09 abril, 2009

404. o buraco

O BURACO


Ocorreu mais ou menos como vou lhes descrever: mal o ônibus 779, Vila Buarque – Estação da Luz, adentrou o túnel mal iluminado na região central, apelidado pelos paulistanos mais antigos de buraco do Adhemar, o rapaz de touca azul-escura e moletom, sentado logo atrás do motorista, sacou de um revólver niquelado...

Este conto meu saiu pelo site português Letrário. Para lê-lo por inteiro acessem o link.http://www.letrario.pt/1_pt/900/9002.htm

08 abril, 2009

403. naufrago (cartum)




402. implicância

Ele se foi já faz um bom tempo, mas nada comparado ao tempo que se aturaram e que contaram em bodas. O cheiro ainda espalhado por aí, impregnado em tudo. Outro dia ela achou detrás da cômoda uma bituca de cigarro da marca que o matou. Noutro, evidências de que ele a traía com uma diarista que também já se tinha ido - desvio que para ela não representou nenhuma novidade.

Esperava que sem ele os sinais logo se apagassem. Pois se assim fosse não correria mais o risco de enlouquecer. Agora já não tem tanta certeza: Toca a vida cuidando das plantas, do gato, da vida alheia. E a irritar-se quando se depara com o vaso sanitário com a tampa levantada.

401. papo cabeça

Cabeça era o papo, modernosos os óculos intelectualóides e o corte de cabelo.

- Sexo é o duto, ralo para onde convergem umidades. Decifra-me!

Assunto para tese e meia.

A transa rolou ao som minimalista eletrônico de um DJ de nome infantil. BB Kids ou o equivalente. No clímax gemia citações dos clássicos – em latim - e poemas sujos dos beatniks mortos.

No carpete as contas de um colar barato de pedras de lápis-lazúli adquirido por uma merreca em uma mercado de pulgas na Vila Madalena. Roupas de brechó. E preservativos intactos. E outra vez o papo cabeça.

400. ofídia

Cleópatra, Cléo na intimidade, era a rainha do agito. Balada, para ela, não tinha dia nem hora. Uma noite excedeu-se nos estimulantes e perdeu o rumo. Encontraram-na no dia seguinte, morta, dentro da cova das cascavéis no Instituto Butantã.

06 abril, 2009

399. (poema concreto)

cavo cavo cavo cavo cavo cavo cavo
cavo cavo cavo cavo cavo cavo
cavo cavo cavo cavo cavo
cavo cavo cavo cavo
cavo cavo cavo
cavo cavo
cova

398. hai kai n.20

cogumelo pálido
no esterco úmido. lembro:
esqueci meu guarda-chuva.

397. hai kai n.19

dentro da lanterna
tatuagem viva
mariposa azul.

396. hai kai n.18

brisa outonal
fantasma trêmulo
suspenso no varal

395. hai kai n.17

gota de orvalho
nas orelha-de-pau
um mimo de brinco.

394. relógio

O estado do corpo carbonizado dentro do automóvel era lastimável: dentes arreganhados, olhos cozidos... aspecto de múmia egípcia desenfaixada. Imaginei: vai ser barra para o médico-legista proceder a identificação. Por experiência (dez anos lotado na delegacia de crimes), de antemão descartei totalmente a possibilidade de assalto – o relógio da vítima, um autêntico rolex, intacto e derretido, os ponteiros indicando a hora derradeira do infeliz. A imagem lembrou-me uma pintura do Dali. Fiquei sensibilizado. Porra, eu devia ter sido artista.

393. disponível

A mão, pedi-a, quando tive certeza que encontrara a jóia certa com que podia orná-la. Então a mão se interpôs entre mim e o corpo que era a sua extensão: para trás que daqui não passas! Não insisti. Retrocedi. Saindo do seu raio de ação penhorei a jóia com um turco velho no centro e apregoei em sites de relacionamento a minha disponibilidade.

392. enlouquecendo

Espáduas nuas. Era o que mais o enlouquecia. Até no último instante . Até ela dar-lhe as costas e ir-se sem olhar para trás. Até distanciar-se, sumir, deixá-lo na mão.

391. esforço

Pés. Fazia-os toda semana só para agradá-lo. Satisfazer seu fetiche. Amputava-se, esta que é a verdade. Que por causa da outra, cheia de dedos, ele trocou os pés pelas mãos.

18 março, 2009

388. hai kai n.16

Em boca fechada, não entra mosquito
Já em água parada
Rola o maior agito

387. hai kai n.15

Olhos úmidos
Rasos
Rio assoreado

386. hai kai n.14

Escura é a lágrima
Que escorre na face
do menino carvoeiro

385. hai kai n.13

Madrugada adentro
Um cão ladra
E afugenta meu sono

384. lady alaíde

Lady Alaíde ganhou de presente
Um alaúde
Coitadinha se ilude:
Um dia ainda vou saber tocar este alaúde.

Lady Alaíde pediu a Mestre Ataíde que a ajude
A ensine a tocar o alaúde
Mas Mestre Ataíde
Anda mal de saúde
(Dizem a meia-boca que até já comprou um ataúde)

Mas Lady Alaíde
Não duvide
É moça de atitude
Dispõe-se a gastar sua juventude
Aprendendo a tocar o bendito alaúde.

Aconselhou-a Mestre Ataíde:
Alaíde, Alaíde
Não se fie em quem te aplaude
Cuide-se, não se descuide
Estude, estude e estude.
Se não der certo, paciência:
Case-se com o Alcaide.

