Como veio parar em Santo Inácio do Pinhal, no entanto, nem ele próprio conseguia explicar; já que por aquele tempo, admitia, as drogas pesadas é que estavam no comando dos seus atos.

Diante dos olhos mareados da esposa, ele finalmente entregou os pontos. Descansou. E ela,como sempre fazia, às vezes por pirraça, e para não perder o costume, contrariou-o:

“Você estava errado, Adalberto. Totalmente equivocado. Elvis está morto, sim. Mortinho da Silva”

27 agosto, 2008

335. hai kai n.7

de cabeça para baixo
o morcego soletra
inscrições rupestres

334. hai kai n.6

sapinho degusta
um mosquito da dengue
seu dia de herói.

333. hai kai n.5

sem encontrar resistência
o sal da maresia
corrói a vontade dos canhões.

332. hai kai n.4

o bambuzal vibra
ao sabor do vento
e desorienta os morcegos.

331. hai kai n.3

estendido ao pé do ipê
o tapete de flores
recebe com honras o mendigo.

330. hai kai n.2

sombra no muro de arrimo
pantera ?
um gato - seu primo

329. hai-kai n.1

gaijin se esforça
capricha na letra
kanji invertido

328. as pernas do general

Por vinte e cinco anos e cinco dias as pernas compridas do general Tiburcio marcharam inseparáveis, na mesma disciplinada cadência. A esquerda, destemida como o dono à época, cedo o deixou a coxear: descuidada pisou numa mina anti-pessoal, se estraçalhou toda e virou lenda; já a segunda perna, cautelosa mas na definição de alguns covarde, decerto traumatizada pelo destino trágico de sua incauta irmã, não justificava a parte da calça que lhe cabia. Dedicou sua existencia ao amparo do dono. Desnecessario dizer que envelheceu com ele e sustentou resignada sua débil carcassa. Foi enterrada com ele com honras de heroi no mausoléu dos veteranos.

14 maio, 2008

327. reconstituição

aquele perito era um bom profissional mas exageradamente perfecionista. fato é que na reconstituição do crime o assassino, primário, acabou por tornar-se reincidente.

326. obra-prima

sexo masculino, vinte e quatro anos, classe média, condenado a três anos por falsificação (falsidade ideológica). o curso superior, porém, lhe dá direito a cela especial (o diploma da USP em letras góticas, orgulha-se, é sem dúvida o seu melhor trabalho).

12 maio, 2008

325. superpoder

o menininho rezava toda as noites pedindo que lhe fosse concedido pelo menos um dos poderes do super-homem. cresceu, desiludiu-se: virou prático de raio-x em um hospital público.
1º lugar no Concurso de Microcontos do site Papo de Quadrinhos (Abril/2009) http://papodequadrinho.blogspot.com/

324. cara e coragem

contava com exacerbado orgulho e à guisa de exortar os filhos à luta que viera e vencera com a cara e a coragem. não tinha coragem porém de confessar que mudava de cara sempre que os fins, por pérfidos que fossem, o justificassem.

323. a espiã de mil faces

capturada a agente do serviço secreto do vaticano, o inimigo não perdeu a chance de esbofeteá-la. e ela, fiel aos seus principios cristãos, como era de se esperar ofereceu-lhe a outra face, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra...

02 abril, 2008

322. o pequeno deus

faça-se a luz, ordenou prepotente como sempre o pequeno deus. sua voz de trovão de sonoplasta de radio-novela ecoou dentro da escuridão da casa, agrediu as paredes forradas por retratos antigos da familia, mas não surtiu o efeito esperado.
.
faça-se a luz! porra! repetiu irritado pressionando com força a verruga do interruptor que sabia onde se encontrava mesmo que estivesse de olhos fechados. e nadica de nada de luz .

desolado o mini-deus desabou sua obesidade sobre o sofá puído da sala cujo estofamento seu velho costumava torturar fincando sádico pontas de cigarro na esperança vã de arrancar-lhe confissões intimas de tempos imemoriais quando vivia a suspeitar que, sobre o maldito recheio de espuma, sua defunta mulher o traía com o açougueiro também já há décadas desencarnado.

