05 fevereiro, 2010

540. o velho capitão

As águas do rio subiram rapidamente, invadiram as margens e, malgrado os perigos, o velho capitão permaneceu em seu posto encarapitado no telhado enegrecido como seus dentes de fumante secular. Não abandonaria a casa. Afundaria com ela. Aos que tentaram resgatá-lo apontou a carabina. Enxergava neles intenções bucaneiras.

TV CRONÓPIOS H2horas (O Filme)

Minicontos, poemas, pequenos textos... É o que apresenta o filme H2horas do Pipol, na TV Cronópios. Fiz uma ponta. Confiram.

http://www.cronopios.com.br/h2horas/

13 janeiro, 2010


Produção em alta: sairam contos meus no site O Bule e na Cyberzine Terrorzine n.17

04 janeiro, 2010

No lançamento do Contos...

Com o escritor Ademir Pasquale, editor da Terrorzine, zine em que andei publicando umas brevidades

26 novembro, 2009

539. hai cai 40

O caminho só se faz andando
Ensina o mestre
Aos discípulos que o vão carregando

538. hai cai 39

Prova de coragem, exame
Para o curumim
É cutucar enxame

537. hai cai 38

Lua alta
Refletida no rio
Tarrafeio-a.

536. de anjos e demônios (a Ana Maria Shua)

Asmodeus , o demônio regente do sexo, interpôs-se malevolamente entre aquele jovem casal: ora deixava a esposa frígida como a neve das montanhas e com cefaléias enlouquecedoras; ora arrefecia com uma ducha de água fria a excitação efervescente do marido. E assim começaram as brigas que acabariam com aquele casamento se um anjo do Senhor não fosse enviado em seu socorro. Este anjo a quem coube tão nobre missão era leal, destemido e com sua poderosa espada de luz não demorou em despachar o demônio de volta aos domínios abissais de Lúcifer. Era, como o são os anjos, também tão divinamente belo que ambos, esposa e esposa, por ele acharam de se apaixonar perdidamente. Estabeleceu-se aí uma situação no mínimo constrangedora. À distancia, do seu nicho de trevas, Asmodeus se divertia com tudo aquilo. Quem conhece a natureza dos humanos, estes seres imprevisíveis?

535. nó

O grito do gol que não houve atravessado na garganta. Um nó que ele sabia só se desataria depois de tomar duas conduções e quatro branquinhas no boteco lá da vila; ou progressivamente, ao longo da semana, até a próxima rodada do campeonato.

534. realização

Sentindo-se não realizado profissionalmente o chaveiro do bairro baixou as portas do seu negócio e se mandou para a Amazônia. Lá abraçou o Santo Daime. Aprenderia a abrir as portas da percepção.

533. cruzeiro

Cruzeiro para as Ilhas Virgens. Impuseram-lhe: ou dá ou desce. Ela mirou o azul calmo dos Caribe e achou que era tarde para aprender a nadar, então relaxou. E gozou.

16 novembro, 2009

532. 1929

Tarde da noite já, Ariosto Bequimão está só e, meticulosamente, manuseia sua arma: uma pistola cromada, cabo de madrepérola, presente do seu vizinho e parceiro comercial, o Conde Francisco Matarazzo. Desmontar, limpar, lubrificar... para ele é uma espécie de terapia. Ao fazê-lo esquece por alguns momentos dos seus problemas financeiros que o Crack da Bolsa de Nova Iorque não poupara ninguém. Suas mulheres, esposa e amante, já o abandonaram carregando o que podiam. Seus amigos, ou aqueles que se apresentavam como tal quando ele ainda dispunha de dinheiro e prestígio, arredaram pé - só os credores, hienas famintas, não desistem de bater à sua porta.
Ao certificar-se de que a arma está descarregada, Bequimão inevitavelmente lembra-se de sua falecida mãe a adverti-lo para que tomasse cuidado ao brincar com armas. “Superstição”, ri. “Como pode o diabo enfiar um cartucho aí sem que se perceba?”. Não responde. Não é de botar fé em crendices. Descontraído, lembranças de sua vida logo afluem: casamento, viagens, pequenas aventuras, irresponsabilidades... Lembra-se de uma vez ter feito roleta russa com alguns colegas da faculdade. Loucura. Estavam bêbados e riam muito. Felizmente ninguém se machucou. O estampido seco que se ouviu não surpreende ninguém. Aquele seria um ano triste.