383. pernas

Ela cruzou meu caminho . Cruzou as pernas. Persignei-me e ela perseguiu-me sonho afora, noite adentro. Pernas, como te quero !

383. vinganças que não vingaram II

Serviu ao marido uma terrina fumegante: o cheiro do tempero, das especiarias – e do veneno – escancararam-lhe o apetite. A fome capitulando ante a ameaça. E o canalha sobreviveu. Só depois chegou à conclusão de que de fato pratos quentes não combinam com vingança.

382. vinganças que não vingaram I

Arquitetou vingança sórdida contra seu pior desafeto: o prédio haveria de desabar e soterrá-lo sob toneladas e toneladas de concreto. A vingança, porém, não se concretizou. O prédio resiste. Seu currículo de Arquiteto continua sem irrepreensível.

381. o ex-mágico

Deu-se em Palermo faz algumas semanas: após confessar seus mais recentes crimes, o Capo local quis ter certeza de que o padre não iria abrir o bico e ordenou que ali mesmo, em frente alguns dos seus paroquianos que aguardavam a hora da missa, um dos seus capangas metralhassem impiedosamente o confessionário; depois saiu como se nada tivesse acontecido.

E, para estupefação dos que ali se encontravam, de fato nada aconteceu; pois logo em seguida o velho pároco abriu a portinhola e saiu ileso e impecável em sua batina preta.

Atirava-se já aos seus pés a beata mais antiga e devota gritando Milagre!,quando o padre a impediu:

“Milagre coisa nenhuma, dona Piovanna”, ralhou. “Milagre é coisa de santo e eu não passo de um pobre pecador.”

Só então ela lembrou-se de que quando eram jovens, o padre, oriundo de uma tradicional família local, tinha se encantado com um circo mambembe que passava pela cidade e acabara fugindo com ele a despeito da vontade paterna para que fosse estudar leis em Roma.

“Não esqueçam” alertou sem nenhuma modéstia porém no mesmo tom solene com que costumava fazer seus sermões: “Que já fui o maior mágico que esta península já teve. Em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, Amém!”

A liturgia prosseguiu normalmente, sem sobressaltos.

12 março, 2009

380. auto da covardia

Estava só na plataforma. Naturalmente esperava. O intervalo entre um trem que viria e outro que passara um pouco antes que ali chegasse parecia uma eternidade. Pensou que podia se matar sem que ninguém o impedisse. Pensou também que podia continuar indo e vindo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, percorrendo dia após dia aquela mesma linha, igual a um dejeto fecal que percorresse os intestinos da cidade.

Quando o trem apontou ele deu um passo atrás. Nada que cause estranheza pois nunca fora voluntário para nada. Sabia muito bem e como poucos – uma qualidade? - o valor da covardia.

Como se ele não existisse, ou fosse invisível, o trem passou batido, direto – ou foi sacanagem de Caronte, o condutor??

Ele podia jurar que o vira rindo, sarcástico.

11 março, 2009

379. golem

Depois de um curso básico de oleiro, o rabino Saul Getz Mendes da Fonseca, de Lisboa, moldou finalmente o seu primeiro Golem, ser animado de matéria inanimada. E seguindo o passo a passo da Cabala, escreveu com caprichosa caligrafia em hebraico a palavra mágica Emet em sua testa para poder ativá-lo.

“Ah!”, bateu em sua própria testa “Quase que ia me esquecendo! Preciso inflar em suas narinas o hálito da vida”

Fê-lo e o Golem abriu seus tristes olhos de argila.

“Parla! Parla!”, ordenou o rabino, exultante.

E o Golem falou:

“Andas a comer muita cebola, heim Rébi?”

378. generosidade

Os seios? Sonhei com eles, ansiei por eles, pedi-os. E não me foi dado sequer tocá-los. Foram-me negados ambos. O decote – odiei-o – em nada generoso comigo.

377. brinquedos

Ia pegar mal dar uma geral naquele velhinho aparentemente inofensivo vestido de Papai Noel, mas ele o fez. Tinha que ser profissional, fazer valer a autoridade que lhe fora conferida desde que dela não abusasse. E protagonizou uma cena inusitada entre tantas outras em Sampa àquele Natal. Uma multidão juntou-se. Começavam os protestos quando ele espalhou no piso do shopping o conteúdo do saco que o velho carregava às costas: eram apenas brinquedos. Sim, muitos brinquedos. Ninguém podia duvidar que de fato fossem brinquedos. Para pervertidos, é verdade, mas... brinquedos . Consolos fálicos de todos os tamanhos e espessuras e texturas para solitários. Vibradores de última geração. Cremes para penetração made in china. E cópias pirateadas de filmes pornográficos. Utilitários para todos as taras.

376. o último espetáculo

O Circo Bem-Hur fora à falência. Era o último espetáculo. Depois, como diz o jargão, era cada um por si e Deus por todos. Entrada livre e ninguém compareceu. Onde o respeitável público?? – o coraçãozinho das crianças, sabia-se, tinham sido há tempos arrebatados pelas mídias eletrônicas e games. Tristeza às pencas, muita tristeza.

