01 abril, 2010

558. hai kai n.49

Contra o pára-brisa
Pequenos impactos
Insetos camicases

25 março, 2010

557. purgante

Sua avó se aproxima com a colher de chá apontando na sua direção e ele recua aterrorizado como se visse naquela mão engelhada e trêmula um punhal.

- olha o aviãozinho! – ela sorri diabolicamente. E enfia-lhe o purgante garganta abaixo.

Ele tenta bravamente resistir e acaba se engasgando e acordando em estado de pânico, com acessos incontroláveis de tosse.
Recomposto, com alívio lembra-se de que a avó estava morta e enterrada. E que aquele pesadelo provavelmente deve-se aqule trauma de infância.

24 março, 2010

556. hai kai n.48

Bom dia cavalo
Saúdo o nobre eqüino, eu
Que muito falo.

555. hai kai n.47

Me assalta
Um pensamento verde
Gafanhoto que salta

554. Dignidade

É humilhante para um policial como eu ver espalhados por aí esse monte de cartazes de Procurado como se eu fosse um delinquente, um fora da lei. Não fiz nada para merecer isso. Apenas não conseguia mais viver naquela casa, com aquela gente insuportável. Ia acabar agredindo um deles. Porra, eu mereço mais respeito, consideração. Sou um cachorro, mas tenho cá minha dignidade.

553. Lluvia

Lloven cuchillos em Berna – suizos genuinos

552. Concupiscencia de la carne

No deseaba la mujer del prójimo. Ni la suya.
* tradução: não desejava a mulher do próximo. Nem a sua.

551. o mestre

Lá fora sentia o verbo preso, contido. Cá dentro, recluso, encarcerado, é mestre de aforismos.

04 março, 2010

550. hai kai n.46

Nos amplos estábulos
Da Torre de Babel
Cavalos cagam vocábulos

549. hai kai 45

Vago abstêmio
Em espírito convosco
Pelo bairro boêmio.

548. hai kai 44

Aqueduto em ruínas
Águas passadas
Só movem saudades

547. hai kai n.43

Jacaré ia marcar o tento
Tamanduá bandeira
Marcou impedimento

24 fevereiro, 2010

546. memória da dor

A dor fantasma. Já ouvira falar que se dava naqueles que tem pernas ou mãos ou braços amputados. A tal memória da dor. Agora sentia-a ele próprio. E no coração que lhe tinham levado embora.

545. joão (conto)

João nunca faltava ao trabalho, jamais adoecia, era o tipo do funcionário exemplar. Vivia, comia e respirava a fábrica. Vestia a camisa, ou melhor, o macacão, que para ele era como se fosse uma segunda pele e, ao longo dos anos, esforçava-se por mostrar-se engrenagem importante no funcionamento da linha de produção onde atuava. Quando chegou a época de se aposentar, não o fez - decidiu continuar trabalhando com o mesmo amor e entusiasmo do primeiro dia; embora a sua saúde já não colaborasse muito para que sua produção se mantivesse satisfatória. Na concepção de João, porém, ele se havia tornado insubstituível e estava de certa forma convencido de que sem ele o mecanismo não funcionaria a contento. E como naquele ambiente totalitário ter concepções, opiniões, fazer conjecturas ou pensar era algo perigoso e por si só já acusava em quem tivesse este tipo de comportamento um desvio, uma avaria, João foi encontrado morto. Morrera tarde da noite no pleno exercício de suas funções. Fazia serão para cumprir atingir as metas de desempenho.

Pela manhã, antes de começar o expediente, um funcionário do RDR (Recursos de Decujus Robóticos) desmontou suas partes , embalou-as em um pequeno container cinza que etiquetou com o alfanumérico XTRK33. Depois conduziu-o ao arquivo morto e o acomodou junto de outros containeres de antigos funcionários colegas seus desativados. Por exigência fiscal seus restos permaneceriam ali por cinco anos, após o que seriam finalmente triturados e reciclados e transformados em novos funcionários que, pela herança genética, esperava-se, fossem tão eficientes quanto o fora João.

544. sugestão

"Vai cuidar da sua vida!", ela disse ao dispensá-lo. Mas ele não seguiu seu conselho. Preferiu refugiar-se no trabalho pois muito mais que a ela ele amava o que fazia: maquiar cadáveres, cuidar da morte dos outros.

543. o cara (miniconto)

“Eu sou o cara”, costumava se vangloriar. E um dia ao dizê-lo na hora e no lugar e para a pessoa errada, foi executado friamente.
“Aquele coroa não era o cara!”, repreendeu o contratante ao pistoleiro de aluguel. “ É nisso que dá confiar em amadores”

Ricardo Delfim, Claudio Brites (Editor) e Ademir Pasquale - No lançamento do Contos Imediatos.

Eu, Sergio P. Couto, Roberto Causo, Ramiro Giroldo e Marcello Simão Branco. Na Martins Fontes da Paulista.

18 fevereiro, 2010

542. hai kai n.41

O rio da minha aldeia
Agora corre apenas
Pelas minhas veias

541. o seguidor (the follower)

tuitou antes de ser encontrado morto: estou sendo seguido. se algo me acontecer ( e com certeza vai acontecer) descartem a versão de suicídio. De nada lhe valeu, pois, seu único follower era justamente o assassino.