daquele ponto à ínfima divindade foi concedido perceber que, na fina restia de claridade horizontal proveniente das lampadas de mercúrio que iluminavam a avenida lá fora e vazava a preencher a fresta, havia algo enfiado sob a porta que à sua passagem, minutos antes, talvez até tivesse pisado sem percebe-lo.

ergueu-se. movia-lhe agora uma curiosidade comum aqueles felinos dométicos que tanto detestava. foi até lá decidido, porém, até agachar-se para apanhar o envelope (era um envelope pardo, se pudesse ve-lo), viu dissipar-se como o fumo espesso das chaminés das velhas fábricas das imediações o ânimo de abri-lo. e se o tivesse feito descobriria sem surpresa que o velho decrépito torrara a grana que ele deixara para que pagasse as contas com cigarros, putas e uísque falsificado.

06 março, 2008

321. Uma Arma Quente (Tradução Livre)

HAPINESS IS A WARM GUN

John Lennon
(Tradução Livre de Francisco Pascoal Pinto)

Ela é não é aquele tipo da mina que perde tempo com conversa mole
Ela saca o lance e sabe como usar suas mãos delicadas
Como uma lagartixa que assente e bafeja o vidro polido e blindado.

O sujeito da 25 de março que vende espelhos e colar de contas para os índios usa coturnos velhos do seu tempo no 4o. BEC.*
Negaceia com o olhar enquanto faz um bico:
Suas mãos se ocupam em esculpir num sabonete de motel o corpo da mulher que já foi sua, que ele comeu e cedeu ao Patrimonio Histórico.

Preciso me garantir no arame, cara, que estou desabando
Caindo pedaço a pedaço ao longo da linha férrea que leva a Subúrbia
Preciso me garantir, senão eu danço.
Madre Superiora aperte o cano
Madre Superiora aponte o cano
Madre Superiora dispare o cano
Felicidade é uma arma quente
Felicidade é uma arma quente
Quando te abraço te espalmo não me protejo
Meu dedo roça e coça em teu gatilho
Não somos alvos, sei, ninguém vai nos atingir.

Porque a felicidade é uma arma quente.
Sim, sem dúvida é.
Ah, você não sabia, Mãe, que a Felicidade é uma arma quente?
Não?
*. 4o. BEC (Quarto Batalhão de Engenharia e Construção)

320. abissal

nunca sonhava pois sequer dormia. dedicava-se, como aconselhavam as escrituras, a orar e vigiar para não ser surpreendido.
uma noite, na escuridão liquida da fossa abissal em que custumava mergulhar, divisou um pequeno ponto de luz fosforescente e imaginou se não seria um daqueles seres esquisitos que só se encontram nas profundezas. não quis crer que sonhasse e esfregou os olhos uma, duas vezes. foi então que percebeu que estava sem o escafandro.

319. diálogo entre barras

- já há quantos anos aqui?
- quinze, quase dezesseis - respondeu o carcereiro.
- quando eu sair daqui pretendo escrever. e você?

318. aplicada

aplicada, riu enquanto passava a borracha em volta do braço para dilatar as veias. a avó costumava defini-la assim, com orgulho: uma menina aplicada.

317. festa

na festa dos descolados, eu deslocado.

29 fevereiro, 2008

316. memory

o elefante que sempre se orgulhou de sua prodigiosa memória agora deu para beber. acontece que a sua parceira fugiu com outro e por não conseguir esquece-la é que a maldiz (a memória)

315. equestres

venderam-lhe aquele cavalo como um legitimo andaluz ( entendia as ordens em espanhol). só depois é que ele se deu conta: o animal era paraguaio. e bilingue.

314. kali II

Kali nasceu com seis braços. Toda vez que ia à manicure gastava uma nota - mas em compensação botava a fofoca em dia e desabafava: "se os caras prestassem mais atenção nas minhas pernas..."

313. kali I

kali nasceu com seis braços. a mãe, do lar, crendo-se amaldiçoada pelos deuses caiu em profunda depressão. o pai, agricultor, homem prático, ao contrário, viu "naquilo" uma bênção.