O domador de feras, homem outrora enérgico, não conseguia sequer domar seu desanimo monstro; o mágico já não se iludia: só definhava, sumia aos poucos; a trapezista acometida de súbita labirintite mal se mantinha de pé para o derradeiro número;e o palhaço, num canto, chorava inconsolável e borrava a maquilagem. Nesse clima de velório só o anão foi capaz de um ato de grandeza: foi lá, soltou os bichos e ateou fogo à lona.

As labaredas logo tocaram o céu e iluminaram a noite. A cidade inteira acorreu ao local feito insetos em volta de uma lâmpada. Um espetáculo inesquecível.

O pipoqueiro vendeu como nunca.

375. verso

"Amargo era o travo do beijo que não me deste ", escreveu o poeta no guardanapo e pediu mais um Expresso. A garçonete corou como se ele lho tivesse dito e perguntou:

- Amargo?
- O beijo? – ele quedou surpreso.
- O café.
- Ah!

18 fevereiro, 2009

374. yara

Meia–noite. Lua cheia alta no céu a refletir na superfície líquida da represa. Insone tomo a fresca. E fumo. Nem uma brisa. As águas estão calmas, límpidas, um grande espelho. Nelas diviso apenas um contraste: um tronco boiando, acho. Um tronco? Espera aí! Será aquilo um tronco mesmo ou estarei a ver coisas? Parece mais um.... Deus meu! Um corpo. Sim, sem dúvida é um corpo.

Decido que devo averiguar. Cogito que seja de alguém conhecido; mas pelo o que me consta não correu boato algum no povoado de que alguém tenha sumido nas últimas horas.

Apago o cigarro no piso de concreto da barragem. Tiro as botinas, dispo-me. Um arrepio encrespa-me os pelos.

O nível da represa está baixo. Desço cauteloso, pé ante pé, pela escadinha de vergalhões de ferro enferrujada e toco com o indicador a água morna. Benzo-me três vezes.

Nado. Sou um bom nadador. Fui criado na beira do rio quando ainda não o haviam represado.

Trinta braçadas a frente deparo-me com o afogado. É um rapaz. Magro, porém musculoso. Dever ter no máximo uns dezoito anos. Está nu como eu e no seu rosto ainda imberbe diviso um estranho sorriso.

Enlaço o seu pescoço, tento arrastá-lo para a margem, em vão. Percebo que algo o prende pelo pé direito. Uma rede? A pesca está proibida mas há sempre quem se arrisque.

Largo o corpo, encho os pulmões e mergulho. Dou a volta por baixo do corpo e ...

Dou de cara com Ela. É ela que o prende.

Formas perfeitas. Metade peixe, metade mulher, bela como os velhos pescadores costumam descrevê-la. Os olhos faíscam como pedras verdes e a língua lasciva desliza pelos lábios rubros e sensuais.

Canta. Que reside no canto o seu poder de sedução. Foi dessa forma que atraiu este coitado, e é assim que ela tenta me enfeitiçar.

Canta. Suponho que seja uma melodia indescritível. Pena que eu não possa ouvi-la: nasci deficiente auditivo. Imerso no mais profundo silêncio.
publicado na revista terrorzine:

373. a marca

Procurei marcas de batom na camisa e achei. Uma. Oculta sob o colarinho. E não era dos meus que jamais uso carmim. Em segredo chorei. Aquela noite não fizemos sexo pois ele não me procurou; e se o fizesse eu me vingaria inventando uma enxaqueca. Mas já relevei. Sou assim. É meu jeito. Não guardo ressentimento. Faz-me mal. A camisa? Lavei-a, passeia-a, pendurei no armário. Meu marido, quando voltar de viagem, nem vai notar que ele a pegou emprestado.

372. o aprendiz

-Eu vendi gelo para um esquimó.
- Parabéns! O próximo!
- Eu vendi areia para um xeique em Dubai.
- Muito bom! E você???
- Eu? fui com ele. E vendi preservativos pros eunucos.

371. rotina

Envelheceu. Agora vai mais à igreja. Não que tenha ficado mais religioso a esta altura da vida, não. – as missas de sétimo dia dos amigos é que viraram rotina.

370. quase silêncio

ajo sempre na calada: ao silenciá-lo - infame trocadilho - usei do silenciador para abafar seus possíveis ais. quem cala consente. creio que calei-o mesmo sem o seu consentimento. deu com a língua nos dentes recheados de amálgama e assinou sua sentença, o iscariotes. às três da madruga o tempo lá fora contradiz como sempre as previsões meteorológicas que teimo em ouvir. entro sem bater, sem pedir licença, para sua surpresa e pavor. estampado no rosto ao me reconhecer uma quase-súplica por piedade - a clínica de lipoaspiração vazia àquela hora erma. a mão traiçoeira larga o mouse e sob a mesa alcança o cabo madrepérola de uma pistola. "ploft!". sou bem mais rápido e preciso. na tela do computador uma singela proteção de tela com peixinhos doirados e corais. na parede agora maculada o pôster da enfermeira com o indicador nos lábios sensuais pede silêncio. esse tipo de coisa me excita. saio furtivo.
*. publicado no site: www.usinadaspalavras.com

23 janeiro, 2009

369. o apóstolo do mês

Três apóstolos apregoavam seus feitos. Um deles seria escolhido como O Apóstolo do Mês e teria seu nome gravado na entrada do Templo.

O primeiro, brincalhão, disse: Senhores, vendi o almoço pra comprar a janta. Houve variação na bolsa, o preço dos alimentos caiu no fim da tarde. Lucrei quinze sestércios.

