01 setembro, 2014

POEMAS COM POETAS


1

 

É isso ai, bicho!

Enquanto eu vasculhava

Que nem pinto no lixo

Cacos e mais cacos do acaso.

Por acaso

Descobri

A poesia

de

Cacaso

 

 

 

2

 

 

Madrugada

vibra furioso o telefone

a perturbar-me o sono

é  Ledo Ivo? – pergunta do outro lado uma voz triste

Não, Não é – respondo de maus bofes

É  Ledo engano

 

 

 

3

 

Vai, vai Carlos, vai ser Gauche na vida!

Não vou!

Por que não se até o Mario foi?

Mario? Que Mario?

O Quintana

Ora, este não é Gauche, Uai

é Gaúcho

Ah!!

 

 

 

4

 

Quase por um triz

Não cai-me no olho um haicai

Da Alice Ruiz

 

 

5

 

Heteronímia

 

Pessoa é outra pessoa

Ou finge que não o é

 

 

6

 

Hidrófobo

 

A espuma de creme de barbear

Nos bastos bigodes polacos de Paulo Leminski

denunciam

acentuada hidrofobia

 

cão- índio

canídeo

Ensaia suave a dança da chuva

E ameaça

Nosso

Piquenique

12 agosto, 2014

embate (haica)


Nem um Round
Sustentei no embate poético
Com Ezra Pound

A Mosca (conto)

Acordou espichado em uma cadeira giratória dessas de escritório, o corpo dolorido, a boca seca, braços e pernas dormentes – a corda apertada? Do alto descia uma luz forte que lhe perfurava os olhos. Era 1971. E não era sua primeira vez.

“Os nomes! Quero os nomes, filho-da-puta!”, ouviu pela direita, com a audição boa, a que não perdera na ultima sessão .
 
“Coronel Diamante”, associou. Pela voz rouca, autoritária, imperativa. A chapa ia esquentar.

 No alto, ele percebeu, uma mosca reluzente pousou na borda do prato branco onde o olho amarelo lâmpada se encaixava. Por algum motivo que lhe fugia a compreensão, o inseto auto-imolava-se, entregava-se em sacrifício.

No seu caso, não havia nada a fazer senão torcer para que aquela cena de aula de ciência passasse despercebida. Que não sugerisse nada ao seu algoz.
.

miniconto


Ledo havia sido desenganado. Para que não sofresse, continuavam enganando-o.

Postal de Macau (vintage) - Inspiraçao para um Conto

 
 


01 agosto, 2014

Minicontos - original e versão


 

“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.”
(Anton Tchekhov)

 

 

“Um homem, em São Paulo, vai ao bingo, perde tudo, volta para casa e, sorrateiro,  arromba o cofrinho das crianças”

(versão de Chico Pascoal)

A Sereia (miniconto)

            Jovem, bela, carismática, Irene trabalhava no Aquário da cidade. Era a sereia graciosa que nadava imperturbável entre peixes e quelônios, entre conchas e corais, a despertar nos visitantes sentimentos distintos em relação a si: as crianças, porque inocentes, acreditavam-na encantada; os pais, porque lascivos, a desejavam ardentemente; as mães, porque invejosas, a odiavam.
 
Uma manhã, ao abrirem o aquário,  encontraram Irene boiando no tanque, o rosto perfeito de uma palidez suavemente azulada, os olhos opacos, os cabelos esverdeados como as algas.
Sua frágil natureza não resistira ao veneno destilado pela perfídia  dos olhares de despeito.  

Embate


Nem um Round
Sustentei no embate poético
Com Ezra Pound

Pedras, Noites, Poemas ( a Paulo Leminski)


As pedras estão todas ai, sob os caminhos aplainados e  as vias principais

E ao contrario dos dados  já não rolam.

 

As noites caem sem alarde em avalanche sobre nossas cabeças

Mas não como cai o céu fuliginoso usurpado por terríveis maquinas voadoras

E pássaros covardes em sazonal diáspora.

 

Os poemas no entanto subsistem:

Aos cacos – que juntamos em nosso tolo afã arqueológico.

Aos retalhos – que alinhavamos como inúteis remendos

Em nossa esburacada roupa de domingo.