15 fevereiro, 2008

312. cena urbana I

o semáforo demorava-se no vermelho. o carro era blindado e não havia nada que pudesse temer. o que ele não sabia era que o líquido que o menino molambento com o rodinho na mão derramou no para-brisa não era água. descobriria-o com olhos de pavor quando o segundo garoto, o que fazia acrobacias pirotécnicas, se aproximasse com um sorriso nos lábios rachados pelo frio do fim da tarde e uma tocha na mão .

311. perdas

perdeu a virgindade, o primeiro marido, o segundo, o trem da história, o das onze, o fio da meada, o medo de ser feliz, o juízo, a esperança e a vergonha sem jamais se queixar. os finais de telenovela, porém, ( quem ficou com quem?) eram sagrados. não os perdia por nada. no fim da vida encontrou a paz dos videos- tapes.

310. de amor e jogo

tomou um pé-na-bunda mas não se abalou. era um otimista incorrigivel e acharia rápido uma forma de consolar-se a si mesmo. "azar no amor, sorte no jogo", vibrou e dirigiu-se confiante ao Bingo Crosby disposto a arrebentar a banca. Ali apostou , perdeu e conheceu ana maria villari khaled prado, divorciada, vinte e dois anos mais velha, cheia da grana e de amor pra dar.

309. no lugar errado

no lugar errado, na hora errada quando anunciou-se o assalto. a policia cercou o local. tomado entre tantos como refém perguntou-se: por que eu? acaso, azar, destino... analisou probabilidades, avaliou chances, perdeu-se em estimativas- nunca fora bom com os cálculos. lá fora, pelo altifalante, alguém propunha negociação pela sua vida. quanto valeria? quem dá mais?estranhamente não sentiu medo. talvez porque não tivesse nada a perder além do fim do filme da sua vida que lhe passava pela cabeça. cabeça contra a qual premiam o frio e curto cano da arma.

308. o contrabandista de órgãos

Capturado, Bertoldo foi apresentado à imprensa e ao grande público como o mais infame contrabandista de órgãos de que se tinha notícia. Por conta dos seus atos vis foi levado a juri popular e condenado por unanimidade e sem apelação à pena capital.
No dia seguinte à sua execução, nossa valorosa polícia, sempre diligente, voltou a campo e capturou também os receptores de órgãos, não menos culpados. Com eles, as provas do delito: Um container inteiro de Yamahas de última geração.

307. o atalho

para cortar caminho tomou um atalho. o que cruzava a linha do trem. do outro lado, para sua surpresa e estranheza, a esperavam a mãe, a avó, o avô e outras pessoas bem mais antigas em quem ela angustiada reconheceu traços de sua própria fisionomia.

306. conto policial indiano

na busca ao desaparecido ao longo das margens sagradas do ganges, para desespero dos legistas, o inspetor ganesh ordenou o resgate de mais um corpo - até aquela hora, quinze para o meio-dia, já era um total de dezessete.

31 outubro, 2007

305. 25 de março de 2007


o camelô chegou antes de amanhecer armou a barraca naquele ponto de intenso movimento e esperou o dia inteiro as pessoas possiveis fregueses clientes potenciais que passaram indiferentes assim como os guardas municipais que também deram as caras estranhamente ignorando a sua visivel apreensão nada apreenderam e só no fim da tarde um bancário ou securitário meia-idade récem-demitido fez-lhe uma oferta:
"dou três paus nessa barraca, parceiro. um em cash e dois no pré-datado".

304. blue viagra


o som ambiente (kenny g) dá o clima.

- sobe? - pergunta-me a ascensorista mais sexy do mundo com um sorriso sensual a desabrochar nos lábios rubros.

remoço vinte anos, sorrio de volta, e respondo pleno de confiança e força:

- não tenha dúvida, baby.

a cartela de pilulas azuis no bolso da jaqueta é o segredo do meu super-poder. ninguém pode saber, assim como da minha identidade secreta. vamos às alturas.

26 outubro, 2007

303. olhar fulminante


ninguém que se dignasse cumprir sua última vontade : uns por caridade cristã (deus dá a vida, só ele pode tirá-la), outros por temer a justiça dos homens. de repente lembra-se de quando falavam que tinha um olhar fulminante, mira a superfície cromada da máquina a que está conectado por fios há anos , e descobre poder fazer algo sem depender deles.