O segundo, homem em quem não se podia confiar, confessou sem escrúpulos: Já eu, vendi meu mestre por trinta moedas. Saí no lucro. Há profeta demais na Palestina. Muita oferta, pouca procura.

O terceiro, normalmente homem de pouca fé, surpreendeu:

Eu arrisquei na bolsa de apostas dos fariseus e estourei a banca! Acertei que Ele ressuscitava em três dias. Eu sou o cara!

368. pena

No ginásio ainda ele roubou-lhe um beijo. Depois, mais tarde, roubou uma rosa e lhe deu de presente. Não demorou tomou de assalto o seu coração. Agora envelhecem juntos e ele deu para se queixar: parece que cumpro pena.

367. erro médico

- Errei. – admitiu o médico. Os azuis acinzentados baixos sob as lentes denotavam humildade. Qualidade que o seu interlocutor jamais imaginou que ele tivesse.

O oficial comandante do Campo, homem forjado na dura disciplina, porém, não o repreendeu. Ao contrário foi paternal, tocou-lhe o ombro respeitoso e solidário e quis dizer-lhe, como se diz nessas horas como apoio ao faltante ou por mera falta do que dizer, que errar é humano; mas a frase, no seu entender, não era a mais adequada. Em suma humanidade não combinava mesmo com aquele médico de reconhecidas fama e competência.

- O homem sábio sempre aprende com os erros – incentivou-o – Continue tentando, Dr. Mengele.

366. erudição

Ela faz palavras cruzadas. Ele lê o caderno de esportes.

- Benhê, o que é Clássico? Com sete letras.

Ele, sem desviar os olhos da matéria, sorri. Adora ser consultado. Satisfaz muitíssimo o seu ego. Além de atestar, acredita, a sua inegável supremacia de macho.

- Taí! De Clássico, amor, eu entendo. Vou te dar um exemplo: por coincidência estou lendo justamente uma reportagem sobre o clássico que vai rolar hoje no Pacaembu. Corinthians versus São Paulo. Isso é clássico, entende? Jogo de primeira. Briga de cachorro grande. Duelo de titãs.


Ela rabisca que rabisca e Ele viaja:

- Outro exemplo, veja, é a música clássica. Só bacana curte este gênero. Pra ouvido refinado, de intelectual, entende? Pagodeiro, se entra no Teatro Municipal, fica logo constrangido, deslocado, desfocado.

Ela está concentrada. Parece que não ouviu nada da dissertação na qual ele tanto se empenhou.

Ele percebe e se queixa:

- Amor! Você faz uma pergunta, eu respondo, e você nem aí!

- Ah! Brigadinho, bem. Já achei. Erudito.

- Era o Dito?

- Isso aí.

365. trem da morte

Lugo buscava aventuras. Mochila às costas tomou o Trem da Morte e rumou para Machu Pichu. Faria a Trilha Inca. Viagem cansativa, estafante, a certa altura levantou-se para esticar as pernas e logo entabulou um papo em legítimo portunhol com o maquinista, um sujeito simpático, meio índio. Falavam de futebol, pra variar, quando numa curva surgiu de repente no meio da linha, a face oculta por um chapéu de palha rústico, uma anciã esquálida e encurvada.

Não houve tempo de frear nem nada. O baque esperado não veio. A locomotiva, centopéia de aço, seguiu em frente.

Lugo quase desmaiou. Quando conseguiu se recompor, estranhou que o semblante do maquinista sequer tivesse se alterado.

- O que fue... aquillo, compañero?

- Que?

- La vieja!

-Ah! – Riu o homem com a naturalidade de quem já se acostumara com as manifestações do inusitado. E disse-lhe: - És la muerte, muchacho. Pide aventón*

*.carona

09 janeiro, 2009

364. Dom Serafim, El-Rey


363. hai kai n.12

Língua de fora
Gravata rósea
Cão a rigor.

362. hai kai n.11

Braços erguidos
Mandacaru se rende
Aos teus encantos.

361. hai kai .10

Sobre o tumulo do avô
A avó circunspecta
Pratica ikebana.

360. hai kai n.9

Havia no caminho
Uma pedra - de vesícula
Que rima ridícula.

359. hai kai n.8

Moço analfabeto
Mandou-me um bilhete:
Era um origami.

358. a vontade férrea de Dom Arturo

Dom Arturo Gamboa Bastos Garcia y Garcia gabava-se de ter antes de qualquer coisa uma vontade férrea. Um dia, por exemplo e para dar exemplo, decidiu parar de fumar e nunca mais, nem por brincadeira, botou um cigarro na boca. e se o fez foi mais por razões de cunho financeiro que por problemas de saúde (era forte como um touro) que por desventura viesse a ter: Pôs no papel, fez os cálculos e concluiu que, ao fumar um maço por dia dos 17 aos 55 anos gastara com os malditos cigarros a vultosa quantia de 280 mil robledos. uma pequena fortuna que o teriam feito um prospero e respeitável estancieiro.

daquela sua fase cinza de fumante inveterado, porém, restara-lhe o inarraigável costume de trazer sempre entre os dedos médio e indicador da sua mão direita algo que melhor se adequasse e preenchesse o vazio do antigo objeto do seu vício. esse substituto, ele logo descobriu, seria um bastonete de giz branca desses que as professoras primária esgrimam com perícia no exercício da sua nobre missão de formar as futuras gerações.