20 junho, 2014

Inveja (miniconto)

Teimoso, não dera ouvidos aos conselhos e comprometera naquela transação todas suas economias. Enganaram-no. Artimanhas de gente de má fé, seu sonho da casa própria simplesmente se desfez no ar. Cabisbaixo, arrasado,  sem saber o que fazer e que rumo tomar na vida, deixou-se ficar  em meio à matéria-prima de quinta categoria espalhada pelo terreno baldio onde pretendia erguido o que pudesse chamar de lar. Foi quando viu arrastar-se diante de si, lento no seu ritmo de molusco gastrópode,  um velho caracol carregando a sua concha calcária.

O Gato e o Gaturamo (Nekoo e Fuukinchoo)*


Gato, muro

Pássaro, ramo

Sayonará*

Gaturamo.

 

 

フウキンチョウ (fuukinchoo = Gaturamo) 

(Nekoo = Gato)

 

さようなら (Sayonara – Adeus)


haicai (máscara)


Insólito agosto
Em vez de caírem as máscaras
Cai meu rosto
 
 

06 maio, 2014

O Ano do Cavalo - 2014


Ano do cavalo

Percorro as ruas sujas do bairro

A meio-trote

Mostrando os dentes

Numa imitação barata de sorriso.

 

Ano do cavalo

Escoceio-me por dentro

Empino (o sol a pino)

E Ninguém me dá bom-dia.

Multiconto Colorido - #ff66cc

Indiferente às pedradas homofóbicas, Ele cantarola La Vie en Rose e segue em frente pelo calçadão, de cabeça erguida, equilibrado em seus saltos-agulha.
 
Participação no projeto do escritor gaúcho Marcelo Spalding
 

5 nanocontos 2014


1.       Em suma... Sumiu!

 

2.       Jogava verde, sempre: o incorrigivel ecologista.

 

3.       Riu amarelo o reino inteiro – em consonância com o Mandarim.

 

4.       Tímido? Eu? – ruborizou. E o espelho riu-se dele.

 

5.       Botei tudo a pratos limpos! – gabou-se o glutão.

 

Desvio-me (poema)


 

Desvio-me

Como posso

Do que quer que me atires:

 

Pedras

Pragas

Facas

Flores

Beijos

Copos

Corpos

Pires.

 

Esquivo-me dos teus olhares:

 

Dardos

Petardos

Balaços

E de todo um calhamaço

De mensagens subliminares.

 

Esquivo-me dos equívocos

Oculto me no desvão

No sótão

Tão só

Exposto

Alvo

Em tua alça de mira

Mesmo que atires

E não me firas

Senão

No meu coração.

haicai - maio/2014


Insólito agosto

Em vez de caírem as máscaras

Cai meu rosto

16 abril, 2014

Bossaudade (letra e música)




 
 
BOSSAUDADE
 

video
Chico Pascoal

 

A neve cai

Saudade vem

E a solidão de quem não tem

Seu bem...

 

A noite cai

A gente sai

A gente sem...

 

Dou a volta no mundo

Volto num segundo/Tempo pra te ver não dá

Coração confuso/

Subverto o fuso-horário de não chegar

 

Dia que não passa/

Perfeição na pressa/ tanta autopeça pra ajustar.

Conto horas, dias,

Meses, noites frias/ navios por  atracar.

 

Longe de ti

Fora de mim

E a ilusão imensa assim

sem fim

 

Anos a fio

Margem do rio

Marcas de amar em mim.

07 abril, 2014

O Filho (conto SciFi)

  “ Toma que o filho é teu! “, disse-me Khêrnya, irritada e furiosa. E atirou aquela coisa amorfa e gosmenta no meu colo.

 Caí na real. E minha primeira reação foi jurar por todos os santos e orixás protetores, que nunca mais colocaria na boca  uma gota que fosse da marvada -  reconheço que era a milésima vez, mas eu sempre assumo este tipo de compromisso, digo de jurar e fazer promessas que não cumpro,  quando cometo alguma besteira ou algum excesso sob o efeito do álcool.

 Khêrnya subiu nas tamancas e entrou no seu veículo prateado batendo com força a porta. Perguntei-lhe se ia demorar e ela me mandou para aquele lugar.... Helheimr*.

Quando ela já ia longe, sumindo por trás do Pico do Jaraguá, perguntei-me se ela cumpriria mesmo a ameaça de não mais voltar.

 

À distância Khêrnya invadiu minha frequência telepática apenas para me dizer despeitada:

 

“Pode apostar, terráqueo! Pode apostar!”

 

*. Inferno na mitologia nórdica: Helheimr (Lar de Hel deusa da morte).