302. naturismo


amou-a secretamente desde o primeiro instante em que foram apresentados por um amigo comum no clube de naturismo. excitava-o vesti-la com os olhos.

10 outubro, 2007

301. vegetal


vendo o velho ali, prostrado em um leito hospitalar em estado vegetativo, não teve dúvidas: abriu a braguilha e regou-o efusivamente.
o médico havia se enganado. o paciente não perdera de todo a sensibilidade. comprovou-o ao decifrar na iris opaca do enfermo resquicios de um ódio antigo, de uma prepotência agora domada pela impotência.

300. o enforcado

o cheiro da ingrata - também o do outro com quem havia dormido e fugido àquela quinta - ainda impregnado nos lençóis com que o desgraçado teceu a corda.

289. vamp


- mais depressa, por favor - quase suplicou a jovem passageira, os lábios roxos, a voz angustiada.
- preciso chegar a este endereço antes que amanheça!

ele disse é prá já, moça, e acelerou. no caminho pensou em marcar urgente uma consulta com o oculista. ou, quem sabe, entrar com os papéis da aposentadoria - por que não?

pelo retrovisor, via apenas o banco traseiro, o estofado de couro vermelho, vazio.

288. calafrio


quinze para a meia-noite deixa meio zonzo o prédio cinzento do IML onde acaba de identificar o corpo do tio solteirão que desaparecera já há alguns meses e dirige-se ao metrô consolação. arrasta os passos sem pressa, desce as escadas, cruza a frieza metálica da catraca e posta-se na plataforma. está sozinho.

mãos nos bolsos da jaqueta jeans desbotada, sentidos estimulados por sucessivas doses de cafeína, espera junto à linha amarela.
o trem assoma no túnel. o serviço de alto-falante todavia anuncia que o mesmo será recolhido para manutenção e portanto não há de parar naquela estação - um procedimento técnico, de praxe.

o trem se aproxima, o deslocamento de ar lhe assanha os cabelos que começam a rarear. os vagões, as luzes acesas, passam rápidos à distancia de dois palmos do seu nariz constipado. ele os supõe vazios mas o que vê ou imagina ver é um passageiro solitário, olhos profundos a acenar-lhe com a mão raquítica e ossuda, a dar-lhe um solitário adeus.

"Tio...", balbucia ao mesmo tempo que sente um calafrio percorrer-lhe a espinha e morrer na base da nuca.

o trem já passou.

24 julho, 2007

287. há vagas


Doutor Firmino Fortes, a pretexto de exercitar sua autoridade de gerente-geral récem-nomeado, logo no primeiro dia despediu sem mais delongas dona Marioneide, a faxineira, nordestina, analfabeta, oito filhos pequenos para criar.
Olhos úmidos, impotente, Dona Marioneide só conseguia balbuciar com sotaque: "o senhor não tem coração, doutor".
Enganava-se a infeliz. Que ele o tinha. Com quatro pontes. Aquelas que ainda aquela noite, ruiriam sob o peso da sua prepotência.
Dia seguinte, no quadro de contratações da empresa, duas novas vagas. A fila, lá fora, dobrava o quarteirão.

286. haiti


jean-pierre matou a golpe de machete seu louis-antoine seu vizinho e desafeto e tentou se desfazer do corpo atirando-o no penhasco que dava para o mar.
teve porém de fazê-lo por mais de uma dúzia de vezes, tomando o cuidado de mudar sempre o local e o modo - ora era um poço abandonado com uma pedra amarrada no pescoço, ora uma cova rasa na mata fechada ou uma pedreira desativada - porque no dia seguinte, teimosamente, lá estava o maldito de volta a atormentá-lo. cansado daquilo tudo, jean-pierre confessou o crime e se entregou à policia. foi condenado por homicidio mas - menos mal - livrou-se da acusação de ocultação de cadáver.