Aposentado, viúvo, a diversão de Don Arturo agora era toda tarde jogar bilhar com os velhos companheiros.Foi ali, no salão Bolas de Ouro, que descobriu a real utilidade dos seus inseparáveis bastonetes brancos: passou a usá-los também para anotar na pequena lousa verde o resultado das acirradas partidas que disputavam. Como essas disputas estendiam-se até alta madrugada, logo Don Arturo, sem que percebesse, começou a comprar cada vez mais e mais caixas de giz. Fato é que dos 56 aos 88 anos, quando parou definitivamente de jogar por causa do Alzheimer que não lhe permitia mais firmar o taco, calculou ter gastado pra bem mais de 200 mil robledos; outra pequena fortuna que lhe teria permitido tornar-se, dessa vez, não um próspero fazendeiro - que com gado e mulher já não tinha paciência; mas um... não! chega! não queria tornar-se mais nada. Mesmo porque, independente das vicissitudes, só lhe restava, biblicamente falando, tornar-se pó. pó igualzinho aquele que se desprendia do giz com que gastara as economias que economizara ao largar o fumo vinte e dois anos antes.

357. portuárias

Mareado de tanta solidão, encontrou finalmente num bar de um porto movimentado a mulher da sua vida. Uma oportunidade única. Não podia perde-la. Chamou-a à sua mesa, pagou-lhe uma bebida, fizeram amor em um quarto sujo no andar de cima.

"Por você abandono o mar", confessou enquanto fumava vendo pela persiana dentro da escuridão as luzes do navio em que servia fundeado na baía.

"Sei" sorriu a mulher. Enquanto se vestia disse-lhe o que teria dito a qualquer marujo:

"Nunca deixe de sonhar, garoto"

E desceu as escadas para ser a mulher da vida de um outro.

356.culpa e expiação

quando foi preso era inocente. disse-lho desesperadamente às autoridades, à população, mas ninguém lhe acreditou. foi julgado e condenado a dez anos e no cárcere restou-lhe contar dias e as horas e nutrir-se de um ódio profundo do qual não imaginava ser capaz.

ao sair tinha em mente que na sua história faltava algo sem o que a justiça quedaria desacreditada e cometeu um crime. pronto: eles pediram e ele agora era de fato culpado. pagara com antecedência, é verdade, mas era finalmente culpado.

seu crime, porém, fora algo planejado e premeditado. quase perfeito. aproveitara brechas na lei emendada e remendada dos homens para se delinear. o punhal na mão de um terceiro, o dinheiro sujo na conta de outro e tudo se resolveu.

a inteligência limitada dos homens deu voltas em torno de si como um cão buscando o rabo e nada descobriu. e ele finalmente se sentiu vingado e aliviado daquele ódio antigo. todavia sua consciência ainda pesa, e ele tenta se convencer de que o tempo do arrependimento ficou lá, no fundo daquela cela.

28 novembro, 2008

355. perda

enquanto se barbeava ele notou uma mancha vermelha na têmpora. à noite, na escuridão, porém, ele não percebia, ela brilhava como se fosse uma brasa incandescente. a mãe ao ver aquilo achou que ele tinha voltado a fumar. nada disse - quem era ela, fumante durante maior parte da sua vida, para repreende-lo agora? que autoridade tinha sobre um homem com idade mais que suficiente para escolher os seus vícios? - mas estranhamente, ela também se deu conta, nada no quarto indicava que ele estivesse a abusar do fumo. nem cheiro, nem cinzas, nem bitucas, nem nada...
quando por volta da meia-noite ela ouviu o baque surdo achou que o saco de serragem que ele costumava esmurrar para conter a ansiedade tivesse despencado do teto. o silencio que se seguiu ou a sua intuição de mãe alertou-a de que algo estranho estava a acontecer.

apreensiva deixou de lado a bíblia onde revisitava os salmos, calçou as pantufas que ganhara dele por ocasião do dias das mães e de camisola foi até o quarto do filho averiguar.
ao acender a luz sentiu fraquejar suas pernas cheias de varizes. o grito elaborado nas suas entranhas saiu abafado, sufocado como se ela trouxesse pressionado contra o rosto o travesseiro onde há pouco descansava a cabeça.

o que viu, ali, estendido no solo com um furo profundo no lado esquerdo da cabeça parecia o seu filho. tinha o seu corpo, roupas, feições. estaria morto? ferido? não havia sinais sangue nem cheiro de pólvora.

quis por um momento debruçar-se sobre aquele... cadáver e chorar seu desespero, sua perda, mas estranhamente o que sentiu foi nojo, asco. a intuição outra vez, ou algo que o valha, semeou no seu âmago a sementinha da dúvida. seria aquele o seu filho amado? não, não podia ser. nada a garantia que fosse. aquilo era só uma pele frouxa desprovida de sustentação óssea como um guarda-chuva sem hastes. coração de mãe não se engana.

sem saber bem o que fazer ela correu desesperada até a janela que percebeu escancarada. nenhuma brisa. nada que incomodasse a imobilidade das cortinas azuis desbotadas. lá fora, nas mãos de deus, com a exceção de um ou outro boêmio que trocasse o dia pela noite, todos estavam a dormir profunda e descuidadamente. à iluminação amarelada da rua se sobrepunha a treva noturna. por tras das nuvens, divisavam-se os contornos de uma lua triste.

354. cena urbana

o casal se beija apaixonadamente. já não se preocupa em esconder o que se tornou público.