531. anéis

Tomou-lhe a mão esquerda fria entre as suas e, disfarçadamente, tentou retirar do seu dedo gordo a aliança de ouro bem fornida, porém gasta pela sucessão das tantas bodas que comemoraram juntos. Se da vida nada se leva, concluiu, de nada mais haveria de servir à sua defunta esposa aquele maldito elo dourado que lhes algemara as almas por meio século. Não conseguindo, lamentou em voz baixa: uma pena. Mas logo reconfortou-o a certeza da existência em algum lugar de uma apólice de seguros acenando com uma revoada de notas de cem, cinqüenta... novinhas. Revirou a casa, quase botou abaixo as paredes sisudas entre as quais procriaram, cresceram e se multiplicaram e envelheceram e nada encontrou. Irritou-se. Blasfemou. Perdeu o que lhe restava de compostura. Deu para acusar a prole pelo sumiço do documento. Ameaçava deserdá-los a todos. Como um imóvel avariado que ameaçasse desabar interditaram-no. Mingou. A aliança delgada frouxa dançando no dedo. À filha solteirona coube o fardo de cuidá-lo. Elisa não se lastima: vive de espera. Seu príncipe tem a cara de Dom Sebastião. Para passar o tempo inventa coisas inúteis como tricotar cachecóis de lã que nunca serão usados naquele sertão agreste onde vivem confinados.

530. dilema

acordou sentindo-se um ser desprezível. E com um dilema: "sou um homem ou um rato?". ao questionar-se assim não ocultava a clara intenção de provocar um terremoto, um cisma que fosse no seu mundinho cômodo, um vendaval que intimasse o seu íntimo a enfim assumir de vez uma personalidade ímpar, sólida, compacta.sem que pudesse se controlar saiu de casa cabisbaixo arrastando o sobrepeso do corpo, os olhos a varrer os desníveis do pavimento de velhas pedras portuguesas e fez ponto no mesmo bar de sempre, o Oráculo. ali, entre a cerveja gelada e a porção generosa de provolone, foi aos poucos se desencorajando de convencer-se a si mesmo da urgente necessidade de aprender, antes tarde do que nunca, a conviver com suas próprias diferenças e com aquela sua cruel e inusitada dualidade.

529. prevenção

diagnosticado que sofria de mal do coração, para prevenir-se de quaisquer sobressaltos, deu para ler edições de jornais da semana anterior. tudo corria muito bem até que descobriu, com óbvio atraso e nenhuma surpresa, o seu próprio necrológio.

528. o fim

O condenado acreditava que renasceria das cinzas do último cigarro do último pedido feito ante o pelotão de fuzilamento. Enquanto fumava, divertia-se com a inquietação do comandante do pelotão que marchava de um lado para outro, mãos para trás, suando em profusão. E alongava seus últimos minutos fumando sem nenhuma pressa.
– Não se afobe Coronel. Eu podia ter pedido um charuto – pilheriou soltando uma baforada. O outro não riu. Apenas ia e voltava. Consumiu-se o cigarro. Resoluto o oficial sacou do sabre e ordenou:
– Preeeeeeeeparar!! Seus comandados juntaram os calcanhares e levaram aos ombros as armas.– Apoooontar!!Apontaram. Quando o enchia outra vez os pulmões para ordenar que atirassem ouviu atrás de si um tropel dos cavalos e uma ordem:
– Cancele a execução, Coronel! Voltou-se. Fez-lhe sombra a figura de um general estropiado com um braço na tipóia. Confuso, sua imediata reação foi perfilar– se e prestar continência.
– É o fim, Coronel – disse o comandante, a voz embargada. – Resta-nos a rendição. Empreste-me sua espada para que... – parecia pedir desculpas – Pois perdi a minha.
– Sim, senhor!
Triste e diligentemente o Coronel embainhou a espada, desafivelou o cinto e entregou o conjunto ao seu superior.

527.hai cai 37

Língua de fora
Gravata rósea
Cão a rigor.

526. hai cai 36

Sem cachorro, no mato
Improvisou na fábula
E caçou com gato.

525. hai cai 35

Cachorros latem com atitude
Em latim vulgar
Por estas latitudes.

524. hai kai 34

Que mais o bicho-homem teme?
Bala perdida, vírus letal, um par de cornos
Ou a patroa todo mês de Tepeeme?