285. amor aos pedaços


esperava-a. ela, como sempre, atrasou-se. ele não conseguiu se conter: devorou voluptuosamente o coração de chocolate com que a presentearia.
quando ela apareceu ele, meia hora depois, ele ainda mastigava o último pedaço e lambia os lábios.
acabou-se, ele disse. não sou aquele cara sem vicios que voce pensou que eu fosse.

284. bolsa-familia

ir pro sul? pra quê? nem pensar! - riu-se joão climério, o polígamo, na fila do bolsa-familia em cabrobó.

10 julho, 2007

283. big brother

expôs-se por dez semanas em um reality show e ganhou um milhão de reais. a fama subiu-lhe a cabeça. ontem esmurrou um paparazzi por invadir sua intimidade.

282. excursão

a excursão do pessoal da terceira idade pelos igarapés terminou em tragedia: nopescoço do bugre abatido um colar de dentaduras

281. dúvida

político de carreria, tarimbado, uma única dúvida o incomodava: vender amãe é nepotismo?

20 abril, 2007

280. invocado


era um sujeito invocado. invocado e perigoso. bastava que alguém lhe olhasse torto para que ele lhe tirasse a vida. já tinha matado pra mais de vinte. dezoito deles eram vesgos.

279. alquimia


nas bodas de ouro ela o encheu de chumbo.

278. dedo-duro



o oyabun* mostrou afinidade com a faca yanagi - havia sido um hábil sushiman quando jovem, em nagoya.- e decepou, um a um os dedos que se lhe eram oferecidos pelos seus homens. só assim pode identificar o delator.

* chefão da máfia japonesa, a yakuza.

277. Perícia


a conclusão do perito criminal sobre o "decujus" da vítima encontrada morta no clube de nudismo pareceu-me contraditória:

- levou um tiro a queima-roupa.

28 março, 2007

276. mondo cane

fizeram amor de forma animal - estavam ligados, definitivamente, um ao outro.

275. cantada I


quer trepar comigo? sim? não? ok. cê sabe: quem cala, consente, mudinha .

274. desandando


escreveu um livro, fez um filho e plantou uma árvore. sentia-se plenamente realizado como profissional, pai e ecologista quando as coisas começaram a dar errado: foi processado por plágio, a mulher revelou-lhe que o filho era do seu editor, os galhos da árvore cresceram e invadiram o seu escritório e ele, num acesso de fúria, podou-os com uma motoserra - foi multado em mil e duzentos reais.

273. campeão de audiência


a deusa-mídia, dona do seu destino, por tê-lo criado reinvindicava o divino direito de destruí-lo quando ele se tornasse desnecessário aos seus própositos. ele se antecipou e apontando o controle remoto contra a própria cabeça cometeu suicidio: estava no auge. seus últimos índices de audiência alcançaram 32 pontos àquela noite.

272. matou a familia I


o menor infrator matou a família e foi ao cinema: "cai fora, pirralho!" - escorraçou-o o bilheteiro - "que esta sessão é pra maiores de dezoito!"

271. quem avisa...

o teu está na reta - alertou. e o outro ainda olhou torto.

270. choque térmico

com a garrafa de café acertou-lhe os cornos.

269. publicitário, ex-marine

invadiu uma escola primária no oregon portando um fuzil de assalto M-16. encontrara enfim o seu público-alvo.

268. ensaio


fiz o ensaio fotográfico da garota da laje, disse o papiloscopista.

08 março, 2007

267. enigma


de-me cifras ou te defloro! - ameaçava.
e a prostituta morria de rir do modo empolado de falar daquele velhinho safado.

266. o mago


à margem do que um dia foi o rio piedra, o mago sentou e chorou - água mesmo só dos seus olhos.

265. o atirador


- reconheces que fostes tu que atirastes ontem contra os transeúntes? - interrogou o juiz.
- para ser franco, meritíssimo, sim.

264. hábito


sempre cinco quilos acima do peso. culpa do hábito (comer unhas) e do emprego - era manicure desde os dezesseis.

263. proust


marcel costumava andar sozinho pela praia. não refletia; apenas buscava o tempo perdido. uma vez achou um relógio zerinho...

262. o concurso


na pressa tinha errado a mão e digitado: concurso de minicoitos. o que bastava para explicar a insistência daqueles anões para que os atendesse.