"ainda assim te amo", diz o outro, o preterido, à distancia, como se ela pudesse ouvi-lo.

por uma fração de segundos, e para o seu próprio espanto, vem-lhe nítida a cena que assistiu pela TV na manhã daquele mesmo domingo no programa voltado para os aficcionados aos automóveis - programa que ele, amante incondicional e declarado das possantes máquinas, raramente perdia.

"esse cara com quem me trais", desqualifica, "talvez nem guiar saiba” ( costuma vê-los sempre a pé a passear de mãos dadas pelos parques da cidade)

A reportagem era sobre atropelamentos. utilizaram na simulação bonecos desnudos e desengonçados destes usados como manequins em loja de departamentos. impressionara-o o impacto de um carro de meia tonelada a 100 km por hora contra um corpo adulto de aproximadamente setenta quilos.

acelera forte. precisa por um fim naquilo tudo.

28 outubro, 2008

353. vestígios

no lugar do terreno baldio onde há alguns meses antes abandonou o filho recém-nascido, agora um arranha-céus com centenas de janelas envidraçadas as quais que ela está condenada a esfregar com força como se apagasse os vestígios do crime cometido. Quase sempre chora. E se alguém desconfia, desconversa: a culpa é do componente químico do detergente.

352. senha

descobriu sua vocação: praticar exorcismos on-line. aos espíritos imundos arrancados à clientela atormentada aprisionava-os em arquivos zipados. um dia um hacker adolescente houve por surrupiar-lhe a senha e foi um pandemônio. pandora, aprendeu com o erro, não é de fato um nome la muito recomendável para uma senha.

20 outubro, 2008

351. cleptomania

No ginásio ainda ele roubou-lhe um beijo. Depois, mais tarde, roubou uma rosa e lhe deu de presente. Não demorou tomou de assalto o seu coração. Agora envelhecem juntos e ele deu para se queixar: "parece que cumpro pena"

350. destino

Dentro do vagão do metrô, horário de pico, a cigana insiste em ler o meu destino por dois reais. Deixo. Ela enfia a nota amarfanhada entre os seios murchos, sorri com dentes de ouro e sussura: Jabaquara.

349. eleição

Apertou as dezenas e a cara do candidato escolhido não apareceu no visor. Irritou-se e – como fazia quando moleque ao jogar fliperama – esmurrou furioso a urna eletrônica. Tilt. A imagem surgiu enfim duplicada. Tava explicado: o candidato tinha duas caras.

348. conceitos

celibatário convicto, reviu rapidamente seus conceitos - o barco já imergia. e abraçou-se àquela boneca inflável.

347. chorare (miniconto)

um dia teve que partir deixando tudo para trás. homem já feito e ciente de que - como lhe ensinara o pai que do pai dele aprendera - homem não deve chorar, manteve-se firme, resoluto em sua decisão; embora por dentro sentisse o coração apertado. na saída da cidade conseguiu uma carona justo em um caminhão de cebolas que vinha de Cabrobó. daí até a capital, sem poder impedir que se desatassem os nós de todas as suas mágoas, chorou feito criança.

346. bispo flaggman


345. star wars


344. filiatrix


16 setembro, 2008

336. Elvis

Antes de morrer, Adalberto, o taxista, chamou a esposa e confidenciou-lhe um último segredo:

“ Elvis não morreu”

“Grande novidade”, ela disse.
“Esperava que me contasse que me traía com a Cida Cabeleireira, aquela vaca”

Ele riu e tossiu e pediu calma – a voz era um fio. Nem sombra do vozeirão que jurava ter tido.

“Você não bota fé, não é? Mas eu posso provar”

“Provar o que?”

“Que Elvis não morreu, ora!”

“Está bem, homem. Vá lá, prove”

Adalberto fez uma pausa e revelou-lhe:

“Eu sou Elvis, Marilda. Elvis Aaron Presley”


Marilda não queria acreditar mas rendeu-se quando ele lembrou-a de como, com aquele peso todo, conseguia fazer o diabo com os quadris. E e de como quando, no meio da noite, sonâmbulo, costumava se expressar em inglês fluente com sotaque do Tennesee, assustando-a .

Como veio parar em Santo Inácio do Pinhal, no entanto, nem ele próprio conseguia explicar; já que por aquele tempo, admitia, as drogas pesadas é que estavam no comando dos seus atos.

Diante dos olhos mareados da esposa, ele finalmente entregou os pontos. Descansou. E ela,como sempre fazia, às vezes por pirraça, e para não perder o costume, contrariou-o:

“Você estava errado, Adalberto. Totalmente equivocado. Elvis está morto, sim. Mortinho da Silva”

27 agosto, 2008

335. hai kai n.7

de cabeça para baixo
o morcego soletra
inscrições rupestres

334. hai kai n.6

sapinho degusta
um mosquito da dengue
seu dia de herói.

333. hai kai n.5

sem encontrar resistência
o sal da maresia
corrói a vontade dos canhões.

332. hai kai n.4

o bambuzal vibra
ao sabor do vento
e desorienta os morcegos.

331. hai kai n.3

estendido ao pé do ipê
o tapete de flores
recebe com honras o mendigo.

330. hai kai n.2

sombra no muro de arrimo
pantera ?
um gato - seu primo

329. hai-kai n.1

gaijin se esforça
capricha na letra
kanji invertido

328. as pernas do general

Por vinte e cinco anos e cinco dias as pernas compridas do general Tiburcio marcharam inseparáveis, na mesma disciplinada cadência. A esquerda, destemida como o dono à época, cedo o deixou a coxear: descuidada pisou numa mina anti-pessoal, se estraçalhou toda e virou lenda; já a segunda perna, cautelosa mas na definição de alguns covarde, decerto traumatizada pelo destino trágico de sua incauta irmã, não justificava a parte da calça que lhe cabia. Dedicou sua existencia ao amparo do dono. Desnecessario dizer que envelheceu com ele e sustentou resignada sua débil carcassa. Foi enterrada com ele com honras de heroi no mausoléu dos veteranos.

14 maio, 2008

327. reconstituição

aquele perito era um bom profissional mas exageradamente perfecionista. fato é que na reconstituição do crime o assassino, primário, acabou por tornar-se reincidente.

326. obra-prima

sexo masculino, vinte e quatro anos, classe média, condenado a três anos por falsificação (falsidade ideológica). o curso superior, porém, lhe dá direito a cela especial (o diploma da USP em letras góticas, orgulha-se, é sem dúvida o seu melhor trabalho).

12 maio, 2008

325. superpoder

o menininho rezava toda as noites pedindo que lhe fosse concedido pelo menos um dos poderes do super-homem. cresceu, desiludiu-se: virou prático de raio-x em um hospital público.
1º lugar no Concurso de Microcontos do site Papo de Quadrinhos (Abril/2009) http://papodequadrinho.blogspot.com/

324. cara e coragem

contava com exacerbado orgulho e à guisa de exortar os filhos à luta que viera e vencera com a cara e a coragem. não tinha coragem porém de confessar que mudava de cara sempre que os fins, por pérfidos que fossem, o justificassem.

323. a espiã de mil faces

capturada a agente do serviço secreto do vaticano, o inimigo não perdeu a chance de esbofeteá-la. e ela, fiel aos seus principios cristãos, como era de se esperar ofereceu-lhe a outra face, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra, e a outra...

02 abril, 2008

322. o pequeno deus

faça-se a luz, ordenou prepotente como sempre o pequeno deus. sua voz de trovão de sonoplasta de radio-novela ecoou dentro da escuridão da casa, agrediu as paredes forradas por retratos antigos da familia, mas não surtiu o efeito esperado.
.
faça-se a luz! porra! repetiu irritado pressionando com força a verruga do interruptor que sabia onde se encontrava mesmo que estivesse de olhos fechados. e nadica de nada de luz .

desolado o mini-deus desabou sua obesidade sobre o sofá puído da sala cujo estofamento seu velho costumava torturar fincando sádico pontas de cigarro na esperança vã de arrancar-lhe confissões intimas de tempos imemoriais quando vivia a suspeitar que, sobre o maldito recheio de espuma, sua defunta mulher o traía com o açougueiro também já há décadas desencarnado.

daquele ponto à ínfima divindade foi concedido perceber que, na fina restia de claridade horizontal proveniente das lampadas de mercúrio que iluminavam a avenida lá fora e vazava a preencher a fresta, havia algo enfiado sob a porta que à sua passagem, minutos antes, talvez até tivesse pisado sem percebe-lo.

ergueu-se. movia-lhe agora uma curiosidade comum aqueles felinos dométicos que tanto detestava. foi até lá decidido, porém, até agachar-se para apanhar o envelope (era um envelope pardo, se pudesse ve-lo), viu dissipar-se como o fumo espesso das chaminés das velhas fábricas das imediações o ânimo de abri-lo. e se o tivesse feito descobriria sem surpresa que o velho decrépito torrara a grana que ele deixara para que pagasse as contas com cigarros, putas e uísque falsificado.

06 março, 2008

321. Uma Arma Quente (Tradução Livre)

HAPINESS IS A WARM GUN

John Lennon
(Tradução Livre de Francisco Pascoal Pinto)

Ela é não é aquele tipo da mina que perde tempo com conversa mole
Ela saca o lance e sabe como usar suas mãos delicadas
Como uma lagartixa que assente e bafeja o vidro polido e blindado.

O sujeito da 25 de março que vende espelhos e colar de contas para os índios usa coturnos velhos do seu tempo no 4o. BEC.*
Negaceia com o olhar enquanto faz um bico:
Suas mãos se ocupam em esculpir num sabonete de motel o corpo da mulher que já foi sua, que ele comeu e cedeu ao Patrimonio Histórico.

Preciso me garantir no arame, cara, que estou desabando
Caindo pedaço a pedaço ao longo da linha férrea que leva a Subúrbia
Preciso me garantir, senão eu danço.
Madre Superiora aperte o cano
Madre Superiora aponte o cano
Madre Superiora dispare o cano
Felicidade é uma arma quente
Felicidade é uma arma quente
Quando te abraço te espalmo não me protejo
Meu dedo roça e coça em teu gatilho
Não somos alvos, sei, ninguém vai nos atingir.

Porque a felicidade é uma arma quente.
Sim, sem dúvida é.
Ah, você não sabia, Mãe, que a Felicidade é uma arma quente?
Não?
*. 4o. BEC (Quarto Batalhão de Engenharia e Construção)

320. abissal

nunca sonhava pois sequer dormia. dedicava-se, como aconselhavam as escrituras, a orar e vigiar para não ser surpreendido.
uma noite, na escuridão liquida da fossa abissal em que custumava mergulhar, divisou um pequeno ponto de luz fosforescente e imaginou se não seria um daqueles seres esquisitos que só se encontram nas profundezas. não quis crer que sonhasse e esfregou os olhos uma, duas vezes. foi então que percebeu que estava sem o escafandro.