12 fevereiro, 2007

261. o último boitatá


na escuridão da floresta latifoliada mil olhos o espreitavam.

260. falsidade ideológica

não, não era comunista. nunca o fora. nem cogitava ser - negou por três vezes.

259. sada abe

hábil com a faca, enquanto fatiava o nabo "daikon", sada* sorria.


*. sada abe, “geisha” que em 1936 matou o seu amante e lhe cortou o pénis (inspiradora do filme "o império dos sentidos", de nagisa oshima.

258. curare


dose única. milimétrica - só pra relaxar.

08 janeiro, 2007

257. destino


nos anos de chumbo, para não ser morto, caiu na clandestinidade; atualmente, para sobreviver, pilota um ônibus clandestino.

256. lei da oferta e da procura


vendo apenas o corpo - disse a prostituta ao pobre diabo.

255. retrospectiva 2006


odiava o natal - nada para ver na TV além das retrospectivas - foi dormir cedo. na cama, o ano inteiro passou como um filme diante dos seus olhos.

254. natal letal


matou o amigo oculto e ocultou o cadáver.

27 novembro, 2006

253. conversa


era conservador e não admitia de forma laguma aquele tipo de comportamento - então chamou a filha para uma conversa de homem para homem.

252. o rato de roma


adestrei-o, companheiros, para que devorasse os olhos de césar - queixou-se o conspirador. e o maldito roedor contentou-se em estraçalhar-lhe as finas roupas.

07 novembro, 2006

251. na hora do almoço


entrou no restaurante amarillo e anunciou em alto e bom tom: vim matar quem está me matando! um bordão mais do que batido. houve quem pensasse na fome, outros na vontade de comer; mas no geral quase ninguém levou-o muito a sério. até que ele sacou um trinta e oito e...

250. compras


entrou na optica vision e pediu uma ilusão.

249. psicotrópico


à terceira tragada no narguillé, o tapete moveu-se inquieto sob os seus pés.

248. peão


dois minutos - queixou-se a parceira, olho azul no relógio - na arena do rodeio teu desempenho é melhor.

06 novembro, 2006

247. DP


fazia ponto no barzinho em frente a faculdade: DP em química.

246. sonegador


preso por sonegação, foi enfático: nada a declarar.

245. versão


a versão de que ele se havia envenenado com baygon não colou: encontraram-no com a boca cheia de formigas.

30 outubro, 2006

244. educação pela pedra


havia uma pedra no caminho e depois outra pedra e depois outra. pedras. caminho? caminho há um. sabe-o sem volta, contudo.

243. passional


na fúria descontrolada das carícias, o contador silas engoliu sem perceber o brinco de pérola da sua fogosa amante adelita. lamentável falha a de silas, diga-se de passagem: no dia seguinte, ao levar material para exame no laboratório de análise clínica, celino, o técnico coletor e coincidentemente noivo de adelita, descobriu tudo e tentou matá-lo.

242. promessa para parar de beber


a última gota do derradeiro drinque foi, para variar, para o santo.

241. vocação


por causa das aulas de anatomia, cedo desistiu da medicina - hoje toca os negócios que o pai, açougueiro, lhe deixou .

240. tentação


em vez da "marvada" o portugues do botequim serviu foi uma dose de biotônico. daí que deu no jeca uma disposição fora do comum, uma vontade incontrolável de trabalhar que, não fosse aquele um dia santo feriado, teria ele vergonhosamente cedido à tentação do coisa-ruim.

239. fim da linha


é o fim da linha, suspirou resignada a mãe e caiu morta sobre a máquina de costura - e o filho, inocente, estendeu a mãozinha condicionada na esperança do carretel que não viria.

20 outubro, 2006

238. promessas


o vicio mais forte que o medo, esperou um descuido das vestais e acendeu o cigarro ali mesmo, na pira em que ardia o fogo dos deuses. se o vissem, sabia, seria duramente castigado. prometeu pela centésima vez que ia parar de fumar.

17 outubro, 2006

237. o fanático


o fanático religioso invadiu de arma em punho a padaria e estorou os miolos - dos pães, porque acreditava que era o diabo quem os amassava.