319. diálogo entre barras

- já há quantos anos aqui?
- quinze, quase dezesseis - respondeu o carcereiro.
- quando eu sair daqui pretendo escrever. e você?

318. aplicada

aplicada, riu enquanto passava a borracha em volta do braço para dilatar as veias. a avó costumava defini-la assim, com orgulho: uma menina aplicada.

317. festa

na festa dos descolados, eu deslocado.

29 fevereiro, 2008

316. memory

o elefante que sempre se orgulhou de sua prodigiosa memória agora deu para beber. acontece que a sua parceira fugiu com outro e por não conseguir esquece-la é que a maldiz (a memória)

315. equestres

venderam-lhe aquele cavalo como um legitimo andaluz ( entendia as ordens em espanhol). só depois é que ele se deu conta: o animal era paraguaio. e bilingue.

314. kali II

Kali nasceu com seis braços. Toda vez que ia à manicure gastava uma nota - mas em compensação botava a fofoca em dia e desabafava: "se os caras prestassem mais atenção nas minhas pernas..."

313. kali I

kali nasceu com seis braços. a mãe, do lar, crendo-se amaldiçoada pelos deuses caiu em profunda depressão. o pai, agricultor, homem prático, ao contrário, viu "naquilo" uma bênção.

15 fevereiro, 2008

312. cena urbana I

o semáforo demorava-se no vermelho. o carro era blindado e não havia nada que pudesse temer. o que ele não sabia era que o líquido que o menino molambento com o rodinho na mão derramou no para-brisa não era água. descobriria-o com olhos de pavor quando o segundo garoto, o que fazia acrobacias pirotécnicas, se aproximasse com um sorriso nos lábios rachados pelo frio do fim da tarde e uma tocha na mão .

311. perdas

perdeu a virgindade, o primeiro marido, o segundo, o trem da história, o das onze, o fio da meada, o medo de ser feliz, o juízo, a esperança e a vergonha sem jamais se queixar. os finais de telenovela, porém, ( quem ficou com quem?) eram sagrados. não os perdia por nada. no fim da vida encontrou a paz dos videos- tapes.

310. de amor e jogo

tomou um pé-na-bunda mas não se abalou. era um otimista incorrigivel e acharia rápido uma forma de consolar-se a si mesmo. "azar no amor, sorte no jogo", vibrou e dirigiu-se confiante ao Bingo Crosby disposto a arrebentar a banca. Ali apostou , perdeu e conheceu ana maria villari khaled prado, divorciada, vinte e dois anos mais velha, cheia da grana e de amor pra dar.

309. no lugar errado

no lugar errado, na hora errada quando anunciou-se o assalto. a policia cercou o local. tomado entre tantos como refém perguntou-se: por que eu? acaso, azar, destino... analisou probabilidades, avaliou chances, perdeu-se em estimativas- nunca fora bom com os cálculos. lá fora, pelo altifalante, alguém propunha negociação pela sua vida. quanto valeria? quem dá mais?estranhamente não sentiu medo. talvez porque não tivesse nada a perder além do fim do filme da sua vida que lhe passava pela cabeça. cabeça contra a qual premiam o frio e curto cano da arma.

308. o contrabandista de órgãos

Capturado, Bertoldo foi apresentado à imprensa e ao grande público como o mais infame contrabandista de órgãos de que se tinha notícia. Por conta dos seus atos vis foi levado a juri popular e condenado por unanimidade e sem apelação à pena capital.
No dia seguinte à sua execução, nossa valorosa polícia, sempre diligente, voltou a campo e capturou também os receptores de órgãos, não menos culpados. Com eles, as provas do delito: Um container inteiro de Yamahas de última geração.

307. o atalho

para cortar caminho tomou um atalho. o que cruzava a linha do trem. do outro lado, para sua surpresa e estranheza, a esperavam a mãe, a avó, o avô e outras pessoas bem mais antigas em quem ela angustiada reconheceu traços de sua própria fisionomia.

306. conto policial indiano

na busca ao desaparecido ao longo das margens sagradas do ganges, para desespero dos legistas, o inspetor ganesh ordenou o resgate de mais um corpo - até aquela hora, quinze para o meio-dia, já era um total de dezessete.

31 outubro, 2007

305. 25 de março de 2007


o camelô chegou antes de amanhecer armou a barraca naquele ponto de intenso movimento e esperou o dia inteiro as pessoas possiveis fregueses clientes potenciais que passaram indiferentes assim como os guardas municipais que também deram as caras estranhamente ignorando a sua visivel apreensão nada apreenderam e só no fim da tarde um bancário ou securitário meia-idade récem-demitido fez-lhe uma oferta:
"dou três paus nessa barraca, parceiro. um em cash e dois no pré-datado".

304. blue viagra


o som ambiente (kenny g) dá o clima.

- sobe? - pergunta-me a ascensorista mais sexy do mundo com um sorriso sensual a desabrochar nos lábios rubros.

remoço vinte anos, sorrio de volta, e respondo pleno de confiança e força:

- não tenha dúvida, baby.

a cartela de pilulas azuis no bolso da jaqueta é o segredo do meu super-poder. ninguém pode saber, assim como da minha identidade secreta. vamos às alturas.